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Crítica | Laurence Anyways

por Luiz Santiago
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estrelas 4,5

_ Isso é uma revolta?

_ Não, senhor. É uma revolução.

Das coisas que estigmatizaram Xavier Dolan, é possível dizer que o uso exagerado de elementos da direção de arte, uso de câmera despreocupado e certa irresponsabilidade ao trabalhar os elementos narrativos de seus roteiros são os itens mais lembrados. O jovem diretor canadense estreou nos cinemas em 2009, com Eu Matei a Minha Mãe, filme vencedor de prêmios no Festival de Cannes, Toronto, Vancouver, dentre outros. Em seguida veio Amores Imaginários (2010), filme fraco, que também chamou a atenção da crítica, mas já dava algumas alcunhas pouco louváveis a Dolan, especialmente por sua tendência de condução pueril de cenas, uma denominação afirmada por uns e refutada por outros.

Como que almejando guinar a sua percepção artística e aprimorar seu estilo, Xavier Dolan decidiu aumentar o tempo de produção entre um filme e outro e, dois anos depois de Amores Imaginários apareceu ele com Laurence Anyways (2012), um filme que conserva muito pouco daquele diretor iniciante e despreocupado e mostra a cara nova de um tema praticamente novo em sua carreira, uma verdadeira metamorfose.

Acumulando algumas tarefas na equipe de produção (além de roteiro e direção), Dolan nos conta a história do professor Laurence Alia, um profissional de sucesso de quem acompanhamos uma década de vida, tempo suficiente para o aflorar definitivo de sua transsexualidade e da estranheza com que o mundo recebe essa atitude. Considerado doente, Alia é convidado a se afastar de seu cargo na Universidade e passa a lutar para conseguir um lugar ao sol como escritor. O problema é ainda mais complexo porque sua  orientação sexual é hetero, o que adiciona uma profunda dose de questionamentos e aberturas para discussão diversas ao roteiro.

Ao passo que essa transformação acontece, vemos um amadurecimento (ou seria o aparecimento da amargura?) de Alia e sua namorada Fred Belair. O casal é inicialmente mostrado como uma dupla de adolescentes crescidos que vivem uma espécie de conto de fadas particular, uma relação cheia de jogos amorosos, todos eles filmados com um estilo levemente distinto, com câmera inquieta, sob ângulos oblíquos e músicas icônicas de Kim Carnes, The Cure, Celine Dion, Duran Duran, Brahms, Beethoven e Vivaldi. No mote realista de que “toda mudança traz consequências“, Dolan deixa claro que não se trata de uma simples mudança, mas de uma revolução completa, o que intensifica ainda mais os novos rumos dados às vidas dos protagonistas.

É claro que alguns maneirismos aparecem e eu devo dizer que durante a projeção fiquei profundamente incomodado com algumas opções narrativas e mesmo temáticas do diretor, mas a despeito das partes menos inspiradas e do estilo às vezes barroco demais, percebo uma unidade temática e estética tão grande no filme que é impossível classificá-lo como algo menor do que muito bom. O desfecho, que para alguns pareceu explicativo e desnecessário, adiciona um ponto narrativo fixo e emotivo à história, ligando os pontos, demarcando um ciclo. O mesmo acontece para o uso das incríveis metáforas visuais temáticas ou literárias, além das frequentes tiradas inteligentes como a do garotinho sendo atingido pelo Cupido e a piscadela do protagonista, algo que marca a sua personalidade intacta, a despeito de seu exterior diferente.

Laurence Anyways aponta um caminho distinto para a carreira de Xavier Dolan e mostra que o jovem começa a ganhar maturidade. Poderíamos passar linhas e linhas falando das nuances fotográficas, da simbólica direção de arte e inspirados figurinos; mas esses elementos já são bastante conhecidos dos outros filmes do diretor e, no caso desta nova obra, pouco adianta a exploração textual de tais elementos, uma vez que pouco sentido faria. É preciso assistir ao filme para poder senti-las, ouvi-las e entendê-las em sua completude. Laurence Anyways é um daqueles exemplos de filmes-sentimento, obras que conseguem captar a alma ou a aura de um determinado grupo de pessoas ou de algum lugar. É claro que a marcação de “ame ou odeie” ao filme é imediata, mas tanto para um quanto para outro caso, haverá muitos e bons motivos que justifique a escolha final.

Laurence Anyways (Canadá, França, 2012)
Direção:
Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Melvil Poupaud, Emmanuel Schwartz, Suzanne Clément, Nathalie Baye, Monia Chokri, Susan Almgren, Yves Jacques, Sophie Faucher, Magalie Lépine Blondeau, Catherine Bégin
Duração: 168 min.

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6 comentários

Pedro Duzzi 8 de dezembro de 2014 - 08:09

Uma verdadeira obra-prima. Até agora, o meu favorito do Dolan, vamos ver Mommy!

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Luiz Santiago 8 de dezembro de 2014 - 15:03

Ainda não vi “Tom na Fazenda”, mas por enquanto esse é o meu favorito.
Saberei ao certo ainda esse semana, quando verei “Tom” e “Mommy”.

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Tiago Lima 23 de novembro de 2014 - 17:14

De todos os filme do Dolan este é o que eu menos gosto. Concordo com sua afirmação de que o filme é “ame ou odeie”. Claro que as construções lúdicas e metafóricas são lindas de se apreciar. E todo o histerismo de seus personagens, uma das marcas de Dolan, está presente, mas tem algo na construção do roteiro e na edição que não me agrada, talvez pela forma como foi feita, eles me distanciam do personagem título e não consigo me compadecer/identificar/se importar com ele e com a personagem Fred.

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Luiz Santiago 23 de novembro de 2014 - 18:54

Acho muito interessante como essas questões pegam de forma diferente os espectadores. Eu não só vejo esse como o mais maduro dele como também um dos que melhor você consegue se aproximar dos personagens…
Cinema é uma arte muito curiosa mesmo.
Muito obrigado pelo comentário!

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Tiago Lima 26 de novembro de 2014 - 17:11

Pois é Luiz, cinema é muito bom mesmo.Pois é uma arte mutável.E por mais que o autor/roteirista/diretor queira passar uma determinada mensagem ou sensação, sempre caberá a nós expectadores e claro, do nosso repertório cultural, social e politico se “aceitamos” ou não tal ideia.

Isso me faz lembrar quando vi o filme Drácula de Bram Stoker. A 1º vez que o vi, tinha 14 anos e ODIEI o filme. Depois, hoje, com 25 anos acho um dos melhores filmes do gênero. Talvez Laurence, para mim, seja deste tipo, e deve entende-ló melhor, daqui a, sei lá, 10 anos.

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Luiz Santiago 26 de novembro de 2014 - 22:36

Cara, essa sua experiência eu tive com vários filmes também. Acho que o mais chocante para mim foi “A Festa de Babette”. A primeira vez que vi esse filme eu tinha uns 17 ou 18 anos. Quis quebrar a televisão e as costelas do meu pai, que tinha dito que era excelente e tal. Anos depois fui rever e fiquei pensando: o que eu tinha na cabeça aquela época? hahahahahahaha

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