Crítica | LIFEBOAT (2018)

  • Leiam, aqui, as críticas de todos os indicados à categoria de Melhor Documentário em Curta-Metragem no Oscar 2019.

A (não tão) recente crise mundial dos refugiados de diversos países asiáticos e africanos que tentam chegar à Europa e outros lugares do chamado Primeiro Mundo tem sido terreno fértil para pungentes documentários que fazem de tudo para denunciar a insustentável situação pelos mais diferentes ângulos de forma que o assunto não seja esquecido e que algum tipo de solução seja encontrada. Se, por um lado, é terrível testemunhar o desespero das pessoas que, sem alternativas, não hesitam em abraçar a primeira oportunidade para fazer jornadas perigosas para deparar-se com uma recepção e futuro incertos em uma outra vida, por outro há, também, o drama dos próprios países recipientes do êxodo e as várias consequências econômicas, sociais e humanitárias que esse fluxo constante de gente traz.

LIFEBOAT é um curta que lida com o literal meio do caminho, abordando o trabalho da Sea-Watch, uma organização sem fins lucrativos alemã que tem como um de seus objetivos patrulhar as águas do Mar Mediterrâneo e resgatar imigrantes que tentam a travessia de maneira precária, em barcos e botes superlotados e sem nenhum infraestrutura, arriscando a vida em cada segundo em que estão na água. Dirigido por Skye Fitzgerald, ele utiliza a câmera no estilo cinema verité, imediatamente colocando o espectador no meio da complexa situação e enquadrando a narrativa principal entre a localização de um corpo na costa da Líbia, ou seja, já apresentando a questão de maneira poderosa e sem firulas, com um quê inescapável de pessimismo.

A câmera na mão do resgate em terra usada na moldura fílmica de Fitzgerald é também utilizada no coração de seu curta, aqui representado pelo incansável Jon Castle, capitão no navio que acompanhamos ao longo da projeção e que infelizmente faleceu em 2018. Sua energia é constante, ainda que também sua frustração com toda a situação ao seu redor. Seu trabalho – e o de seus tripulantes, claro – é uma literal gota d’água em um oceano, tentando minimizar a perda de vidas em um fluxo de trabalho que não para, não reduz a velocidade. Mas o diretor sabe que os refugiados não podem ser ofuscados pelo heroísmo inerente de quem tenta resgatá-los e aponta sua câmera constantemente para fora, mostrando, sem precisar de muitas palavras, a complexidade das operações diárias e as escolhas que têm que ser feitas ali, no calor do momento, quando faltam espaço ou quando a situação fica perigosa demais. Arremessar coletes salva-vidas para pessoas famintas que passaram dias chafurdando em seus próprios dejetos e, em seguida, pinçar aquelas – mulher e crianças – que poderão sair da morte flutuante em questão é de fazer qualquer um fechar os olhos em desespero. Mas é o que pode ser feito enquanto outros navios de resgate, todos também abarrotados de gente, não chegam para prestar socorro.

Assistir LIFEBOAT é como testemunhar alguém enxugar o proverbial gelo. A situação nos países de origem dos refugiados é terrível demais como deixam evidente os testemunhos em câmera para que a ONG tenha qualquer chance de ingerência. O ponto de desembargue na Europa é outra incógnita, ainda que, independente de qualquer outra coisa, certamente muito melhor que o ponto de embarque. Com isso, a Sea-Watch fica literalmente entre a cruz e a calderinha, tentando no mínimo trazer um pouco de humanidade e decência para a travessia do ponto A ao ponto B deses milhares de pessoas que se jogam no mar em busca de uma vida que pelo menos não seja repugnante. Qualquer coisa – literalmente – é melhor do que eles têm.

O documentário ganhou uma bela trilha sonora de William Campbell, que procura pontuar e enfatizar seus momentos mais importantes, sem dramatizar demais os acontecimentos. Ou melhor, sem dramatizar mais ainda os acontecimentos, já que não há um segundo em que o espectador não fique agoniado com a tragédia desvelando-se diante de seus olhos. Campbell sabe disso e popula o silêncio com notas fortes, que refletem musicalmente a situação e tornam a narrativa ainda mais fluida e bonita, se é que posso utilizar esse adjetivo. Fitzgerald, por sua vez, sabe quando sincronizar a música e, melhor ainda, quando não sincronizá-la, deixando determinada situação falar por si mesma.

LIFEBOAT, em sua pouco mais de meia hora, faz um recorte preciso e doloroso de uma situação macro que não tem solução a curto prazo. Resta aos cinegrafistas documentarem esses momentos para que o mundo não se esqueça do que está acontecendo agora, nesse momento, em alguma parte do globo. Se efetivamente fazer algo para ajudar pode parecer difícil, até diante dos problemas domésticos que cada povo tem, talvez a lembrança coletiva de vidas chegando prematuramente ao seu fim tire-nos de nossa zona de conforto, precipitando ações como a de Jon Castle e equipe.

Direção: Skye Fitzgerald
Com: Jon Castle
Duração: 34 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.