Crítica | Legs Weaver: Miragem e As Damas Negras

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Legs Weaver apareceu pela primeira vez na revista de estreia de Nathan Never: Agente Especial Alfa, em junho de 1991. Quando a Sergio Bonelli Editore criou uma outra publicação dentro desse Universo, o título Nathan Never Especial, veio também a ideia de se publicar histórias secundárias para incrementar o número principal. Antes de ganhar seu título solo, Legs protagonizou três dessas histórias de 32 páginas: As Paredes de Blackwall (junho de 1993), Miragem (dezembro de 1993) e A Chegada de Legs! (novembro de 1994), que vieram acompanhando os números 2, 3 e 4 de Speciale Nathan Never.

No presente compilado, trago as críticas para Miragem e para as edição número um do título solo de Legs, o primeiro de uma personagem feminina na Bonelli: As Damas Negras.

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Miragem

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Miragem é uma história de perseguição e investigação. Escrita por Michele Medda, o conto traz Legs na cola de um bandido mutante, alguém que a protagonista classifica como “criatura” e que vem cometendo uma série de atos de grande violência por onde passa. A narração aqui é engraçada (às vezes até demais, com algumas piadas que simplesmente não funcionam ou parecem muito forçadas, destoando da atmosfera da trama) e conversa com o leitor, em uma nuance metalinguística que também não possui muito amparo na história. De toda forma, esse aspecto realmente não incomoda, ele só não está plenamente contextualizado.

Enquanto fala de violência ou descreve os lugares repletos de areia trazida por um Mistral incessante nesse futuro da Terra, Legs realmente chama a atenção. Mesmo a fábula de cunho cristão contada por ela para definir a Baía dos Anjos tem o seu charme. Todavia, o ato final da história parece ter sido escolhido para concentrar os maiores problemas da revista, exceto pela arte de Andrea Artusi, que se mantém boa. O roteiro, no entanto, se perde imensamente na hora de dar significado ao conceito de “miragem” do título. Medda dá a impressão de que queria criar algo totalemente tecnológico, mas desistiu no meio do caminho e fez uma estranha conexão entre as partes, mista de filosofia, religião (ou misticismo) e, pior ainda, biologia e evolução, como vemos na explicação do velho misterioso no bar, falando sobre “os olhos de Deus“.

A partir de determinado momento, o texto parece não saber de fato para onde ir, e o final ressalta isso da pior maneira possível. O curioso — e frustrante — é que a premissa é interessante. Sempre que a gente contrasta a visão do mundo espiritual (ou qualquer coisa parecida) com o mundo material, há espaço de sobra para um enredo capaz de nos fazer pensar ou admirar a junção ou brigas entre esses dois Universos. O que mantém a história ao menos mediana é o fato de ter um início e um desenvolvimento interessantes, com a caça de Legs a esse bandido e as cenas de perseguição e luta em si. Depois, naquele que deveria ser o clímax da história, o roteiro vai para todo lado mas não consegue chegar a lugares muito interessantes. Pelo menos a piada física no final funciona, encerrando uma estranha trama com um bom riso.

Nathan Never Especial #3: Miraggi (Itália, dezembro de 1993)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
Roteiro: Michele Medda
Arte: Andrea Artusi
Capa: Cláudio Castellini
32 páginas

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As Damas Negras

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Então chegamos à edição de estreia de Legs Weaver! Publicada em janeiro de 1995 e escrita por Antonio Serra, a aventura já tem uma cara bem diferente daquilo que se podia esperar de um spin-off de Nathan Never. E sim, isso é algo positivo. Depois da medíocre história curta intitulada Miragem, é bom chegarmos a uma saga que, mesmo tendo os seus próprios problemas, consegue se manter acima da média, fundamentar a sua protagonista, demarcar seu território, seus coadjuvantes e seu modus operandi, parte da história que garante uma boa porção da diversão do leitor.

Aqui, Legs e Nathan estão em uma região costeira, escoltando um perigoso traficante de tecnologia genética chamado Madmartigan. A primeira parte da aventura se dá com a preparação para a missão que prenderá o traficante e aí já conseguimos observar o tom cômico da protagonista, mesmo nas horas mais impróprias para isso (no bom sentido do termo), o que deixa seu parceiro de ação bastante contrariado. A relação entre Legs e Nathan é calorosa, respeitosa e cheia daquelas provocações e briguinhas que nós fazemos e temos com verdadeiros amigos. Pode até ter sido medo da Bonelli em fazer a estreia desse título solo sem uma participação (não apenas cameo!) de Nathan Never, mas o fato é que a presença dele aqui é maravilhosa. Dá um excelente contraponto dramático em relação à outra funcionária da Agência Alfa e, principalmente, destaca a persona forte, claramente fã de violência e provocativa de Legs Weaver.

Já na primeira parte vemos Nathan reclamando do frio e isso acena para o que aconteceria logo em seguida, com ele caindo doente, tendo pego um vírus forte e Legs tendo que seguir a missão sozinha. Notem que o roteiro não abandona um personagem importante e bem estabelecido como Never, mas também não o torna o centro das atenções em um título em que ele não deveria ser o centro das atenções. Melhor ainda: o afastamento por doença, diante de um vírus potente do futuro da Terra, é algo perfeitamente colocado no texto e, exceto por alguns diálogos meio fracotes demais para virem de Nathan Never, todo esse processo de afastamento funciona bem. Colocada como parceira da Agente Especial Yvonne Samson, da Agência Ômega, Legs precisa agora salvar o traficante Madmartigan, que foi sequestrado pelas Damas Negras, poderosa organização criminosa liderada por Jahna.

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Contando com monstros devoradores, várias linhas de abordagem sobre modificação genética (humana e animal) e trabalhando com duas mulheres em conflito durante uma investigação, o texto se aproxima mais de algo peculiar em termos de quadrinhos policiais do que propriamente de ficção científica pura, como é o caso de Nathan Never. Evidente que é uma impressão ligada à abordagem de Antonio Serra, mas a diferença na forma como a saga de desenrola é bastante forte. O texto só encontra algo ruim em seu segundo ato, logo após a internação de Nathan Never. Depois de um início charmoso e intenso em diferentes níveis, a aventura passa para uma forma burocrática, com eventos que acabam não fazendo bem ao ritmo da edição e, para ser sincero, não trazem nada de espetacular para o enredo. É como a Agente Yvonne diz, em certo momento: a informação ali obtida poderia ser conseguida (embora de modo bem mais difícil) por outros meios.

A reta final de As Damas Negras traz uma batalha intensa entre mulheres e monstros, além de uma promessa de retorno do misterioso grupo. Gosto bastante das cenas de ação nesse Universo e a arte de Gianmauro Cozzi e Teresa Marzìa servem bem ao propósito do que a trama exige. Após o estranho segundo ato, tudo volta para o nível de ironia e provocações interessantes ligados a Legs, seguindo até o final, com cenas de amizade e um humor bem gostosos de se ver nos quadrinhos, especialmente quando bem colocados, como a brincadeira com o jovem apaixonado pela Agente (vale dizer que existem referências em todo canto indicando a homossexualidade de Legs, mas isso não é dito explicitamente, ainda bem, pois soaria didático demais, depois de tantas nuances legais sobre o tema…), com o dragãozinho também apaixonado por ela e com um cliente na loja nerd tentando vender um certo item, fechando a piscadela metalinguística dada no meio da aventura. Embora não seja memorável ou absolutamente relevante, As Damas Negras é uma boa estreia de título. A primeira edição de uma série que teria 119 volumes (isso sem contar as séries secundárias!) e 10 anos de estrada.

Legs Weaver #1: Le Dame Nere (Itália, janeiro de 1995)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
Roteiro: Antonio Serra
Arte: Gianmauro Cozzi, Teresa Marzìa
Capa: Mario Atzori
98 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.