Crítica | Legion – 3X03: Chapter 22

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Pode ser que muito tenham achado esse episódio de Legion muito “normal” ou talvez apenas um longo fan service ou até mesmo um filler que não leva a lugar nenhum, mas eu simplesmente não compartilho dessas visões e confessarei desde início que fiquei completamente extasiado com essa abordagem da “origem” de Charles Xavier, Gabrielle Haller e, claro, David, o filho do casal. E creio que minha razão para adorar o episódio foi justamente por ele ter sido uma combinação dos três fatores acima, ou seja, foi o mais “comum” dos episódios da série até agora em que se trabalhou fan service do começo ao fim sem parecer algo intrusivo ou gratuito, resultando em um filler da mais alta categoria que dá ainda mais relevo e complexidade ao Legião.

Eu até poderia parar minha crítica aqui, pois, em resumo, é tudo que tenho a dizer, mas o capítulo 22 da série merece mais – bem mais! – do que apenas um mísero parágrafo.

Começando pela escalação, Noah Hawley mostrou mais uma vez um impressionante nariz para escalações ao mesmo tempo inusitadas e perfeitas. Harry Lloyd como Charles e Stephanie Corneliussen como Gabrielle foram escolhas inspiradas para esses papeis tão importantes, já que os dois emprestam humanidade aos personagens de forma que é fácil esquecermos quem eles são e o que eles representam para os mutantes. Substancialmente, o que vemos no episódio é uma bela história de amor com um final trágico e que poderia muito bem ser uma narrativa desconectada com Legion ou qualquer outra série, pois ele, em grande parte, mantem-se de pé sozinho, sem ajuda. Esse é o grande mérito do roteiro de Nathaniel Halpern, produtor executivo e um dos mais prolíficos escritores da série, que constrói do nada toda uma história auto-contida que não tem pressa em conectar-se com a narrativa maior.

Na cadeira da direção ocupada apenas pela segunda vez na série por John Cameron, ele trabalha com uma montagem não-linear que nos apresenta a dois momentos distintos na vida do casal: o momento em que um já distante Charles Xavier fica obcecado em encontrar alguém igual a ele e vai até Marrocos atrás de Ahmal Farouk sem saber quem exatamente ele encontraria e o início da relação de Charles e Gabrielle. Tudo é trabalhado de maneira orgânica e de facilíssima compreensão, sem as loucuras visuais e sonoras normalmente presentes na série, ainda que as sequências quase líricas sejam por vezes interrompidas com lampejos do futuro sempre embalados pela anacrônica “Wot”, de Captain Sensible (nossa, que saudade dessa canção!) e alguns mistérios sejam colocados aqui e ali, mas sempre pegando emprestado a estrutura de filmes de “casa mal-assombrada” para desafiar a sanidade de Gabrielle, sozinha na mansão com seu filho pequeno ainda no berço. O sentimento de solidão, aliás, é uma constante no episódio, algo que é mantido mesmo quando a fotografia esquenta um pouco, fugindo dos tons azuis (mas nem tanto), normalmente simbolizando o início do relacionamento de Charles e Gabrielle que, diga-se de passagem, bebe diretamente dos quadrinhos sem escancarar essa característica.

Ao espelhar o romance de Charles e Gabrielle com o de David e Syd – as circunstâncias são basicamente as mesmas – Hawyley e Halpern usam o  artifício batido da coincidência para justamente nos dizer que nada é sem querer e o próprio David aprende isso juntamente conosco quando começa a ficar bem mais claro que o que estamos vendo não são flashbacks para o passado, mas sim o efetivo passado linear sob o ponto de vista de David Haller viajando no tempo junto com Switch graças à amplificação de poderes por Cary, como o cliffhanger do episódio anterior deixou evidente. E, mais ainda, grande parte dos fenômenos paranormais testemunhados por Gabrielle, especialmente a gota d’água que é a aparição disforme do David do futuro (para ela), são causados por tentativas falhas de comunicação. Ou seja, ao tentar evitar que Farouk o possuísse, David contribuiu para que isso acontecesse, em uma bela demonstração do paradoxo da predestinação, já que sem a viagem no tempo, é possível concluir que o Rei das Sombras não teria sucesso em sua empreitada e que David não seria entregue para adoção.

Mas mais do que encaixar um episódio aparentemente solto na linha narrativa principal, o grande mérito é justamente conseguir apresentar o tão esperado Charles Xavier de maneira completamente diferente a todas as suas encarnações anteriores no audiovisual. Nada da pegada super-heroística de Patrick Stewart ou de James McAvoy (sem dúvida dois grandes intérpretes do personagem) e nada de demonstrações óbvias de poderes. Ao contrário, tudo aqui é sutil e lindamente colocado em tela, quase que como uma sucessão de sonhos sendo amarrados para formar uma história coerente. E, quando o futuro Professor X é mostrado usando seus poderes, normalmente para investigar a mente de Gabrielle e tirá-la da catatonia traumática, os efeitos são mínimos e elegantes, bem em linha com tudo ao redor. Mesmo o momento em que testemunhamos o uso mais extravagante das habilidades dele, na fuga do sanatório, tudo é abordado quase que como um conto de fadas ou um musical, com elipses temporais curtas que criam exatamente o efeito desejado de comando mental absoluto de todos ao seu redor.

Ao ser o menos Legion de todos os episódios de Legion, Chapter 22 é justamente o encapsulamento do que é Legion, uma série capaz de sempre surpreender, de sempre inovar e de sempre tentar fazer algo fora do comum, mesmo quando o fora do comum é justamente ser “comum”. Se episódios filler normais e cheios de fan service podem ser assim, então eu quero mais!

Legion – 3X03: Chapter 22 (EUA – 08 de julho de 2019)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: John Cameron
Roteiro: Nathaniel Halpern
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Navid Negahban, Jemaine Clement, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Hamish Linklater, Jean Smart, David Selby, Jelly Howie, Brittney Parker Rose, Lexa Gluck, Marc Oka, Lauren Tsai, Harry Lloyd, Stephanie Corneliussen
Duração: 47 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.