Crítica | Lazzaro Felice

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Lazzaro (Adriano Tardiolo) é um jovem camponês explorado pela comunidade em que vive, no interior da Itália. Todos ali exercem uma função, desde colher das plantações, cuidar dos animais e preparar o tabaco; mas dentre todas essas e outras atividades, existem aquelas que ninguém quer fazer, mas alguém o deve – e esse alguém é Lazzaro, que o faz sem questionamentos e com boa vontade. Já a comunidade, que vive em condições precárias – como pouca comida e higiene –, é oprimida pela marquesa Alfonsina De Luna (Nicoletta Braschi), que acredita que todo e qualquer ser humano explore os outros e deva ser explorado por alguém, em uma pirâmide social abusiva e hierárquica.

Não deixa de ser tragicamente verdadeiro tal pensamento neste Lazzaro Felice, longa escrito e dirigido pela italiana Alice Rohrwacher, já que todos os indivíduos se apoiam em alguém, em maior ou menor grau. Mas na base da pirâmide não há nada em que se apoiar, e é lá que se encontra o protagonista da história. Obedecendo a todos e acreditando em qualquer coisa que lhe falam, nada move o garoto a não ser pura e simplesmente fazer o bem e ajudar o próximo, seja quem for. Essa abordagem aproxima o personagem de um caráter bíblico (na realidade, existe um Lázaro descrito na Bíblia como alguém que foi ressuscitado por Jesus), e a maneira com que a narrativa o concebe o transforma em um sujeito quase que idealizado e transcendental, que destoa da fragilidade moral do mundo em que vive – e o fato de Lazzaro não possuir pai nem mãe apenas aumenta o poder dessa interpretação.

Nesse aspecto, Rohrwacher constrói planos gerais de seu protagonista quando este perambula por paisagens rochosas ou por vegetações rasteiras que facilmente poderiam ser vistos como o retrato de um profeta vagando pelos confins das terras para difundir sua palavra. Essas paisagens, diga-se de passagem, são filmadas com um aspecto vívido que formam belíssimas pinturas em meio as imagens em movimento, e a diretora de fotografia Hélène Louvart é eficaz ao contrapor a graciosidade da vida no campo com a frieza do ambiente urbano, compondo este último com uma paleta dessaturada que é ressaltada pelo aspecto granular da película em Super 16mm empregada no projeto.

Mas o misticismo em torno de Lazzaro apenas funciona graças ao trabalho do novato Adriano Tardiolo, que surge em cena com expressões e trejeitos imutáveis em toda a projeção. Com um olhar inexpressivo e ao mesmo tempo curioso, o personagem-título raramente deixa algum sentimento transparecer, com uma quietude que emana inocência e ingenuidade. Seu jeito de andar parece meticulosamente planejado, tendo em vista que ele dificilmente anda devagar e/ou corre por algum motivo – ele apenas anda. O que prevalece é seu desejo de atuar em prol de todos, de buscar preencher os vazios daqueles ao seu redor e de apreciar a vida que leva, mesmo que em um universo de desilusão e opressão.

E Alice Rohrwacher não deixa o tom de fábula de seu filme tomar conta, abrindo espaço para comentários sociais relevantes: o mundo construído ao longo da obra é corrupto e desmoralizado até o cerne, movido por interesses; as consequências do êxodo rural e do desemprego são bem explorados, cabendo espaço até mesmo para a decadência da nobreza; e a violência da sociedade moderna surge imprevisível e implacável.

A cineasta também é hábil ao construir os ambientes rurais de Lazzaro felice como um retrato de uma época em que se consumia aquilo que produzia, onde o dinheiro tinha pouco valor – mesmo que aqui e ali, vão sendo deixadas pistas da realidade por trás da vida campestre daquelas pessoas. Para tanto, o design de produção de Emita Frigato é fundamental para que acreditemos que estamos diante de um mundo arcaico, de outro século. As residências em madeiras gastas e velhas com cômodos pequenos, apertados e mal iluminados, associados à representação da rotina da vida no campo, garantem a verossimilhança de uma série de costumes que encontra ecos até mesmo nos remanescentes das colônias italianas no Brasil – mas claro que sem a exploração tratada no filme. Ademais, até o departamento de som ganha destaque ao opor a paz e a calma dos cenários bucólicos (em diversas cenas, apenas ouvimos o vento e alguns animais) com o barulho metálico dos centros urbanos com seus trens e veículos em movimento.

Ao longo do filme, o roteiro de Rohrwacher (que venceu o Festival de Cannes nessa categoria) constrói a natureza de Lazzaro em torno de sua singular benevolência, mas não deixa de sugerir seu aspecto místico, alcançando sucesso em momentos sutis como um incidente em um precipício – remetendo aqui ao personagem bíblico – e na maneira com que o protagonista não é afetado pelo passar do tempo. Porém, algumas passagens surgem forçadas e explícitas, talvez em uma falta de confiança da autora na capacidade de compreensão de seu público: a cena envolvendo música em uma igreja no final do filme permite interpretar que o responsável por aquele acontecimento foi Lazzaro, mas acaba soando deslocada do delicado tom fantástico com que o longa vinha abordando o jovem até então.

SPOILERS!

E aí então a obra se dirige a sua conclusão, que nos permite interpretá-la de duas maneiras: em uma visão pessimista, o protagonista encerra sua jornada ali, espancado até a morte; já com um olhar esperançoso, ele se levantará e continuará sua trajetória. A segunda opção surge mais plausível, tendo em vista que o lobo que apareceu outrora quando o personagem-título havia caído de um precipício reaparece no clímax, em momento de similar fragilidade. Nada realmente comprovaria sua morte a não ser o tom melancólico com que a cena é exibida, cujo não existe na sequência do precipício, abrindo portas para tal possibilidade. A parte disso, Rohrwacher ainda vai além ao retratar a única cena de violência levemente gráfica de seu trabalho dentro de um banco, fazendo uma elegante e ácida crítica aos interesses impetuosos das corporações capitalistas.

A mistura entre o verdadeiro e o imaginário, o real e a fantasia, pode não servir a todos em Lazzaro Felice e seus simbolismos; mas independente disso, no fim, o que fica na memória são as belíssimas imagens filmadas, os comentários sociais muito bem tecidos e entrelaçados e, principalmente, os olhares enigmáticos e puros de Lazzaro, mesmo que em um mundo onde a bondade não tem seu devido lugar e reconhecimento.

Lazzaro felice (Idem, Itália/Suíça/França/Alemanha, 2018)
Direção: Alice Rohrwacher
Roteiro: Alice Rohrwacher
Elenco: Adriano Tardiolo, Agnese Graziani, Luca Chikovani, Alba Rohrwacher, Sergi López, Natalino Balasso, Tommaso Ragno, Nicoletta Braschi
Duração: 125 min.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.