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Crítica | “Lately I Feel Everything” – Willow

por Kevin Rick
714 views (a partir de agosto de 2020)

I don’t think that I can do it all alone

But I tell them, “Don’t save me”

A música que abre Lately I Feel Everything, transparent soul, nos apresenta uma Willow sonoramente distinta do habitual R&B, letras existenciais e melodia psicodélica que fizeram parte da sua identidade musical adolescente. No seu mais novo álbum, a cantora nos oferece o pop-punk, o rock alternativo dos anos 90 e a rebeldia juvenil. Acompanhada de Travis Barker (bateria), um dos membros de Blink-182, uma das primeiras bandas que desenvolveram a mescla da melodia pop com a agressividade punk, a primeira faixa abre a explosão de emoção bruta, catártica e angustiante dos outcasts com a bateria furiosa e o eu-lírico emo.

Se o punk mais, digamos, “original”, reúne essa raiva juvenil contra o sistema, a sociedade e o capitalismo, o pop-punk busca o desabafo temperamental da ansiedade e confusão que acompanham o atribulado crescimento adolescente, mas com o mesmo tom de ataque provocativo – aqui, existe até uma divertida skit de F**K You. Dentro destes aspectos, Willow se torna uma voz e estrela punk atual para uma geração que, como o título do álbum diz, sofre de tudo, tudo ao mesmo tempo, resultado da falta de transparência e a socialização de aparências. De muitas formas, a cantora homenageia e progride os passos de bandas como ParamoreMy Chemichal Romance e a rainha do pop-punk Avril Lavigne para uma geração ainda mais imersa e inescapável do turbilhão de emoções – seja a conectividade, o crescimento da alienação ou a pandemia.

Músicas como transparent soul, Gaslight !BREAKOUT! têm essa sonoridade explosiva com arranjos ricocheteados entre riffs de guitarra estridentes e vocais ansiosos – aliás, Willow faz um salto de gêneros com bastante facilidade, personificando vocalmente a frustração com boa enunciação, ainda que algumas vezes soe meio “cantora Disney”. As letras são simples e o próprio instrumental não vai muito além da descarga de adrenalina, mas são faixas gostosas de ouvir dentro da naturalidade honesta de Willow, canalizando uma bagunça emocional com letras sobre felicidade e solidão, amor próprio e ansiedade, até mesclando um som de rock de garagem (!BREAKOUT!) e um pouquinho de surf rock em Gaslight para fazer algumas diferenciações sonoras. Grow, acompanhada de participações de Travis e Avril Lavigne, fecha este ciclo energético de gerações emo e pop-punk em eterno crescimento juvenil.

Por outro lado, é interessante notar como Willow coloca bastante pessoalidade e intimidade no álbum. Se nas letras ela já imprime a sua participação confusa característica da juventude, como por exemplo tocando em assuntos como fama e privilégio que moldaram sua vida, ou então abrindo uma grande espaço sobre ingenuidade (naïve) e frustração em relacionamentos, é seu lado musical mais doce e angustiante que surpreende (para esse álbum, após o início bombástico) em faixas como Don’t Save Me, Lipstick, 4ever e Come Home. Tirando o pé da bateria alta e o vocal rebelde, grande porção do miolo da obra é uma jornada melancólica por distorções de guitarra, vocais suaves e atmosfera sombria – até um pouquinho gótica, não? – sobre os mesmas temas das músicas temperamentais, só que nesse aspecto mais introspectivo e lúgubre.

Ainda que ganhe essa carona de indie no meio do pop-punk chiclete, Lately I Feel Everything está bem longe de ser experimental. Não é necessariamente genérico, mas a experiência, para além de ser Willow fazendo esse som, não proporciona surpresas musicais ou inovações melódicas. E está tudo bem. Willow está fazendo seus próprios experimentos entre gêneros, demonstrando um alcance e multifacetação artística admiráveis, e soa honesta, ágil e natural em um conjunto explosivo e angustiante de confusão e rebeldia de párias, exilados, emos, e, aliás, para qualquer grupo ou coletivo por aí, afinal, todos passamos por ansiedade, frustração romântica e atribulações do eterno crescimento e aprendizado da vida. Além de uma grande artista em idade extremamente jovem (20 anos), Willow se mostra uma artista de hinos, sejam eles existenciais, pop-punk ou melancólicos, para uma geração que sente tudo.

Aumenta!: transparent soul, 4ever, Gaslight
Diminui!: XTRA, naïve
Minha canção favorita do álbum: transparent soul

Lately I Feel Everything
Artista: Willow
País: EUA
Lançamento: 16 de julho de 2021
Gravadora: MSFTS, Roc Nation, Polydor
Estilo: Pop punk, rock alternativo, indie rock, pop rock

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