Crítica | Legion – 3X04: Chapter 23

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  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Tudo tem um preço e a viagem de David e Switch de volta ao passado distante para impedir que o Rei das Sombras se alojasse dentro de David-bebê que vimos no episódio anterior literalmente “quebrou” o tempo. E o que isso significa na prática? Simples: uma licença para Noah Hawley fazer o que quer  com o conceito.

E, com isso, temos Demônios do Tempo – ou Comedores de Tempo, como preferirem – correndo soltos, causando loops temporais e fazendo o tempo desaparecer, rebobinar e andar para frente e uma viagem para o “tempo entre o tempo” cortesia de Ahmal Farouk. Em outras palavras, talvez mais do que qualquer outro episódio anterior na série, este é particularmente um playground para Hawley despejar suas sandices sem parar, o que nem sempre funciona. 

Os tais Demônios do Tempo, literais monstros peludos que me lembraram fortemente das criaturas do futuro distante de A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, o que certamente não é uma coincidência, já haviam sido aludidos antes e era óbvio que eles apareceriam alguma hora. Peludos, com olhos brilhantes e trabalhados visualmente com jump cuts e uma atmosfera expressionista, os bichos tinham tudo para ficarem ridículos. Mas a forma como o roteiro lidou com o arremesso de David para um campo de concentração nazista para ver sua mãe e como acelerou a vida de Lenny até o leito de morte de sua filha emprestaram uma interessante dramaticidade à proposta, afastando – pelo menos no meu caso – a estranheza inicial do conceito. E isso sem contar com o corte para um episódio de The Shield, claro…

Além disso, Syd conversando com seu eu adolescente foi um presente inestimável e o ponto alto do episódio. Aqui, Hawley confronta a terrível troca de corpos de Syd com sua mãe que vimos em Chapter 12 com o estupro dela por David anos depois estabelecendo uma delicada ponte tematizada pelo controle masculino sobre as mulheres que torna tudo muito mais doloroso ainda. Mesmo que não possamos necessariamente perdoar a Syd jovem pelo que ela fez, seu ato impulsivo de uma adolescente raivosa não foi sem consequências pessoais destrutivas, com sua primeira experiência sexual sendo, no final das contas, tão fria, impessoal e violenta quanto seu rosto apertado contra o vidro do chuveiro. 

E esse controle, para horror da jovem Syd, seria repetido com a Syd do presente e logo pelo amor de sua vida, em um ato que põe em xeque não apenas o momento da revelação do controle mental em si, mas simplesmente tudo que ela havia vivido com David. Imaginar o que se passou na cabeça da jovem Syd ao receber a informação de que o futuro não seria na verdade muito melhor foi um momento excruciante no episódio.

No entanto, a facilidade com que Farouk sugere e transporta a equipe para o tal “tempo entre o tempo” foi um tanto quanto conveniente demais, como se fosse algo que ele está acostumado a fazer toda semana. Tudo bem que novamente a execução da ideia, com o uso de uma sucessão de fotografias estabelecendo elipses temporais entre cada uma foi novamente excelente, mas soou mesmo só como um artifício para que a trinca tivesse algum uso no episódio, uso esse tornado inútil pela forma como David acaba ganhando o confronto com as criaturas. 

Também muito fácil e conveniente foi a fuga de Cary do controle mental de David e, ainda por cima, levando Switch a tiracolo sem que a moça ofereça qualquer tipo de resistência significativa. Tudo bem que ela estava já cansada de ser usada por David e aterrorizada pelo desmoronamento temporal, mas sua troca de lado foi, talvez, imediata demais, tudo para levar a série à prometida “guerra” que David verbaliza ao final.

E a guerra provavelmente será o tema da segunda metade da temporada e final da série. Sem David manipulando o tempo, os lados, agora estão em razoável pé de igualdade, o que certamente levará a um embate direto com Farouk, ainda que eu desconfie que o momento mais importante acabe sendo mesmo o que deveria ser, com o telepata transformado em vilão encarando de uma vez por todas o que fez com Syd e com todos os demais ao seu redor.

Legion – 3X04: Chapter 23 (EUA – 15 de julho de 2019)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Daniel Kwan
Roteiro: Olivia Dufault, Charles Yu
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Navid Negahban, Jemaine Clement, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Hamish Linklater, Jean Smart, David Selby, Jelly Howie, Brittney Parker Rose, Lexa Gluck, Marc Oka, Lauren Tsai
Duração: 52 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.