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Crítica | Legion – 3X03: Chapter 22

por Ritter Fan
231 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Pode ser que muito tenham achado esse episódio de Legion muito “normal” ou talvez apenas um longo fan service ou até mesmo um filler que não leva a lugar nenhum, mas eu simplesmente não compartilho dessas visões e confessarei desde início que fiquei completamente extasiado com essa abordagem da “origem” de Charles Xavier, Gabrielle Haller e, claro, David, o filho do casal. E creio que minha razão para adorar o episódio foi justamente por ele ter sido uma combinação dos três fatores acima, ou seja, foi o mais “comum” dos episódios da série até agora em que se trabalhou fan service do começo ao fim sem parecer algo intrusivo ou gratuito, resultando em um filler da mais alta categoria que dá ainda mais relevo e complexidade ao Legião.

Eu até poderia parar minha crítica aqui, pois, em resumo, é tudo que tenho a dizer, mas o capítulo 22 da série merece mais – bem mais! – do que apenas um mísero parágrafo.

Começando pela escalação, Noah Hawley mostrou mais uma vez um impressionante nariz para escalações ao mesmo tempo inusitadas e perfeitas. Harry Lloyd como Charles e Stephanie Corneliussen como Gabrielle foram escolhas inspiradas para esses papeis tão importantes, já que os dois emprestam humanidade aos personagens de forma que é fácil esquecermos quem eles são e o que eles representam para os mutantes. Substancialmente, o que vemos no episódio é uma bela história de amor com um final trágico e que poderia muito bem ser uma narrativa desconectada com Legion ou qualquer outra série, pois ele, em grande parte, mantem-se de pé sozinho, sem ajuda. Esse é o grande mérito do roteiro de Nathaniel Halpern, produtor executivo e um dos mais prolíficos escritores da série, que constrói do nada toda uma história auto-contida que não tem pressa em conectar-se com a narrativa maior.

Na cadeira da direção ocupada apenas pela segunda vez na série por John Cameron, ele trabalha com uma montagem não-linear que nos apresenta a dois momentos distintos na vida do casal: o momento em que um já distante Charles Xavier fica obcecado em encontrar alguém igual a ele e vai até Marrocos atrás de Ahmal Farouk sem saber quem exatamente ele encontraria e o início da relação de Charles e Gabrielle. Tudo é trabalhado de maneira orgânica e de facilíssima compreensão, sem as loucuras visuais e sonoras normalmente presentes na série, ainda que as sequências quase líricas sejam por vezes interrompidas com lampejos do futuro sempre embalados pela anacrônica “Wot”, de Captain Sensible (nossa, que saudade dessa canção!) e alguns mistérios sejam colocados aqui e ali, mas sempre pegando emprestado a estrutura de filmes de “casa mal-assombrada” para desafiar a sanidade de Gabrielle, sozinha na mansão com seu filho pequeno ainda no berço. O sentimento de solidão, aliás, é uma constante no episódio, algo que é mantido mesmo quando a fotografia esquenta um pouco, fugindo dos tons azuis (mas nem tanto), normalmente simbolizando o início do relacionamento de Charles e Gabrielle que, diga-se de passagem, bebe diretamente dos quadrinhos sem escancarar essa característica.

Ao espelhar o romance de Charles e Gabrielle com o de David e Syd – as circunstâncias são basicamente as mesmas – Hawyley e Halpern usam o  artifício batido da coincidência para justamente nos dizer que nada é sem querer e o próprio David aprende isso juntamente conosco quando começa a ficar bem mais claro que o que estamos vendo não são flashbacks para o passado, mas sim o efetivo passado linear sob o ponto de vista de David Haller viajando no tempo junto com Switch graças à amplificação de poderes por Cary, como o cliffhanger do episódio anterior deixou evidente. E, mais ainda, grande parte dos fenômenos paranormais testemunhados por Gabrielle, especialmente a gota d’água que é a aparição disforme do David do futuro (para ela), são causados por tentativas falhas de comunicação. Ou seja, ao tentar evitar que Farouk o possuísse, David contribuiu para que isso acontecesse, em uma bela demonstração do paradoxo da predestinação, já que sem a viagem no tempo, é possível concluir que o Rei das Sombras não teria sucesso em sua empreitada e que David não seria entregue para adoção.

Mas mais do que encaixar um episódio aparentemente solto na linha narrativa principal, o grande mérito é justamente conseguir apresentar o tão esperado Charles Xavier de maneira completamente diferente a todas as suas encarnações anteriores no audiovisual. Nada da pegada super-heroística de Patrick Stewart ou de James McAvoy (sem dúvida dois grandes intérpretes do personagem) e nada de demonstrações óbvias de poderes. Ao contrário, tudo aqui é sutil e lindamente colocado em tela, quase que como uma sucessão de sonhos sendo amarrados para formar uma história coerente. E, quando o futuro Professor X é mostrado usando seus poderes, normalmente para investigar a mente de Gabrielle e tirá-la da catatonia traumática, os efeitos são mínimos e elegantes, bem em linha com tudo ao redor. Mesmo o momento em que testemunhamos o uso mais extravagante das habilidades dele, na fuga do sanatório, tudo é abordado quase que como um conto de fadas ou um musical, com elipses temporais curtas que criam exatamente o efeito desejado de comando mental absoluto de todos ao seu redor.

Ao ser o menos Legion de todos os episódios de Legion, Chapter 22 é justamente o encapsulamento do que é Legion, uma série capaz de sempre surpreender, de sempre inovar e de sempre tentar fazer algo fora do comum, mesmo quando o fora do comum é justamente ser “comum”. Se episódios filler normais e cheios de fan service podem ser assim, então eu quero mais!

Legion – 3X03: Chapter 22 (EUA – 08 de julho de 2019)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: John Cameron
Roteiro: Nathaniel Halpern
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Navid Negahban, Jemaine Clement, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Hamish Linklater, Jean Smart, David Selby, Jelly Howie, Brittney Parker Rose, Lexa Gluck, Marc Oka, Lauren Tsai, Harry Lloyd, Stephanie Corneliussen
Duração: 47 min.

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25 comentários

jeff page guitar 2 de agosto de 2019 - 03:34

Incrível! A sensação que eu tenho é que estou ouvindo um disco do Pink Floyd só que em imagens. . . Muito louco , espetacular! ! !

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planocritico 2 de agosto de 2019 - 10:21

É uma boa forma de definir Legion!

Abs,
Ritter.

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Handerson Ornelas. 11 de julho de 2019 - 22:39

Sinceramente. Que. Episódio. BOOOOOOOOOOOOOOOOOOORING. Pqp, um dos piores da série.

Eu sei que vocês caem com facilidade no truque do Noah Hawley fazendo espetáculo audiovisual (afinal, eu direto caio também), mas a verdade é que o roteiro desse episódio é pífio. Dava pra encapsular tudo em 15min e fazer algo verdadeiramente bom. Até a fotografia aqui é abusadamente saturada, só contribui mais para o clima de filler e completo vazio narrativo e emocional do episódio.

Venho começando a cravar uma coisa que falo com pesar: Legion simplesmente não sabe trabalhar relações ou personagens com precisão. É uma estética espetacular por cima de uma narrativa que, olhando atentamente, é pobre no que tange os personagens (ao menos da segunda temporada pra cá). Não te incomoda nem um pouco do quanto a relação de Syd e David, por exemplo, sempre foi mega artificial, Ritter? De como personagens como Cary/Kerry nunca foram bem trabalhados de verdade? De como Lenny é um personagem que força tanto a barra pra ser cool que termina irritante e isento de carisma?

Eu digo isso para incentivar uma análise mesmo sobre esse ponto, porque, assim como você, já gostei muito da série e desfilei elogios ao espetáculo audiovisual dela. É indiscutível que em termos estéticos é difícil achar outra série igual, mas em termos narrativos e trabalho de personagens… venho realmente tendo novas percepções desde a segunda temporada, desanimando e refletindo sobre o real valor da série.

Mas eu também posso voltar a cair no truque de Noah a qualquer momento (como caí ao adorar o primeiro episódio dessa temporada). Vai saber.

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planocritico 12 de julho de 2019 - 14:51

Cara, esse episódio não tem nada de chato. Tanto que quando ele acabou eu “rebobinei” e vi de novo em seguida por não acreditar que já tinha acabado. Mas isso vai de cada um.

Sobre a série, bem, já estamos na terceira temporada e, para mim, desde a primeira havia ficado claro e evidente que o interesse de Hawley é trabalhar David em primeiro lugar e Syd em segundo. Todos os demais personagens existem para cumprir funções narrativas específicas e não para serem desenvolvidos no sentido mais trivial da expressão. O que realmente importa – e todo resto apenas gravita ao redor – é a ascensão e queda de David Haller e esse objetivo tem sido cumprido mais do que a contento.

Abs,
Ritter.

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curiosa gospel 13 de julho de 2019 - 18:46

vc é fanboy da série desde sempre , e nunca enxergará o marasmo da mesma

Responder
planocritico 13 de julho de 2019 - 19:47

Ok.

– Ritter.

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Huckleberry Hound 11 de julho de 2019 - 14:12

Teve cenas que me lembraram Invocacao do Mal,melhor que muito filme de terror hoje em dia e esse episodio nao teve nenhuma comedia!

Responder
planocritico 11 de julho de 2019 - 14:32

Não foi espetacular?

Abs,
Ritter.

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CrazyDany 10 de julho de 2019 - 23:11

Não curti a primeira temporada e larguei nos primeiros episódios. Mas essa crítica e mais a presença do Xavier me animaram a ver essa temporada, ou pelo menos dar uma chance.
Nunca achei que apresentariam o Xavier na série. Parece que tomaram coragem já que os mutantes foram para a Disney. Será que haverá mais uma temporada em função disso?

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planocritico 11 de julho de 2019 - 14:32

@Daniludens:disqus , só para você não se iludir, Xavier aparece aqui. Talvez aparece novamente mais para a frente, mas acho que, se acontecer, será pouco. Não veja a série esperando isso, pois não é esse o objetivo dela.

Mas veja que já havia planejamento para ele aparecer desde antes da compra da Fox pela Disney e isso em tese não mudou e não deve manter a série no ar não.

Abs,
Ritter.

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curiosa gospel 11 de julho de 2019 - 18:10

essa série e boa se vc tiver insonia, vc dorme rapidinho ao começar a ver

Responder
Gustavo Pinheiro 10 de julho de 2019 - 18:43

Ritter, saindo um pouco de Legion, mas ainda falando sobre o gênio Noah Hawley cujo admiramos mutuamente, gostaria de saber sua opinião pois admiro seu trabalho aqui no PC.
Você acredita que ele perdeu a mão em Fargo ?
Reclamaram consideravelmente da 3 temporada, enquanto as outras eram só elogios. Já vi gente falar que ele pegou “Síndrome de Legion” (insinuando que agora ele quer fazer tudo muito visual e metáforico sem necessidade).
O que você achou da 3 temporada (que não é a última pois aí vem a 4) ? Pessoalmente achei a melhor de todas e só me fez ter certeza de que Fargo é a melhor série de todas.

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planocritico 11 de julho de 2019 - 14:24

Perdeu a mão? Nem de longe. A terceira temporada foi maravilhosa. Não sei dizer se foi a melhor, pois eu as acho todas espetaculares, mas nem de longe perdeu a mão. Sim, há elementos mais crípticos e filosóficos nela do que nas outras, mas eu estou cansado do óbvio. Quero mais coisas inteligentes e que desafiam o espectador como Fargo!

Abs,
Ritter.

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Handerson Ornelas. 11 de julho de 2019 - 22:07

Reclamaram dela? Na minha opinião, a terceira de Fargo não é só a melhor temporada da série, mas uma das minhas temporadas favoritas ever. Instigante, misteriosa, filosófica e sólida do início ao fim, sem apelar para ares pretensiosos típicos de Legion.

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planocritico 12 de julho de 2019 - 14:51

Em termos de graus de pretensão, acho Fargo mais pretensiosa do que Legion. Mas isso não tira o brilho de Fargo.

Abs,
Ritter.

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Gustavo Pinheiro 12 de julho de 2019 - 21:57

Né isso! Achei a temporada que sedimentou Fargo como a melhor série ever.

Responder
planocritico 13 de julho de 2019 - 22:38

Não sei se é a melhor série já feita, mas é excelente sem dúvida!

Abs,
Ritter.

Responder
JC 10 de julho de 2019 - 18:06

Rapaz, talvez eu precise ver de novo esse episódio, não me marcou muito.

Exceto: “True love will find in the end………..”
De Daniel Johston.
Se quiser conhecer desse cara e a origem dessa música…veja o documentário:

https://videos.bol.uol.com.br/video/the-devil-and-daniel-johnston-04026CD4B103C6

Nossa, morri de chorar.

Voltando ao seriado, eu gostei, só não achei fabuloso.

Mas Noah certamente tem o mesmo gosto musical que o meu.

Rolling Stones psicodélico é um álbuns que mais adoro. Fora outras…até dos outro episódios mais desconhecidas, eu conhecia também <3

Responder
planocritico 10 de julho de 2019 - 18:24

Nossa. Eu fiquei totalmente abobado vendo essa maravilha!

Abs,
Ritter.

Responder
Natan Dias 10 de julho de 2019 - 23:02

Nunca assisti Legion e entrei nessa crítica por mera curiosidade mas depois de ver essa recepção positiva do episódio mais recente e o Daniel Johnston na trilha sonora, artista esse que só vi tendo faixas no filme Kids (Larry Clark), me interessei super, vou começar a ver as temporadas da netflix

Responder
planocritico 11 de julho de 2019 - 14:25

@disqus_VCzww1WNAp:disqus , Legion é uma série de super-heróis MUITO diferente das que são ofertada por aí. Eu acho espetacular. Assista sim e depois diga o que achou!

Abs,
Ritter.

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Herbert Engels 10 de julho de 2019 - 17:46

Esse episódio é mais uma prova que se tudo fosse canônico nas adaptações da Marvel não teríamos essas pequenas grandes obras-primas. É desse tipo de olhar e experimentalismo narrativo/estético que o gênero precisa para se renovar caso não queira chegar no status de saturação.

Não sou muito fã da série A Maldição da Residencia Hill (lá pelas tantas a estrutura de personagem enche o saco e limita pra caralho o programa), porém fiquei contente que Hawley, Halpern e Cameron aplicaram aqui o mesmo clima de “casa mal assombrada misturado com drama familiar´´ da série da Netflix. E aquele primeiro contato de Charles com Faourk no teste do Cerebro parece que foi retirado direto de O Iluminado. Me lembrou muito o contato de Danny com as gêmeas.

Responder
planocritico 10 de julho de 2019 - 18:24

Concordo com você. Por isso não ligo quando as coisas não são todas “conectadas” como muita gente quer.

Abs,
Ritter.

Responder
Jadiel 10 de julho de 2019 - 16:52

Noah Hawley e sua mania de transformar fillers em obras primas…

Uma curiosidade: a música She’s A Rainbow do The Rolling Stones aparece pela segunda vez na série. A primeira também foi no 3° episódio só que da 1° temporada, e também é tocada num hospício com a presença de um casal, no caso David e Syd.

Responder
planocritico 10 de julho de 2019 - 16:52

Ah, bem sacado! Não tinha pego isso. Hawley é impressionante!!!

Abs,
Ritter.

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