Crítica | Lembranças de um Verão

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Lembranças de um Verão é um filme nostálgico. O seu elemento técnico mais lembrado — e definitivamente, o melhor do filme — é a trilha sonora, tanto a composta por Mychael Danna (que anos mais tarde venceria o Oscar na categoria por As Aventuras de Pi) quanto a escolhida por ele para acompanhar toda a trajetória desta história de verão, com destaque para The TwistOnly You (And You Alone)Sleep Walk, CarolSmoke Gets In Your Eyes. Essa experiência musical molda o espectador de uma maneira que é difícil colocar totalmente em perspectiva para uma avaliação, afinal de contas, as lembranças — especialmente as musicais — são capazes de nos fazer reviver momentos ou de nos aproximar de certas sensações que muitas vezes tendem a nublar pontos negativos de uma obra e dar destaque apenas para aquilo que ela nos proporcionou em termos de diversão. Lembranças de um Verão é um filme perfeito para isso.

Da presença de A Aldeia dos Amaldiçoados (1960) até uma certa alusão a Conta Comigo (1986), esta película de Scott Hicks ressalta a viagem para o passado através das lembranças de Bobby Garfield (David Morse), que tem como gatilho o luto pela morte de um amigo, a descoberta da morte de uma paixão de infância e então o seu mergulho no passado, para o verão onde ele completou onze anos de idade e teve como locatário um estranho homem chamado Ted Brautigan (Anthony Hopkins, todo poético, emotivo e reticente). Na infância, Bobby é representado por Anton Yelchin, que manda muitíssimo bem no papel, assumindo a ternura e a simpatia de um garoto protagonista vivendo uma vida marcada pela saudade do pai morto e pela mãe ausente, sempre trabalhando.

Estabelecido esses ingredientes centrais da história, o roteiro de William Goldman (baseado na obra de Stephen King) cai diretamente no maior problema de todo o filme: ele não se decide sobre o quê é. Falta foco narrativo e os afetos mais apaixonados da obra podem destacar que se trata de uma narrativa em várias camadas, o que não deixa de ser verdade. Mas como é marca desse tipo de narrativa, sempre deve haver uma parte que serve de guia e que traz consigo as tramas secundárias, todas cercando acontecimentos que servem de suporte para a narrativa principal e não apenas momentos isolados que supostamente dizem muito a respeito do enredo mas, na verdade, não dizem. Notem o drama da mãe de Bobby, por exemplo. Vocês perceberam a quantidade de indicações, suspeitas, supostas relações que o roteiro anexa a esse bloco do filme? E no final das contas, absolutamente nada fica claro. O elemento óbvio da violência sexual simplesmente se perde diante de um mistério sugerido que nunca vem à luz.

A mesma coisa, embora em menor grau, ocorre com a presença de Ted Brautigan na vida de Bobby. O “poder mental”, o próprio sentimento do garoto, a “abertura de sua mente”, os mistérios em relação ao pai e a ameaça dos Low Men (alô alô Torre Negra!), tudo isso entra em uma espiral de confusão narrativa onde tudo é apresentado mas interrompido sem o menor pudor, com o roteiro voltando para a vida pessoal do menino e ressaltando esse sentimento de aprendizado e maturidade com um final que abraça o novo estágio da vida, olha para o futuro e então corta para o presente de fotografia azulada, em pleno inverno, no local onde as lembranças vieram. O ciclo se fecha de maneira ok, mas não de uma forma que dê ao filme a força necessária para ir além da beleza da infância, de boas músicas e de um mistério interessante que nunca consegue se ajustar direito. A experiência é muitíssimo válida e o filme termina acima da média, mas isso tem mais a ver com os sentimentos que a obra suscita no espectador do que com a obra em si.

Lembranças de um Verão (Hearts in Atlantis) — EUA, 2001
Direção: Scott Hicks
Roteiro: William Goldman (baseado na obra de Stephen King)
Elenco: Anthony Hopkins, Anton Yelchin, Hope Davis, Mika Boorem, David Morse, Alan Tudyk, Tom Bower, Celia Weston, Adam LeFevre, Will Rothhaar, Timothy Reifsnyder, Deirdre O’Connell, Terry Beaver, Joe Blankenship, Brett Fleisher
Duração: 101 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.