Crítica | Legion – 3X08: Chapter 27

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Tenho certeza que muita gente esperava um final explosivo para Legion, com um embate final entre David (e seu pai) e Farouk (e sua versão do passado) carregado de CGI. Pessoalmente, não esperava algo do gênero, mas sim, “apenas”, uma loucura completa, daquelas que tornaria o episódio deliciosamente ininteligível e que geraria muito mais perguntas do que respostas. Mas o que Noah Hawley acabou entregando foi uma surpresa muito pouco característica dele: um encerramento low profile, suave, direto, claro e completo, que não deixa dúvidas sobre o que aconteceu. E então, como reagir a isso?

Confesso que minha primeira reação imediatamente quando os créditos começaram a rolar foi ficar um pouco frustrado por justamente no encerramento o showrunner não nos dar uma rasteira e apresentar algo completamente fora da caixinha, como tantos outros capítulos em sua saga lisérgica sobre David Hawley, o Legião. Fiquei pensando algo como “mas eu entendi tudo o que aconteceu, como pode isso?” ou “foi um final be-a-bá, que não me deixou confuso”, claramente permitindo que minhas expectativas sobre o que eu queria ver nesse final maculasse o resultado. Expectativas são terríveis e sou sempre o primeiro a dizer que é necessário deixá-las de lado para realmente apreciar uma adaptação. São expectativas irreais que levam as pessoas a reclamar que seu “heroizinho não está igual ao gibizinho” o tempo todo, como um chatíssimo disco arranhado ou como uma criança contrariada pelos pais em uma loja de doces. Portanto, respirei fundo e lá fui eu reassistir Chapter 27 despindo-me de meu pré-conceito e mergulhando na proposta de Hawley.

Uma coisa já precisa ficar desde logo sacramentada: é muito pouco provável que tenhamos novamente uma série baseada em quadrinhos mainstream de super-heróis com esse nível de qualidade e liberdade sobre o material fonte. Se pensarmos especificamente no material da Marvel, essa possibilidade fica ainda mais remota considerando a pegada inevitavelmente mais pasteurizada que a Disney imprimirá sobre seus produtos que basicamente são máquinas de imprimir dinheiro. Legion é tudo menos algo mainstream, bastando para isso ver os ridiculamente baixos números de audiência. Ainda que tenhamos adaptações geniais como Patrulha do Destino, que também operam fora do óbvio, Legion é algo realmente especial e que só por isso merece ser apreciada em outro nível, com aquele traço de tristeza justamente por ser única e por estar sendo encerrada agora, com apenas 27 episódios.

Feita essa ressalva, retorno ao episódio em si. Apesar de inovar em sua abordagem, Noah Hawley, sem dúvida alguma, entregou um final “comportado”, mas que é, sem sombra de dúvidas, um final completo para sua série, sem deixar pontas soltas ou, se escolhermos interpretar diferentemente, deixando absolutamente todas as pontas soltas já que o final nada mais é do que um novo começo para tudo, abrindo caminhos para absolutamente qualquer coisa acontecer. Essa dicotomia sobre o final é uma de suas melhores características. A viagem no tempo foi um artifício “safado” para resetar tudo? Com certeza, mas ele não só foi bem utilizado na temporada, com resultou em algo profundamente satisfatório que trouxe encerramento não só para Haller, como também – e talvez principalmente – para Syd.

E porque profundamente satisfatório? Para começar, fica claro desde o início que voltar no tempo não significa mudar o futuro, mas sim apagá-lo. David sabe disso, o que significa que ele tem ampla consciência do que ele se tornou. Temos, sim, em sua figura, nessa versão do Legião, o grande vilão da série, tão grande que ele sabe que precisa deixar de existir, que ele precisa dar uma chance não a ele, mas ao bebê David. Não há um afago de Hawley, um varrer para debaixo do tapete para tudo que seu protagonista fez. O que ele fez está feito e não tem volta. Ele precisa “morrer” ou, no caso, deixar de existir. E não, ele fez tudo aquilo que ele fez – inclusive e especialmente o estupro de Syd – como David Haller e não como David Haller controlado por Ahmal Farouk, pois essa teria sido a saída “bonitinha” para tudo e eu sempre duvidei que Hawley fosse escolhê-la.

Mas, muito além de Haller, Syd ganha um novo começo. Sim, ela de certa forma já aceitou quem ela é e o que aconteceu com ela, o que a deixa triste por saber que essa sua versão não mais existirá. No entanto, a garantia de Switch (já falo sobre essa personagem) de que seu futuro será brilhante, é tudo que ela precisa para entender que a Syd SEM David será uma Syd muito melhor só por esse simples fato de que seu novo eu não conhecerá David. Ah, mas é verdade que a nova Syd poderá sim conhecer o novo David nesse novo futuro que se forma. É a lei da probabilidades. Afinal, nada deixa sacramentado que David não sofrerá de bipolaridade ou esquizofrenia (ou qualquer outra doença mental em razão de seus poderes) ou mesmo que Syd não sofrerá também alguma doença mental futura que acabe fazendo com que os dois convirjam para o mesmo sanatório que marcou o começo de tudo. Sim, isso pode acontecer, mas com David sendo cuidado carinhosamente por Charles e Gabrielle, as chances disso diminuem e, mesmo que aconteça, estaremos falando de um David e uma Syd que não conhecemos. Tudo pode dar certo, afinal de contas. Esperança é, sem dúvida, a mensagem que fica.

Também como parte de meu pré-conceito, achei que Switch seria eliminada sem cerimônia da narrativa, mas eis que Hawley vem e estabelece um surpreendente e completo arco narrativo para a jovem, revelando-a que ela é um ser iluminado, uma espécie de deusa do tempo, muito mais do que só uma mutante. E, nessa esteira, a relação dela com seu pai ganha um encerramento, assim como sua nova versão passa a interferir diretamente na narrativa, eliminando os Comedores do Tempo remanescentes e dando mais tempo para as versões que conhecemos de David, Syd, Cary e Kerry se despedirem. Essa foi, diria, a segunda rasteira que Hawley nos dá nesse encerramento “certinho”.

Aliás, falando em Carey e Kerry, a fusão dos dois para permitir que eles tenham uma chance contra os monstros (eu já disse que eu simplesmente adoro a forma como os bichos são representados na série?) é belíssima, levando a sempre jovem Kerry a envelhecer e “alcançar” Cary, o que permite um lindo epílogo em que, pela primeira vez, eles se chama de irmãos. Outro arco narrativo cujo fechamento não esperava e que ele veio mesmo assim para roubar uma lágrima furtiva (maldito Hawley!).

No lado do grande embate, a separação dos pares foi uma jogada excelente. De um lado, ficaram Farouk jovem e David, duas pessoas descontroladas, violentas, capazes de qualquer coisa pela vitória, o que abre espaço para um belíssimo “videoclipe de batalha mental” que coloca mãe e filha em um dueto cantando Mother, do Pink Floyd, escolha mais do que absolutamente perfeita. Do outro lado, Farouk experiente e Charles Xavier tomam um drinque em um bar virtual. Adultos de um lado, crianças do outro. Conversa versus guerra. Não é conversando, afinal de contas, que a gente se entende? De certa maneira, não sei se comprei completamente o bom-mocismo do Farouk “velho”, mas devo confessar que não é nem de longe uma surpresa. O que o episódio faz é apenas confirmar de vez que esse Farouk que viveu 32 anos na mente de David definitivamente não poderia mais ser mesmo o Farouk que lutou contra Xavier no passado.

Legion, no fundo, é uma história sobre a importância da família, como ela pode fazer a diferença na vida de uma criança. Syd em sua segunda vida ganhou outra visão de mundo no deslocado Chapter 25. O David “estragado” sofreu traumas irremediáveis quando ainda muito jovem, traumas esses que não necessariamente têm relação com o Rei das Sombras. O novo David, como Syd deixa claro para Gabrielle e Farouk “velho” deixa claro para Charles, precisará de todo o carinho e o amor de seus pais para caminhar em outra direção. Noah Hawley quebra expectativas e encerra sua saga não com fogos de artifício ou viagens incompreensíveis, mas sim com uma muito bem-vida abordagem lindamente simples para seu protagonista e todos que gravitam ao seu redor. Uma despedida inusitada, mas sem dúvida muito eficiente para uma série que deixará saudades.

Legion – 3X08: Chapter 27 (EUA – 12 de agosto de 2019)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Noah Hawley, John Cameron
Roteiro: Noah Hawley, Olivia Dufault
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Navid Negahban, Jemaine Clement, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Hamish Linklater, Jean Smart, David Selby, Jelly Howie, Brittney Parker Rose, Lexa Gluck, Marc Oka, Lauren Tsai, Samantha Cormier, Jason Mantzoukas
Duração: 53 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.