Crítica | Legion – 3X02: Chapter 21

Homens têm medo que as mulheres riam deles. Mulheres têm medo que os homens as matem.
– Syd, citando frase atribuída a Margaret Atwood

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

O momento mais contundente do 21º episódio de Legion foi a breve conversa entre Syd e a projeção mental de David em que ela faz uso da famosa frase que abre a presente crítica e o super-poderoso telepata diz que quer voltar para o passado para consertar tudo. Como assim consertar tudo, meu caro Legião? Quer dizer então que voltar ao passado significa apagar tudo o que aconteceu, inclusive o potencial de que o estupro cometido aconteça de novo?

Voltar ao passado para trazer à vida a mulher que ama e que morreu por razões alheias à vontade de quem volta, como o Superman faz no clássico filme de 1978 é uma coisa, outra completamente diferente é voltar no tempo para mudar algo que aquele que volta no tempo, de caso pensado, fez. Afinal de contas, uma vez cometido o ato, voltar ao passado seria abrir espaço para que ele seja cometido novamente. Claro que o advogado de David o defenderia alegando que o que ele fez foi resultado da moradia do Rei das Sombras em sua mente por décadas, mas será que foi mesmo? Esse é o fascinante problema que Noah Hawley coloca sobre a mesa, jamais deixando-nos esquecer que, agora, até segunda ordem, estamos diante de um vilão, algo ratificado pela explosão de raiva de David Haller que “altera a química” da droga mental que ele produz.

Se fica cada vez mais difícil achar uma saída para David, a presença constante de Amahl Farouk no seio da Divisão 3 também é incômoda. Se pararmos para pensar, ele agora está no time dos “mocinhos” não porque ele efetivamente mudou de lado, mas sim, apenas porque, em comparação com David, ele é o menor dos males. E sua proximidade com a organização que ele já tentou destruir o coloca em posição privilegiada para colocá-lo no comando, mesmo que ninguém lá perceba isso. É bem verdade que não há indicações claras disso, mas a ambiguidade está plantada, especialmente agora que ele oferece ensinar Syd a mentir para David, de forma a permitir que ela se aproxime novamente dele, por mais que ela tenha calafrios só de pensar nisso.

É fascinante como Hawley expande sua teia de dúvidas, meias-verdades e mentiras, fazendo-nos novamente, como no começo da série, ter dificuldade de separar ilusão de realidade, só que de maneira muito mais discreta e insidiosa. Ao inserir viagem no tempo nesse mix, o showrunner quer abrir a possibilidade de um recomeço, justamente o que David busca e que Syd renega. Hawley quer que achemos que tudo pode ser resolvido em um piscar de olhos, que toda a maldade pode ser apagada e que tudo pode voltar a ser como era antes. A reunião de dois seres superpoderosos como Farouk e Haller à Switch, provavelmente em breve com poderes amplificados, é explosiva em todos os sentidos e deixa qualquer um mais do que intrigado para ver até onde isso vai.

A psicodelia desgarrada vista no episódio de abertura da temporada é reduzida aqui, com uma narrativa que parece ser mais focada na ação, mas que, na verdade, pouco adianta a trama. David conclui que precisa ele mesmo ser levado por Switch em uma viagem temporal e trata de planejar o sequestro de Cary, abrindo espaço para que Bill Irwin, ator que começou a carreira no vaudeville, tendo trabalhado até mesmo como palhaço, mostre toda a sua comédia corporal. E dele um dos mais hilários momentos da série em que, para fugir do cativeiro, ele faz a mímica dos movimentos de sua captora como aqueles mímicos de rua que volta e meia encontramos ou vemos filmagens. Simplesmente genial em sua simplicidade e elegância que, confesso, me levaram a risadas gostosas que me obrigaram a pausar o episódio. Mas Cary também ganha outro excelente momento que representa a tomada do controle de sua mente por David, em sequência que faz uso da dança para estabelecer quem está “liderando” agora.

Em termos imagéticos, a temática de Alice no País das Maravilhas que vimos no episódio anterior volta com força total aqui, desta vez com a recriação da cena do chá do Chapeleiro Maluco, tendo Lenny como anfitriã, logo antes de a Divisão 3, seguindo seu prisioneiro, chega para tentar acabar com a festa somente para perder Cary na confusão. Só mesmo Legion para usar impunemente Lewis Carroll em uma série de TV sobre mutantes que não é exatamente sobre mutantes…

Legion caminha sem pressa para seu fim, com um episódio mais funcional do que pirotécnico, mas que mesmo assim não tenta correr com a história. Mas é bom que seja assim, pois não é sempre que podemos observar uma história trágica como essa contada de maneira tão colorida e alucinógena como aqui. São normalmente opostos inconciliáveis que, de alguma forma, Hawley faz parecer natural.

Legion – 3X02: Chapter 21 (EUA – 1º de julho de 2019)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Carlos López Estrada
Roteiro: Noah Hawley, Olivia Dufault, Kate Thulin
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Navid Negahban, Jemaine Clement, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Hamish Linklater, Jean Smart, David Selby, Jelly Howie, Brittney Parker Rose, Lexa Gluck, Marc Oka, Lauren Tsai
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.