Home FilmesCríticas Crítica | Liga da Justiça de Zack Snyder (Sem Spoilers)

Crítica | Liga da Justiça de Zack Snyder (Sem Spoilers)

por Ritter Fan
9.458 (a partir de agosto de 2020)

Já vou começar com uma confissão: tenho verdadeira tara por versões alternativas de filmes lançados no cinema. Pode ser o pior filme do mundo que, se tem uma versão estendida, do diretor ou de qualquer maneira diferente, como as versões em preto e branco de O Nevoeiro, Logan e Mad Max: Estrada da Fúria e a inusitada versão sem som de Gravidade, pode ter certeza de que eu irei atrás com toda minha força de vontade. Desnecessário dizer, portanto, que Liga da Justiça de Zack Snyder, vulgo SnyderCut, o filme mais implorado por uma horda incansável de fãs desde que os irmãos Lumière inventaram o cinematógrafo, estava lá em cima na minha ordem do dia para assistir.

E o melhor é que, quanto mais complicada a história de bastidores de uma versão alternativa, melhor. No caso, há uma tragédia por trás que afetou profundamente Zack Snyder e sua esposa, levando-os a se afastarem da produção, o que acabou com a entrada de Joss Whedon no projeto e uma mudança de direção. Mas há mais ainda nesses meandros podres de mandos e desmandos da Warner que dariam um artigo – ou mais de um – inteiro só para isso e que, portanto, não abordarei. Mas o fato é que o longa realmente longo chegou graças a uma combinação de insistência de fãs, seja a massa, sejam os famosos com a sana por material inédito que a proliferação dos serviços de streaming causou, com especial destaque para o HBO Max que, apesar de ser a grande aposta de entretenimento da AT&T (dona do conglomerado todo), começou bem claudicante.

Mas vamos então começar por uma breve classificação, para não nos perdermos em devaneios megalomaníacos do tipo “esse é o melhor filme do mundo” ou “Snyder é um cineasta mais importante que Ingmar Bergman“. Liga da Justiça de Zack Snyder é uma versão estendida – ou do diretor – de Liga da Justiça, de 2017. Não é um “novo filme”, uma visão completamente nova e radical daquilo que acabou chegando às telonas ou algo que vá revolucionar os filmes de super-heróis. É, no frigir dos ovos, ou seja, em sua essência, exatamente a mesma coisa, só que com novas sequências enxertadas aqui e ali, cenas mais longas, novos takes das mesmas sequências de antes e, claro, uma mudança aqui e ali na ordem da narrativa, tudo com uma nova demão de computação gráfica de qualidade bem duvidosa como já havia sido duvidosa no filme dirigido por Whedon. Mas faz parte do jogo, é isso mesmo, mas é importante respirar fundo e entender que estamos diante de uma versão muito estendida do filme original ou, se eu quiser ser mais específico, um filme que deveria ter abraçado de vez seu tamanho, colocado tudo, inclusive a pia da cozinha nele, e ter sido convertido em uma minissérie de seis, talvez até oito horas de duração.

Afinal, como filme, o tão esperado SnyderCut sofre essencialmente dos mesmos problemas do “original”, cria outros, corrige alguns, sobretudo dando mais contexto a diversas sequências e eliminando outras como a da família na Rússia e estende tudo de maneira a parecer que, pelo menos até o início do ataque final da Liga ao Lobo da Estepe, estamos vendo o longa de Whedon pelos olhos que Barry Allen enxerga o mundo quando está na Força de Aceleração, mas usando óculos escuros, claro. E não escrevo isso como deboche. Não mesmo. Ao contrário, reconheço os méritos dos fãs ao fazerem com que essa versão finalmente viesse à lume e, mais do que isso, reconheço as qualidades de Zack Snyder, particularmente sua dedicação absoluta a seus projetos, algo raro em diretores de blockbusters por aí e que pode ser visto muito claramente em Watchmen, sua versão do diretor e sua versão completa (chamada Ultimate Cut), além de ótimo material extra como Sob o Capuz. Snyder sabe criar universos e sabe contar histórias e ele tinha uma excelente história em Liga da Justiça se – e apenas se – o filme não acabasse sendo, em grande parte, uma colcha de retalhos criada para acelerar a inserção de novos personagens da DC Comics e ampliar mitologia dos existentes como, aliás, foi BvS antes dele, em razão de uma estratégia macro equivocada da Warner. Afinal, se era para fazer um filme da Liga sem construir seus personagens individualmente antes como o Marvel Studios fez cientificamente, então porque não mergulhar de vez na equipe pronta no lugar de criar mini-origens dentro do filme? E olha que, se não fosse Snyder, provavelmente o conceito da coisa toda seria ainda pior, seja na versão de 2017, seja na de 2021.

Considerando que todos que não moram em uma caverna sem wi-fi já sabem do que se trata o filme, basta rapidamente dizer que a história parte de um Batman (Ben Affleck) sentindo-se culpado pela morte do Superman (Henry Cavill) reunindo uma equipe de seres super-poderosos formada pela Mulher-Maravilha (Gal Gadot), Aquaman (Jason Momoa), Flash (Ezra Miller) e Ciborgue (Ray Fisher) para lutar contra uma ameaça que ele não tem ideia do que é, mas que nós sabemos: uma invasão da Terra por seres de Apokolips a mando do sinistro Darkseid (Ray Porter), que envia o gigantesco, espinhudo e muito prateado Lobo da Estepe (Ciarán Hinds) com uma infinidade de minions conhecidos com o simpático nome Parademônios. De um lado, o vilão precisa reunir três antiquíssimas e super-poderosas Caixas Maternas (uma com o pai do Ciborgue, outra em Atlândida e a outra em Themyscira) e, de outro, o Homem Morcego precisa reunir seus amigos para enfrentar a ameaça e claro, de quebra, ressuscitar o Superman, pois, como dizem por aí, o Azulão é 99% do poder da Liga.

Com pouco mais de quatro horas de duração, Snyder transformou seu filme – que, mesmo que ele tivesse ficado no leme, jamais chegaria aos cinemas com esse tamanho, talvez nem três horas – em capítulos que muito lentamente apresentam Ciborgue, Flash e Aquaman e reintroduzem o Batman e a Mulher-Maravilha, com direito a história de origem para o primeiro, uma sequência de amor à primeira vista para o segundo e a única introdução fluida de verdade (sem trocadilho) para o terceiro, que é visto, em resumo, como um durão bêbado de bom coração que é o Superman das águas. Batman e Mulher-Maravilha formam uma dupla dinâmica que acaba dirigindo a narrativa com seus atos, enquanto Snyder não se faz de rogado em paralelizar sua narrativa com O Senhor dos Aneis e em trabalhar uma sequência de generosos minutos na Ilha Paraíso, com protagonismo da Rainha Hipólita (Connie Nielsen). Não fossem problemas bastante visíveis de CGI animando seres humanos, o que nunca é uma boa ideia e uma sequência de terrorismo evitado pela Mulher-Maravilha que faz uso de um horroroso efeito de fast forward, diria que são bons momentos que seriam excelentes em uma série de TV que realmente fizesse jus ao que Snyder queria de fato fazer.

E é por isso que eu tenho que voltar à questão da duração, pois Liga da Justiça de Zack Snyder é um filme, não uma série e, como filme, ele é uma interminável sucessão de sequências muito claramente episódicas que, mais ou menos até a marca das 2h30′ anda muito mais de lado do que para frente, só realmente melhorando quando tudo começa a convergir para a cidadezinha abandonada na Rússia que o Lobo da Estepe elege como seu quartel-general. Mesmo entendendo que Snyder abraçou essa oportunidade rara para basicamente ticar em todos os quadradinhos de um longo “formulário” para agradar os fãs (sou partidário da tese de que aquela frase “sou fã, quero service” é extremamente equivocada, mas isso fica para outra conversa), com Darkseid dando as caras de verdade, um Lanterna Verde aparecendo com mais destaque na luta épica no passado, o uniforme preto – e, convenhamos, aleatório – do Superman e, claro, um futuro membro importante da Liga dando as caras de maneira mais do que completamente desnecessária, o fato é que muito do que ele despejou no longa não cumpre função narrativa alguma que não seja a de fazer fã sorrir. No processo, duas horas tiveram que ser transformadas em quatro, com a aplicação cinematográfica direta daquela teoria econômica conhecida como Lei dos Rendimentos Decrescentes, ou seja, cada minuto acrescentado ao filme significa menos para o conjunto final e isso vale também para o gigantescamente longo epílogo (ou epílogos) que é quase um curta-metragem intitulado Olha o Que Eu Faria se Vocês Deixassem.

Sei perfeitamente que é isso que os fãs queriam e sei que muita gente ficará muito feliz, mas um filme continua sendo um filme e ele precisa ser encarado e analisado como tal. Zack Snyder é um sujeito resistente e insistente, além de ser um cineasta que sabe compor visualmente suas obras, merecendo mérito pelo que ele fez aqui e que nos dá um vislumbre do que poderia ter sido seu “Snyderverse” se a Warner não se mostrasse completamente sem rumo lá atrás, uma das razões pelas quais eu adoro ver versões alternativas de longas cinematográficos. Aliás, vou além e encerrarei dizendo algo que sei que muita gente concordará: não há absolutamente nada que impeça que a produtora embarque de vez na proposta de Snyder, trazendo o diretor de volta ao seu projeto para continuar a história de seus personagens a partir deste ponto. O filme não desdiz frontalmente nada do que já foi feito (e se desdiz, qual é o problema?) e há sim material ali para permitir um arquitetura narrativa que leve a um universo compartilhado tão fértil quando o da produtora rival, além de haver demanda para isso, nem que seja na própria HBO Max. Então sim: #restorethesnyderverse.

P.s.: Para quem se importa com notas em estrelas (HALs, no caso), ou tem curiosidade, eu daria exatamente a mesma nota para a versão de 2017.

Liga da Justiça de Zack Snyder (Zack Snyder’s Justice League – EUA, 18 de março de 2021)
Direção: Zack Snyder
Roteiro: Chris Terrio (baseado em história de Zack Snyder, Chris Terrio e Will Beall)
Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Gal Gadot, Diane Lane, Jared Leto, Ezra Miller, Jason Momoa, Connie Nielsen, J.K. Simmons, Robin Wright, Amy Adams, Karen Bryson, Kiersey Clemons, Jesse Eisenberg, Ray Fisher, Amber Heard, Ciarán Hinds, Jeremy Irons, Lisa Loven Kongsli, Harry Lennix, Joe Manganiello, Joe Morton, Ann Ogbomo, Ray Porter, Samantha Win, Ryan Zheng, Mark Arnold, Gianpiero Cognoli, Willem Dafoe, Peter Guinness, Swaylee Loughnane, Eleanor Matsuura, Lara Decaro, Russell Crowe, Kevin Costner, David Thewlis, Michael McElhatton, Billy Crudup
Duração: 242 min.

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