Crítica | Lições Empresariais de Game of Thrones, de Carolina Tavares

O universo da série Game of Thrones é um dos mais transmidiáticos da contemporaneidade.  Além do material literário de George Martin e das oito temporadas produzidas pela HBO, diversos produtos circulam pela mídia e demonstram as rizomáticas possibilidades de se pensar Westeros. Há também um aproveitamento do manancial de conteúdos ofertados pelo programa em diversas áreas do conhecimento, dentre elas, os cursos de Administração, Economia, Direito, Letras, etc. O debate dentro de componentes curriculares sobre Liderança e Empreendedorismo é um dos mais profícuos e conectados aos diálogos e ações de personagens como Daenerys Targaryen, Jon Snow, Cersei Lannister, dentre outros.

Sob a ótica do pensamento empresarial, a série ultrapassa as barreiras nebulosas da ficção e flerta com dados metafóricos de nossos relacionamentos profissionais cotidianos, em especial, no terreno da liderança, do empreendimento, da estratégia, da postura e da atitude, elementos essenciais para vencermos as batalhas e obstáculos diários. O livro é taxativo ao afirmar que em Westeros, alcançar o poder é difícil, mais complexo ainda é mantê-lo, com citações de falas dos personagens mais emblemáticos e também de George Martin, criador do universo, homem que afirma ser “um líder alguém que deve aprender que as palavras conquistam coisas que muitas espadas não conseguem”.

Lições Empresariais em Game of Thrones é uma publicação de Carolina Tavares, jornalista admiradora do universo da série que é uma metáfora viva das empresas e suas transações cheias de intrigas, jogos de poder, etc. Com experiência significativa em empresas como a MTV e a NAPSTER, a autora fundou a Jazz House, em 2011. Aparentemente inspirada pela força de Daenerys, personagem que começou do nada e ganhou forte fidelização, juntamente com a liderança democrática e adequada de Jon Snow, Carolina Tavares discorre com leveza e didatismo as lições prometidas no título da publicação, um livro que não se aproveita do conteúdo da série para dialogar com informações sem aplicabilidade, como acontece com alguns trechos de A Sabedoria de Tyrion Lannister, postulado coach sobre a série.

Em Startups, primeiro capítulo, Tavares discorre sobre o momento em que “o dragão desperta”, isto é, quando a empresa é nova e embrionária. Para situar o momento em questão, traça o forte trajeto de Daenerys e demonstra como a mãe dos dragões estudou os seus inimigos e aliados para se tornar uma mulher empoderada diante de um universo patriarcal e opressor. Ao ter Missandei como sua aliada, a herdeira Targaryen consegue maior fluidez na comunicação, tendo como lidar com línguas e culturas que ela não sabe lidar sozinha. Num elucidativo diagrama, a autora aponta personagens e suas equivalências internas no ambiente empresarial.

Daenerys é a fundadora da empresa, Tyrion Lannister é o CEO, Jorah Marmant o Diretor Comercial e de Vendas, Missandei é Diretora de Marketing e Comunicação, Verme Cinzento é o Gerente de Projetos e Lorde Varys pode ocupar o posto de Gerente de Estratégia e Planejamento, palavra-chave para o capítulo seguinte, “Planejamento: Qual o Caminho para Westeros?”, momento em que a autora dedica algumas páginas para traçar as diferenças entre objetivo, indicador e meta, isto é, o anseio do empreendedor para a sua empresa, a métrica sobre como o objetivo será alcançado e o valor a ser atingido pelo indicador ao final de um período, respectivamente. Ao citar a celeridade do tempo, um dos nossos maiores problemas da atualidade, o livro reforça a necessidade das estratégias, ao apontar as eficientes maquetes de Daenerys e os mapas gigantescos de Cersei. Olenna Tyrell, viúva do Lorde Luthor, conhecida como a Rainha dos Espinhos, também é apontada como um exemplo promissor de liderança e estratégia.

Ao longo de Estrutura, terceiro capítulo, somos apresentados aos perfis comportamentais da série: a dominância de Cersei, a estabilidade de Jon Snow, a conformidade de Missandei, a influência de Robert, etc. Numa relação de correspondência entre cargos e funções da vida real com os personagens de Game of Thrones, a autora declara ser a Mão do Rei o ocupante da poltrona de Diretor Geral. O Mestre das Leis corresponde ao Diretor Jurídico, o Mestre dos Navios ao Diretor de Logística, o Mestre dos Sussurros ao Diretor de Comunicação, o Mestre da Moeda ao Setor Financeiro e Grande Mestre como o Gerente de Recursos Humanos.

No capítulo seguinte, Clientes, a autora deixa delineia: “não diga que é um rei, seja um rei”. Para a abordagem, Tyrion Lannister é escolhido, apontado como alguém que entende o seu cliente. Sendo a adaptabilidade e a resiliência duas de suas principais armas, o personagem acometido pela narcísica ferida do nanismo é um bom manejador nas articulações e deixa a mensagem central: compreenda muito bem o cliente. Em Parcerias, a epígrafe “alguém me empresta os navios?” traz questões pontuais, tais como a arrogância de Cersei Lannister, alguém que mesmo diante das posturas despóticas, sabe que não é autossuficiente; e Daenerys Targaryen, elogiada por fazer boas parcerias e dialogar constantemente com a sua equipe.

No sexto capítulo, “Comunicação”, Carolina Tavares abre a reflexão com a necessidade de compreensão das segmentações dentro dos sete reinos, tendo em vista atender as demandas de todas as camadas que compõem as esferas sociais de um “mercado”, afinal, num reino geograficamente tão grande como Westeros os desejos e estilos são diversificados e precisam de atendimento para que insurreições sejam evitadas, não é mesmo? Tais questionamentos são aberturas para o desfecho do livro, Liderança: Aproveite o Seu Reinado, sétimo e último capítulo.

Como lição, a autora aponta que Cersei é admirada por alguns fãs da série, mas não deve ser tida como um exemplo de liderança, pois governa pela coerção e as pessoas as obedecem apenas por medo de não sobreviver. Jon Snow, por sua vez, é delineado como o líder que se protege e abarca os demais, isto é, aquele que não abandona o barco e vai até o fim numa batalha. Com aparente simpatia pela liderança democrática de Daenerys, Carolina Tavares reforça que influenciar é diferente de manipular, além de destacar que o checklist é a ferramenta básica de todo bom líder, pessoa não apenas manda, mas planeja, organiza, controla, coordena e executa tarefas.

Diagramado por Rodrigo R. Matias, a publicação da editora Escala traz em suas 150 páginas, informações sobre como a conquista do trono possui forte carga simbólica, algo equivalente ao sucesso nos negócios, tal como afirma o prefácio de Thaizi Morani, docente e palestrante do SENAC, mentora e autora de artigos sobre vendas. Dividido em sete capítulos bem distribuídos e escritos, o livro segue à risca o que afirmou George Martin ao dizer que “cada machucado é uma lição e cada lição nos torna pessoas melhores em algo”. As lições apontadas por Carolina Tavares são coesas, coerentes e retratam questões empresariais que inclusive tornam as nossas práticas cotidianas em outras searas da vida, tais como os relacionamentos interpessoais e domiciliares, quando os temos.

Lições Empresariais de Game of Thrones (Brasil, 2015)
Autor: Carolina Tavares
Editora no Brasil: Escala
Páginas: 150

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.