Crítica | Le Storie – Vol.1: O Carrasco de Paris

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Concebida por Mauro Marcheselli, para a Sergio Bonelli Editore, a série Le Storie não trabalha com um personagem fixo ou com um cenário e gênero que se repetem ao longo das edições. A revista segue os passos de Um Homem, Uma Aventura (1976 – 1980), publicação da casa italiana, quando ainda era CEPIM, que entregava sagas de personagens diferentes em cenários históricos, tempos e lugares distintos; ou seja, uma ficção histórica aberta a novas experiências em cada nova edição. As possibilidades de Le Storie, porém, vão além da aventura e os autores permitem-se a liberdade de às vezes só utilizar o fato como segunda camada narrativa e, no foco principal, elencar tramas de fantasia, ficção científica, western ou horror, por exemplo. Em O Carrasco de Paris, estreia do título, o protagonista é um homem que de fato existiu e tudo se passa na Cidade das Luzes, a partir de 1790, durante as consequências do pós Revolução Francesa.

Com roteiro de Paola Barbato e arte de Giampiero Casertano, temos aqui um exercício de micro-História muito interessante, que coloca o ponto de vista da Revolução nas ruas da cidade e destaca a figura do famoso carrasco Charles-Henri Sanson (1739 – 1806), a quarta geração de uma família a exercer essa profissão. Este Sanson ficou particularmente conhecido porque teve em sua lista um total de 2.918 execuções, dentre elas, a do próprio rei Luís XVI.

Modificando uma série de fatos históricos e até algumas ações da própria vida de Charles-Henri (algo perfeitamente compressível para uma ficção histórica, afinal de contas, não estamos falando de um documentário, não é mesmo?), a autora nos coloca em incertos tempos de mudança do Antigo Regime para a Era do “povo no poder”. No enredo, Robespierre é tratado como um demagogo que acabou caindo no mesmo lugar dos nobres que tanto criticava, assim como outros líderes da Revolução, em maior ou menor grau.

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À sombra da guilhotina, a fase do Terror é colocada aqui como um espetáculo que em nada nega as conhecidas “intrigas palacianas”, muito embora não exista mais Corte na França. Esta sensação perpassa toda a saga, que mesmo destacando a vida do famoso carrasco, não perde a oportunidade de olhar para a miséria da população parisiense ou para a sede de poder que todo novo “grupo salvador da sociedade” desenvolve, expondo um conjunto de ingredientes que são tão humanos e tão políticos que estranharíamos se não estivessem aqui: conspiração, amor, justiça, solidão e vingança…

Talvez por destacar os personagens secundários, a história “perca tempo” e não consiga justificar um bom número de coisas estabelecidas na vida de Sanson, coisas que precisavam ser justificadas, melhor exploradas ou melhor finalizadas. E vejam que eu disse “perca tempo”, entre aspas, porque não se trata, a rigor, de “perder tempo”, uma vez que esses personagens históricos engrandecem o enredo. O problema é que, a longo prazo, temos que exigir mais detalhamento sobre a vida do protagonista e concluímos que, se menos tempo tivesse sido gasto com outros personagens, mais páginas haveriam para explorar a vida do carrasco. Como se vê, é uma armadilha de roteiro.

A arte de Giampiero Casertano ganha muitos pontos na angulação e também com algumas composições de conjunto, embora tenha uma diagramação que careça de maiores quadros. Particularmente, esperava uma arte ainda mais sanguinolenta, mas isso não significa que o projeto do artista seja ruim, bem longe disso. Os maiores tropeços dessa estreia do Le Storie estão mesmo no roteiro, pelos motivos já levantados, e não na arte. A proposta, contudo, se mostra sólida o bastante para seguir em frente e ganha a atenção do leitor pela maneira crítica com que é realizada. Uma estreia “apenas” acima da média, mas com aquela boa marca de criação para ficções históricas que só temos mesmo na Sergio Bonelli Editore.

Le Storie #1: Il boia di Parigi (Itália, outubro de 2012)
Editora Original:
Sergio Bonelli Editore
Concepção: Mauro Marcheselli
Roteiro: Paola Barbato
Arte: Giampiero Casertano
Capa: Aldo Di Gennaro
114 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.