Crítica | Lathe Joshi

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Joshi é um torneiro mecânico apelidado de “lathe Joshi” (lathe é “torno” em inglês), conhecido pela perícia no que faz e pelo amor por sua profissão. Depois de 35 anos de trabalho ele é demitido. A oficina onde passou décadas da sua vida, ao lado de outros companheiros, é vendida e a produção que ali se fazia é incorporada a uma empresa maior, já marcada pela automação industrial que avança na cidade.

A situação do protagonista deste filme hindu é a mesma que se encontra em qualquer lugar do mundo onde há o desemprego estrutural. A chegada da tecnologia atinge as formas manuais de produção e milhares de pessoas precisam se reajustar à realidade do automático, cenário que pode funcionar bem para alguns, relativamente aptos a abraçar os novos tempos; mas para a maioria reinam a dificuldade e falta de oportunidade de aprender a lidar com novas máquinas, o problema da idade e a diminuição da oferta de emprego vinda pela automação, situações que passam a ser fixas para essas pessoas. E é neste grupo que o torneiro Joshi se encaixa.

Escrito e dirigido por Mangesh Joshi, o filme desenvolve dois cenários ao mesmo tempo. No ambiente do trabalho, Joshi (Chittaranjan Giri em uma atuação contida, primando pelo silêncio, pelos olhares vazios e com uma construção simples mas bastante eficiente da docilidade do personagem) é o centro das atenções. O espectador percebe o impacto emocional que a demissão causou no trabalhador, fazendo com que ele perdesse algo que claramente lhe dava motivos para viver. Parece forte demais essa construção, considerando que Joshi tem família, mas é exatamente isso que o trabalho representava para ele, considerado um artista no que fazia. E a justificativa para isso vem no momento em que o outro cenário é explorado.

O lar de Joshi é um ambiente simples. A direção de arte torna o espaço agradável, de certa maneira convidativa — a fotografia nas internas já vai por um outro caminho, privilegiando as sombras e alguns filtros em azul, certamente para mergulhar os personagens nesse desamparo cujo núcleo é o desemprego de Joshi — e através dos cômodos ajuda a erguer a identidade da esposa (Ashwini Giri), do filho (Om Bhutkar) e da mãe do protagonista (Seva Chouhan), que também serve de elemento cômico. Em um espaço, mostras do trabalho de culinária que a esposa faz para vender fora; em outro cômodo, todo o aparato tecnológico de trabalho do filho, um contraste temático excelente para o enredo; e praticamente confinada ao espaço da cama, a mãe, que é cega e protagoniza uma das cenas mais interessantes e de forte simbolismo no filme, quando o neto mostra para ela um vídeo de um templo.

O roteiro acaba cansando o espectador em dado ponto do desenvolvimento, quando insiste em mostrar as caminhadas e tentativas de Joshi para comprar a máquina na qual ele trabalhara por tantos anos. É fácil entender a intenção do diretor e de fato essa via crucis do homem marca o público, principalmente após a cena em que ele, claramente se sentindo humilhado, pede dinheiro para o filho. O conflito exposto funciona e tem ótimas interpretações no processo, mas tropeça pela insistência nas “portas fechadas” que o desempregado encontra, situação que já tinha sido compreendida pelo espectador e que avança para um estado de dúvida de relacionamento e existência no final do filme. Lathe Joshi nos convida a olhar de maneira diferente para o trabalho e para o impacto da automação em uma micro-realidade, uma das milhares neste quesito que podem ser vistas ao redor do mundo.

Lathe Joshi (Índia, 2016)
Direção: Mangesh Joshi
Roteiro: Mangesh Joshi
Elenco: Chittaranjan Giri, Ashwini Giri, Seva Chouhan, Om Bhutkar
Duração: 104 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.