Crítica | Legalidade

“Até onde tu irias se lutasse por algo que acreditas?”

Após o presidente Jânio Quadros renunciar, em agosto de 1961, alegando o levante de “forças terríveis” contra ele, João Goulart, então vice-presidente, assumiria o cargo, conforme a Constituição de 1946. O problema é que João Goulart (ou Jango, como era conhecido), apesar de sua imensa popularidade, não inspirava nenhuma simpatia na ala militar. Pelo contrário, houve uma tentativa de inviabilizar a posse de Jango, que estava em visita à China no momento do início desse episódio, através de um golpe.

Indignado com a situação, típico de sua personalidade e suas convicções, Leonel Brizola, à época governador do Rio Grande do Sul e cunhado de João Goulart, resolve resistir até as últimas consequências. O Palácio Piratini, sede do governo estadual até os dias atuais, torna-se um centro de resistência, com os porões do prédio servindo como estúdio de rádio improvisado, onde Brizola realizava seus pronunciamentos para o máximo de cidades gaúchas e demais estados brasileiros possíveis, denunciando as intenções dos militares e convocando a população a juntar-se ao movimento. Todo o acontecimento durou 14 dias, quase desencadeou uma guerra civil no país e ficou conhecido como Campanha da Legalidade. Tudo isso e muito mais está presente em Legalidade, novo filme do diretor Zeca Brito.

O foco do longa, como o próprio título entrega, é o movimento liderado por Brizola (Leonardo Machado). Começamos o filme dentro de um quarto, com uma bela cena de abertura onde vemos alguém organizar uma mala como se estivesse de partida. Ao colocar a faixa presidencial por último dentro da bagagem e fumar um cigarro próximo à janela, logo identificamos tratar-se de Jânio Quadros. Seus óculos característicos aparecem no reflexo da janela, enquanto ele inspira e expira a fumaça com celeridade, criando uma aura gasosa efêmera certeira não somente ao personagem, que não aparece novamente na projeção, mas também a curta história do homem que renunciou ao cargo presidencial com apenas sete meses de mandato.

Em seguida, somos rapidamente apresentados, um após o outro, aos três núcleos trabalhados por Brito. O primeiro foca essencialmente em Brizola e suas decisões ao longo dos dias para garantir a volta de Jango ao Brasil, assim como sua posse; o segundo gira em torno da relação de Tonho (José Henrique Ligabue), um jornalista de um jornal porto-alegrense, e Cecília (Cléo Pires), uma jornalista do estadunidense Washington Post enviada para entrevistar o governador gaúcho; o terceiro e com menos tempo de tela é o arco da personagem Blanca (Letícia Sabatella), suposta filha de Cecília e Tonho, que busca respostas sobre a vida de seus pais, já que o longa sugere que ambos morreram em decorrência da ditadura militar instaurada nos anos seguintes. Há ainda o breve arco isolado de Luiz Carlos (Fernando Alves Pinto), antropólogo, irmão de Tonho e amigo de Brizola, com indígenas guaranis na Região das Missões, no Rio Grande do Sul. No entanto, é algo tão isolado, breve e que só traz sentido a existência do personagem quando este junta-se a Brizola e Tonho em Porto Alegre que mal podemos considerar um núcleo narrativo.

Com os três núcleos estabelecidos, começamos a identificar alguns problemas no filme. O que mais me gritou aos olhos foi a incapacidade do segundo e terceiro núcleos prenderem nossa atenção. Enquanto Leonardo Machado faz uma magnífica interpretação de Brizola e todo seu entorno é digno dos melhores longas políticos, o mesmo não acontece com as histórias paralelas, chegando ao ponto de ficarmos ansiosos para que Brizola e a trama política volte à cena. Prova disso é o romance de Cecília e Tonho, que vemos passar de algo quase insosso quando estão em foco a algo bastante interessante quando suas ações e núcleo aproximam-se do de Brizola. Por acontecerem muito no futuro, as partes com Bianca, não à toa, são as mais fracas, quase sem despertar interesse da plateia (ainda que retrate a dolorosa e delicada realidade de tantas pessoas que buscam respostas sobre familiares desaparecidos durante a ditadura).

No entanto, vale ressaltar o cuidado nos detalhes da direção para demarcação temporal. Como a maioria do longa não conta com planos abertos, trabalhando muito com planos médios e fechados, ficaria difícil distinguir as épocas, já que os dois primeiros núcleos passam-se em 1961 e o terceiro, em 2004. Peguemos Cecília, por exemplo, que passa o longa quase em totalidade com o cabelo extremamente alinhado e preso em forma de coque. Blanca, por outro lado, deixa seu longos cabelos negros soltos e até um pouco desgrenhados, assim como uma amiga sua, que ostenta um penteado loiro curtíssimo e repicado, algo incomum na metade do século passado. A atenção com as localidades e os sotaques, principalmente o porto-alegrense, é outro ponto digno de elogios no longa.

Por envolver questões políticas e posicionar-se tão abertamente, muitas pessoas não simpatizarão com o filme, o que é uma pena. Claro, se você for alguém de esquerda fica muito mais fácil apreciar a obra, mas ela nem de longe resume-se somente a isso. O desenrolar da trama amorosa, ainda que comece de forma pouco interessante, melhora com o tempo e desperta nosso interesse enquanto toda a trama política é interessantíssima, funcionando em alta voltagem e prendendo nossa atenção do início ao fim. Fora ser um longa digno de uma das figuras políticas mais relevantes desde a Era Vargas, Legalidade é um interessante trabalho em que se pode odiá-lo ou amá-lo, mas impossível ficar indiferente à ele. Tal qual Leonel Brizola.

Legalidade — Brasil, 2019
Direção: Zeca Brito
Roteiro: Zeca Brito, Leo Garcia
Elenco: Cléo Pires, Letícia Sabatella, Leonardo Machado, Fernando Alves Pinto, José Henrique Ligabue, Paulo César Peréio, Sapiran Brito
Duração: 122 minutos

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.