Crítica | Liga da Justiça Sombria: Apokolips War

A jornada do Universo em animação da DC em tempos recentes não tem alcançado bons resultados com tanta frequência. Mais ainda. Nos últimos dois anos (2018 – 2020), apenas duas produções com os personagens da DC Comics conseguiram animações verdadeiramente marcantes, seja pela peculiaridade e aposta fora da caixa, como no caso de Batman Ninja, seja no caso da violenta, dinâmica e divertidíssima Esquadrão Suicida: Hell to Pay, produção que estreita relações muito próximas com a abordagem que o roteiro de AltbackerScott dá aos eventos desta Guerra de Apokolips.

O filme marca o fim de uma linha de produção em audiovisual da DC — Animated Movie Universe (DCAMU) — e funciona como encerramento de um arco iniciado lá em Guerra (2014). Nesse momento da saga, a Liga da Justiça precisa organizar um ataque definitivo contra Darkseid, evitando assim a devastação completa da Terra, que embora tenha se livrado das garras do vilão outras duas vezes, pode não ter forças para uma terceira e bem preparada investida. E é justamente nesse ponto que o roteiro dá o grande salto que garantirá o sucesso do longa: ele estabelece a derrota dos heróis já no início e nos prepara para uma história de esperança e perseverança sob um ponto de vista cru e majoritariamente realista.

Quando eu citei antes a semelhança desse filme com Hell to Pay, é por este caminho que eu estava trilhando. Estamos diante de uma história onde a Liga, os Jovens Titãs, Esquadrão Suicida e mais uma porção de heróis, anti-heróis e vilões aliados se dedicam a parar Darkseid, sendo que essa luta, sabotada desde o início, termina por fazer um serviço de divisão ético-moral entre os personagens já na base do primeiro ataque. Contra o roteiro pode-se dizer que passa inadvertidamente por esta fase, mas não se trata de um evento que o mesmo roteiro deixa de aludir e inclusive trabalhar, ainda no primeiro ato, basta vermos a oposição virulenta de Constantine frente ao Superman (agora sem poderes) e depois ao Batman, sem contar a cobrança também não perfeitamente endereçada mas aceitavelmente tratada diante do Flash e suas ações que causaram esta linha do tempo alternativa.

A direção nos presenteia com uma cadência interessante de planos, não focada em uma partida para ação de forma direta, apenas como reação a uma tragédia, mas sim em empreitadas individuais ou de pequenos grupos. Da entrada de Etrigan na jogada até a insanidade da Arlequina em ação ou a breve participação do Monstro do Pântano, temos diferentes motivações e abordagens para o engajamento na guerra, que se estrutura em uma ótima base de ataque, sendo Darkseid o articulador ou finalizador, como vemos no caso de Oa. Somemos a isso a grande quantidade de mortes de personagens importantes e temos um cenário verdadeiramente impressionante de se acompanhar, um evento de proporções épicas, tratado como tal e que permite aos heróis sentirem na pele as verdadeiras consequências de confrontarem um vilão que estava muitos passos à frente.

Com elenco bem escalado (Matt Ryan como Constantine é o meu favorito aqui), fazendo jus à caminhada de animações dessa linha, e um verdadeiro clima de guerra (minha luta favorita é a de Etrigan contra a Mulher-Maravilha programada) Apokolips War fecha um Universo com chave de ouro e não tem medo de colocar o ponto final justamente no momento em que a linha do tempo se reescreve novamente. Sem maneirismos de fechamento, sem muita forçação de barra. Uma verdadeira história de guerra com resultado amargo, mas ao mesmo tempo solene e bonito, mostrando a união e a luta desses heróis mesmo sabendo que pouca coisa havia para ser preservada. Uma das produções que melhor explora a personalidade de cada um em um momento de grande crise. Um marco, em vários sentidos.

Justice League Dark: Apokolips War (EUA, 5 de maio de 2020)
Direção: Matt Peters, Christina Sotta
Roteiro: Ernie Altbacker, Mairghread Scott
Elenco: Roger Cross, Rosario Dawson, Christopher Gorham, Camilla Luddington, Shemar Moore, Jerry O’Connell, Jason O’Mara, Matt Ryan, Sachie Alessio, Stuart Allan, Ray Chase, John DiMaggio, Taissa Farmiga, Liam McIntyre, Tony Todd, Rebecca Romijn, Hynden Walch, Rainn Wilson
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.