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Crítica | Life – Um Retrato de James Dean

por Luiz Santiago
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estrelas 2,5

Anton Corbijn é um diretor/fotógrafo de trabalho interessante. Ao mesmo tempo que possui a sensibilidade para assinar clipes ou grandes produções musicais (notadamente do Depeche Mode, mas também constam em seu currículo direções para o U2 e Nirvana), ele consegue se adequar a filmes de grande tensão ou ação como Control (2007), Um Homem Misterioso (2010) e O Homem Mais Procurado (2014). O mais interessante ainda é que este seu Life – Um Retrato de James Dean (2015) é um pouco dos dois lados que ele vem executando ao longo da carreira, a abordagem sensível, nostálgica e um pouco abandonada de um eu lírico ou personagem; do outro, as forças externas que os pressionam e os movem.

Todo o roteiro gira em torno da promoção pré-lançamento de Vidas Amargas (1955) o filme que lançou o mito chamado James Dean. Mas ainda que persiga durante todo o tempo essa promoção — contando com aparições aqui e ali de Jack Warner (Ben Kingsley, muito bem no papel, que infelizmente está apenas “encaixado” no filme) — ou que mostre a tentativa de Dean em conseguir o papel principal no que seria o filme de sua vida, Juventude Transviada (1955), Life não é uma fita sobre os bastidores dessas produções. Tampouco é um filme biográfico sobre James Dean ou sobre o fotógrafo Dennis Stock, que tentava fazer um ensaio com o antissocial e “estranho” aspirante a astro. Life é uma mistura de todas essas vertentes dramáticas e, talvez, este seja o seu grande problema.

Escrito por Luke Davies, o roteiro tenta construir um castelo de emoções vindas do cinema dos anos 1950 e suas clássicas referências. Para decorá-lo, há também pedaços da vida pessoal de James Dean e do fotógrafo que o acompanha, em busca de um “ensaio definitivo”. Em parte, o texto consegue o seu intento, ou seja, no bloco reservado à vida pessoal de Dean há sim uma grande identificação do público e um melhor trabalho do texto em dar motivações para o personagem, mostrar suas raízes e permitir que tenhamos uma melhor visão sobre ele, mesmo que saibamos da existência de passagens aqui que são apenas criações para fazer o filme andar melhor.

A direção de Corbijn também funciona parcialmente, e faz dupla com o bloco onde o roteiro é melhor, com exceção de que não se acerta com o ator Dane DeHaan. Durante a produção de Life, foi amplamente noticiado que ele havia recusado o papel várias vezes, por se sentir intimidado pelo personagem. Digamos, honestamente, que DeHaan tem um admirável senso de autocrítica e sabe do que é capaz, como ator. Interpretar James Dean não é uma dessas coisas.

Podemos até ver com bons olhos a tentativa do ator em incorporar a timidez irritante de James Dean, o modo de falar lento, com algumas pausas igualmente irritantes, o tique com o cigarro, onipresente, a forma de andar e o jeito misterioso e fascinante de olhar. Se estivéssemos falando de um curta-metragem, é bem provável que esta versão fosse aceitável, mas não é o caso aqui. A repetição de certos parâmetros dramatúrgicos, se não estão bem localizados em uma história forte e com um único foco (fraqueza do filme que já apontamos antes), enjoam rápido e marcam negativamente quem interpreta. Imaginem como isso fica na tela durante quase duas horas.

Robert Pattinson acaba se saindo melhor em seu papel, com destaque para a cena em que ele está verdadeiramente bom, a pequena sequência onde o vemos falar sem parar, após ter tomado uns comprimidos mágicos. A entonação, a forma como ele incorpora aquela outra faceta de Dennis Stock, e sua imposição completamente diferente da que utiliza no restante do filme, acabam nos dando um dos melhores momentos da película. Uma pena que dura pouco.

Ainda pesa sobre Life o fato de o desenho de produção nos passar uma impressão bem menos ‘anos 50’ do que deveria. Alguns podem até encontrar uma saída honrosa para este aspecto, dizendo que a principal fotografia foi feita em internas e que não havia espaço para mostrar uma melhor ambientação, mas esta não é exatamente uma boa desculpa, pois a própria representação interna poderia contar — até mais, a meu ver — com elementos que denunciassem a época. Não que o filme seja visualmente anacrônico e, querendo ou não, temos os carros e os personagens conhecidos para nos guiar, mas tanto a direção de arte quanto a fotografia fizeram algo mais ‘atemporal’ do que ‘de época’ e esta não era a intenção do diretor ou mesmo a proposta do filme. Novamente, volto ao resultado final disto, se estivéssemos dentro de um outro enredo. Era provável que relevássemos ou víssemos com menos peso esses detalhes se o esqueleto da fita estivesse melhor estruturado. Bem, ao menos a trilha sonora e os figurinos cumprem bem esse papel de adequação.

Life – Um Retrato de James Dean é um filme que estaciona na linha do ‘regular’ porque quer abraçar o mundo e acaba não conseguindo dar conta de nenhuma das histórias que se propõe. Já viram “esse filme” antes? A camada destinada exclusivamente a James Dean é a que melhor nos parece e que recebe exposição mais bem pensada do diretor, e também os melhores diálogos. Na direção contrária vão as outras duas camadas que, ao invés de apoiarem e fortalecerem o protagonista, minam grande parte de sua energia, que já não era tão grande assim devido à interpretação progressivamente chateante de Dane DeHaan. A obra caba sendo válida por detalhes preciosos a respeito de uma porção de fotos históricas de James Dean. Mas o preço que pagamos para matar esta curiosidade acaba sendo mais alto do que precisava.

Life – Um Retrato de James Dean (Life) — EUA, 2015
Direção: Anton Corbijn
Roteiro: Luke Davies
Elenco: Robert Pattinson, Dane DeHaan, Peter Lucas, Lauren Gallagher, Lauren Gallagher, Drew Leger, Alessandra Mastronardi, John Blackwood, Jason Blicker, Emily Hurson, Kristian Bruun, Joel Edgerton
Duração: 111 min.

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4 comentários

Gabriel Martins 24 de julho de 2016 - 23:48

Estava com uma leve curiosidade em assistir o filme por ter o Anton Corbjn na direção, pois gosto muito do trabalho dele na direção dos clipes “Personal Jesus”, “Enjoy The Silence” e Barrel Of A Gun” do Depeche Mode, das colaborações dele com o Echo & The Bunnymen e da direção no filme “Control”, mas, pelo visto, acho que neste filme mais recente eu provavelmente vou me decepcionar.

Responder
Luiz Santiago 26 de julho de 2016 - 00:04

Infelizmente é um filme que não se firma, sabe? A proposta é ótima, ele tem bons atributos técnicos, mas infelizmente quer falar de coisas demais e não avança. Ou acaba fazendo algumas linhas dramáticas pela metade.

Responder
Luiz Santiago 26 de julho de 2016 - 00:04

Infelizmente é um filme que não se firma, sabe? A proposta é ótima, ele tem bons atributos técnicos, mas infelizmente quer falar de coisas demais e não avança. Ou acaba fazendo algumas linhas dramáticas pela metade.

Responder
Gabriel Martins 24 de julho de 2016 - 23:48

Estava com uma leve curiosidade em assistir o filme por ter o Anton Corbjn na direção, pois gosto muito do trabalho dele na direção dos clipes “Personal Jesus”, “Enjoy The Silence” e Barrel Of A Gun” do Depeche Mode, das colaborações dele com o Echo & The Bunnymen e da direção no filme “Control”, mas, pelo visto, acho que neste filme mais recente eu provavelmente vou me decepcionar.

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