Crítica | Lanterna Verde e Arqueiro Verde: Na Estrada

Embora tenha chegado na revista do Lanterna Verde em 1968 (na edição #63: This Is The Way The World Ends) o trabalho relevante de Dennis O’Neil com o personagem começou com o estabelecimento de uma parceria do policial galático com o Arqueiro Verde, numa série que durou da edição #76 à 122 da revista Green Lantern Vol.2, entre os anos de 1970 e 1979. A primeira parte desse encontro é este arco Na Estrada, que abarca as primeiras cinco revistas dessa fase e coloca heróis de pensamento político e social bem diferentes lutando lado a lado por um considerável período de tempo, numa relação de aprendizado, brigas e amadurecimento para as duas partes.

A introdução à esta nova fase acontece nas duas primeiras edições, e elas trazem excelentes histórias que direcionam a atenção do Lanterna para problemas sociais que ele simplesmente “não via”. O roteiro promove um encontro espinhoso, meio cômico e muito bem escrito entre Hal Jordan e Oliver Queen, onde questões de classe são imediatamente expostas ao lado de questões raciais. De cara, uma mudança e tanto para a abordagem de uma história publicada pela DC Comics na época, e provavelmente algo tão incompreensível quanto hieróglifos para os “leitores” que em pleno século 21 reclamam que “estão colocando política” no gibizinho deles. Oh, dó.

Hal teve uma educação e uma carreira heroica que o colocava sem questionamentos ao lado da lei. A plena fé nas instituições e na justiça acabam sendo os elementos mais abalados do personagem aqui, que na viagem ao lado do Arqueiro e de um Guardião especialmente designado para acompanhar a jornada, atravessam os Estados Unidos ao longo de meses, e encontram pelo caminho os muitos problemas de sociedades cosmopolitas e com uma história baseada na extrema exploração e no extermínio. A cada nova fase da viagem, um conceito é destacado e os abalos ideológicos surgem, quase sempre terminando em bate boca ou troca de socos entre os heróis.

Temos aqui críticas à negação de direitos aos trabalhadores, ao machismo e à misoginia (quando a Canário Negro entra em cena, embora seu papel não seja assim tão legal no decorrer do arco), além de atenção para temas de complexidade maior, como os diversos aspectos da questão indígena nos EUA, a poluição do meio ambiente frente aos lucros e aos empregos que ela gera, a xenofobia, a superpopulação e as escalas da justiça, quando o tom do arco muda da identificação do burguesinho com os problemas terrestres para um estranho julgamento galático.

Com a mudança, o leitor tem a impressão de que muita riqueza narrativa se perde, além de a história ficar um tantinho confusa com o julgamento do Guardião que acompanhava os verdinhos pelo país. A arte, no entanto, acaba dando um grande salto. E não que fosse ruim antes, mas os desenhos para cenários espaciais são sempre mais interessantes (pelo menos para mim) e se não fosse a primeira parte tão fortemente centrada em problemas sociais — que passa quase abruptamente para uma trama que é bem mais a cara da revista do Lanterna, só que soa um tantinho deslocada pela forma como o texto flui para ela –, talvez eu aproveitasse bem mais o segundo ato, que termina com algumas estranhas elipses, deixando o Guardião cumprindo sua sentença em outro planeta e separando (temporariamente, como sabemos) Hal e Oliver.

Essa primeira parte da parceria entre Lanterna Verde e Arqueiro Verde marcou a época e abriu as portas para o fortalecimento de algo que se tornaria a verdadeira cara da DC em uma década, a seriedade no tratamento de seus heróis e de questões sociais no meio das histórias. Uma das parcerias entre Dennis O’NeilNeal Adams que trouxe para os quadrinhos uma conexão crítica com a realidade, utilizando esse novo tratamento para construir uma mudança de perspectiva a personagens já bem estabelecidos na editora. O início de um momento seminal dos quadrinhos.

Arqueiro Verde e Lanterna Verde: Na Estrada (Hard Traveling Heroes I) — EUA, abril a dezembro de 1970
Contendo: Green Lantern Vol.2 #76 a 81
No Brasil: DC Comics – Coleção de Graphic Novels n°59
Roteiro: Dennis O’Neil
Arte: Neal Adams
Arte-final: Frank Giacoia, Dan Adkins, Dick Giordano, Mike Peppe
Cores: Cory Adams
Letras: John Costanza
Capas: Neal Adams, Jack Adler
Editoria: Julius Schwartz
160 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.