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Crítica | Leão Branco, o Lutador sem Lei

por Ritter Fan
2298 views (a partir de agosto de 2020)

Detesto quando dizem que um filme “feito para entreter” não precisa oferecer mais nada ao espectador que não diversão descerebrada por toda sua duração. É preguiça nas duas pontas, de quem assiste e de quem escreve e produz determinada obra, sendo que é muito fácil ultrapassar a barreira da mera bobagem e galgar um pequeno degrau acima e não necessariamente tornando a trama complexa ou particularmente hermética. A prova disso é Leão Branco, o Lutador sem Lei, título nacional para um longa americano que é conhecido por diversos nomes, principalmente Lionheart, A.W.O.L. – Absence Without Leave e Wrong Bet, e que marca a segunda parceria de Jean-Claude Van Damme com Sheldon Lettich, co-roteirista de O Grande Dragão Branco.

Trata-se do primeiro crédito de roteirista de Van Damme, ao lado de Lettich, além de ser o primeiro longa dirigido por Lettich, com a dupla muito claramente tentando desgarrar-se do puro estereótipo do grande lutador marcial que marca esse início de carreira do ator belga. Além de lidar com lutas de rua, ainda que permitindo que Van Damme faça suas acrobacias de praxe, a história oferece espaço para… rufem os tambores… o ator realmente mostrar que consegue mesmo atuar e que eu não preciso mais colocar sua qualificação entre aspas. Lógico que não é um trabalho dramático espetacular, mas Van Damme consegue mostrar que tem latitude, que sabe ser mais do que um rostinho bonito, mas impassível e monossilábico que faz caras e bocas enquanto bate e apanha em ringues.

Esse espaço para atuar vem de um roteiro que consegue equilibrar bem a pancadaria e o drama, com Lyon Gaultier (Van Damme), legionário da Legião Estrangeira no Djibuti tendo que desertar seu posto quando não lhe é permitido viajar para os EUA para visitar seu irmão que foi mortalmente ferido por uma gangue. Com essa premissa, o longa consegue criar uma jornada literal e metafórica para o protagonista que, chegando em Nova York, precisa mergulhar no submundo das lutas ilegais para conseguir dinheiro para chegar à Califórnia, fazendo amizade com o ex-lutador e organizador de rinhas Joshua Eldridge (Harrison Page, muito bem no papel) no processo, que o coloca no circuito mais sofisticado comandado pela bela, mas pouco confiável Cynthia Caldera (Deborah Rennard).

Melhor ainda, no lugar de enveredar pelo caminho óbvio, especialmente considerando-se os longas anteriores do ator, Lyon, que passa a ser apelidado de Lionheart (“Coração de Leão” e não “Leão Branco”, como no título nacional que mais uma vez tenta emular o de Bloodsport), não tem como objetivo de vida ganhar algum campeonato ou vingar seu irmão. Muito ao contrário, a coisa é bem mais prosaica e, de certa forma, realista aqui: seu desejo é exclusivamente prover para sua cunhada Hélène (Lisa Pelikan) e sua sobrinha Nicole (Ashley Johnson), o que o força a realmente mergulhar de cabeça nos “clubes da luta” de apostas altas, enquanto tem que fugir de uma dupla de legionários que quer levá-lo à corte marcial na França.

Enquanto a narrativa é montada – e não faltam lutas das mais variadas e bem coreografadas nesse caminho, mas sempre com aquela pegada de vale tudo – o roteiro ainda consegue costurar boas relações interpessoais para Lyon, começando com sua amizade hesitante com Joshua, a absoluta desconfiança de Hélène, mas o amor imediato e sem barreiras de Nicole e uma conexão estranha com Cynthia. E isso tudo vai contribuindo para a construção de uma história genuinamente interessante que, diferente de seus filmes anteriores, serve de guia para as lutas, não sendo apenas uma desculpa para elas existirem.

Claro que há as boas e velhas conveniências narrativas aqui e ali, assim como a irritante tendência em se amarrar o final com uma fita vermelha de cetim, o que quebra o caminho mais “realista” (entre aspas mesmo) do longa, além das já esperadas caras e bocas de todos os lutadores e aquelas câmeras lentas marotas para valorizar golpes e acrobacias, ainda que sem o exagero teatral de O Grande Dragão Branco. Mas o que fica, quando os créditos começam a subir na tela, é que Lettich e Van Damme conseguiram chegar a um nível acima do mero entretenimento descerebrado, fazendo de Leão Branco algo que o The Muscles from Brussels pode se orgulhar.

Leão Branco, o Lutador sem Lei (Lionheart – EUA, 1990)
Direção: Sheldon Lettich
Roteiro: Sheldon Lettich, Jean-Claude Van Damme
Elenco: Jean-Claude Van Damme, Harrison Page, Deborah Rennard, Lisa Pelikan, Ashley Johnson, Brian Thompson, Voyo Goric, Michel Qissi, Tony Halme, Clement von Franckenstein, Abdel Qissi
Duração: 108 min.

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