Crítica | Lições de Vida (Contos de Nova York)

Primeira parte (na versão americana) de Contos de Nova York, longa formado por três curtas independentes dirigidos por grandes diretores tendo a cidade como pano de fundo, Lições de Vida traz um Martin Scorsese em trabalho de direção intimista olhando para o relacionamento de amor, ciúmes, ódio, dependência e obsessão de um famoso artista plástico de meia-idade e sua jovem assistente e aspirante a pintora. Usando quase que o tempo inteiro grandes espaços abertos internos cercados por enormes janelas que permitem um olhar para os arranha-céus da Big Apple, o diretor nos faz observar o todo pelo detalhe – aqui representado visualmente pelo fechamento da íris como em filmes mudos dos primórdios do Cinema -, jamais retirando seus protagonistas do foco de suas câmeras.

Nick Nolte vive o artista sensação Lionel Dobie, em uma caracterização intensa, mas melancólica, com barba desgrenhada, figurinos e mãos manchados pela tinta e um olhar perdido, em pleno bloqueio artístico há apenas três semanas de sua grande exposição. Em contraponto, Rosanna Arquette, voltando a trabalhar com Scorsese desde Depois de Horas,  é Paulette (apenas Paulette), a irrequieta e insegura assistente de Lionel que volta da Flórida depois de um caso com um comediante resoluta em voltar para casa e não mais trabalhar para o artista. Percebemos imediatamente que Lionel depende de Paulette para pintar, mas não exatamente como musa, mas sim por sua aparente necessidade de montanhas-russas amorosas para ser o que é, já que a volta de sua ex-assistente marca o reinício de seu trabalho febril em um grande e complexo painel semi-abstrato que evolui em complexidade na medida em que o curta ganha corpo.

Mas Paulette, de certa forma, apesar de sua aparente independência e desdém por Lionel, deixa transparecer uma natureza que é ao mesmo tempo manipuladora e aproveitadora, mas que deixa nas entrelinhas uma forma de parasitismo que a torna também presa a seu mentor e ex-amante. É o retrato, talvez, de uma juventude sem rumo, mas que se espelha na necessidade de aprovação por alguém mais experiente, uma figura paterna em um relacionamento conturbado e provocador, que o texto de Richard Price leva ao ponto de incomodar o espectador, notadamente em um diálogo em que Paulette, provocadora no que veste diante de Lionel, ouve do artista frases como “eu poderia te estuprar” que, apesar de não serem carregadas de efetiva intenção, entregam um lado sombrio e pervertido de ambas as partes.

Scorse faz com que a grande tela que Lionel pinta seja o reflexo do que passa em sua mente, com as canções cirurgicamente escolhidas amplificando os sentimentos e fazendo parte da narrativa da mesma forma que a cidade também o é, mesmo que, por quase a totalidade da projeção, ela somente seja visível por janelas. Quando uma efetiva externa acontece, ela é noturna, com a fotografia do grande Néstor Almendros (de A Escolha de Sofia, Kramer vs. Kramer, Cinzas no Paraíso, dentre outros), em seu antepenúltimo trabalho, usando a água da chuva como fonte reflexiva de luz, criando uma sensação claustrofóbica e incômoda como a própria cena, o que inverte a lógica dos espaços internos amplos, de pé direito altíssimo que são a base para esse curta.

Nolte e Arquette estão impressionantes aqui, resultado não só do roteiro provocador, como das lentes dilacerantes de Scorsese que provocam ao usar a sensualidade da atriz e a brutalidade do ator em um embate físico silencioso e distante. É como ver dois pugilistas que jamais trocam socos circulando o ringue e pedindo pela violência que nunca vem da forma que imaginamos. Há faíscas entre os atores como opostos que não se atraem, mas sim dependem um do outro sem nem sequer entenderem a dimensão da coisa e o quão doentio tudo realmente é.

Lições de Vida é uma lição de concisão narrativa que conversa com olhares, com espaços e com uma câmera nervosa sem nunca ser desorientadora que usa Nova York como veículo para uma relação conturbada e a relação conturbada como veículo para mostrar o submundo artístico de uma cidade pujante, mas de esquinas escuras que se opõe à selva de pedra a perder de vista que podemos observar pelas janelas da câmera. É Scorsese dizendo que sua cidade – porque sim, é a cidade dele em todos os sentidos – é o resultado de vidas simbióticas e vicariantes em um turbilhão de cimento, vidro e alumínio.

Lições de Vida (Life Lessons, EUA – 1989)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Richard Price
Elenco: Nick Nolte, Rosanna Arquette, Steve Buscemi, Patrick O’Neal, Peter Gabriel, Jesse Borrego, Illeana Douglas, Victor Argo
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.