Depois de ler o péssimo primeiro crossover entre a DC Comics e o Monsterverse, minha vontade de ler Liga da Justiça vs. Godzilla vs. Kong 2, especialmente com Brian Buccellato novamente no roteiro, era nula, mas minha curiosidade mórbida acabou levando a melhor e eu acabei encarando a nova minissérie em sete edições que promove a famosa rinha de galo entre super-heróis e super-vilões da DC Comics com os titãs da Legendary. No entanto, para minha completa surpresa, a segunda tentativa do roteirista ao lado de Christian Duce, que retorna agora solo para cuidar da arte, mostrou que esse tipo de pancadaria descerebrada pode funcionar desde que haja um mínimo de esforço para se desviar de armadilhas narrativas básicas em que a primeira minissérie caiu todas as vezes. De forma alguma o novo projeto é uma maravilha ou algo próximo disso, mas pelo menos ele não se apoia apenas em arte vistosa para esconder a completa preguiça em se escrever algo minimamente interessante.
O maior acerto de Buccellato é levar a ação para o universo dos monstros, especificamente para a Ilha da Caveira e para a Terra Oca em grande parte das edições e um pouco, ao final, em um região razoavelmente remota do Peru para o grande confronto. Com isso, resolveu-se um dos grandes problemas da primeira minissérie, que era situar a ação de proporções colossais em cidades grandes com a intenção artificial de evitar toda e qualquer demonstração de perigo para a população local. Se é para deixar a pancadaria rolar solta, é muito melhor afastar criaturas e meta-humanos dos meros mortais e, assim, soltar o freio por completo, sem medo de ser feliz. E fica melhor ainda quando Buccellato realmente aposta todas as suas fichas no absurdo e usa como gatilho narrativo o Esquadrão Suicida de Amanda Waller (que, porém, fica no comando por pouquíssimo tempo), que conta inclusive com Lex Luthor como um dos membros, passando a ser rato de laboratório para a criação de versões titânicas dos vilões, com direito a um mega Tubarão-Rei e um mega Croc só para começo de conversa. O ridículo funciona quando o que se quer é mergulhar de cabeça em um universo em que o exagero é a palavra-chave.

Com a Liga transportando-se via Tubo de Explosão modificado e transformado em um Stargate multiversal pelos vilões, os mais poderosos heróis do grupo – Superman e Supergirl – podem mais facilmente ser colocados em xeque, com seus poderes reduzidos pelas características inerentes desse universo que permanecem sem maiores explicações, pois elas não são necessárias. Isso abre espaço para que todos tenham participação equilibrada, com o roteirista também freando os desequilíbrios causados pelos exageros extremos de um Batman costumeiramente tão bem preparado que ele poderia vencer sozinho qualquer briga. Para tornar a história mais interessante, Buccelatto ainda se deu ao trabalho de especificar que essa viagem dos heróis até a Terra paralela em que suas contrapartidas não existem, mas os monstros sim, os transporta temporalmente também, fazendo-os chegar por lá em momento anterior ao primeiro encontro deles com os titãs, o que exige toda a reconstrução da confiança e união entre os super-heróis e os monstros bonzinhos.
A arte de Duce funciona novamente e é o grande destaque da minissérie, com uma quantidade generosa de páginas inteiras e páginas duplas que destacam o que há de mais relevante em histórias assim, ou seja, o escopo da pancadaria, com o artista esmerando-se nos detalhes das criaturas, com especial destaque para Godzilla. É sempre difícil manejar tantos personagens ao mesmo tempo, mas Duce tem um bom controle do espaço que tem e consegue distribuir com segurança todos eles, mantendo quase intactas as diferenças de tamanho e refestelando-se demais com os momentos em que ele pode se soltar por completo com super-heróis e super-vilões igualando o tamanho dos monstros. É uma caixinha de areia que tem muitas possibilidades de divertimento visual e que o artista consegue se aproveitar.
No entanto, Buccellato não consegue manter a qualidade do roteiro intacta. Suas ideias macro são boas, mas, na granularização, a execução dele se perde com tentativas de criar drama como é situar a ação logo após o casamento de Barry Allen ou eliminar personagem importante só na base do “por que sim”, sem maiores consequências práticas para toda a narrativa. E, na medida em que a história se aproxima do fim, notadamente lá pela quinta edição, ela começa a perder a coesão, com personagens entrando e saindo da história aleatoriamente como é o caso de Aquaman e do Caçador de Marte, quase como se ele tivesse sido obrigado a estender a minissérie de cinco para sete edições no meio do caminho por ordens superiores, o que eu não duvidaria nada se fosse mesmo o caso. Mesmo assim, o resultado final é muito superior ao que ele foi capaz de fazer antes, o que já é um alento para um crossover que, tenho certeza, será repetido pelo menos mais uma vez.
Liga da Justiça vs. Godzilla vs. Kong 2 (Justice League vs. Godzilla vs. Kong 2 – EUA, 2025/26)
Contendo: Justice League vs. Godzilla vs. Kong 2 #1 a 7
Roteiro: Brian Buccellato
Arte: Christian Duce
Cores: Luis Guerrero
Letras: Tyler Smith
Editoria: Michael McCalister (DC Comics), Robert Napton (Legendary)
Editora original: DC Comics
Datas originais de publicação: 04 de junho, 02 de julho, 06 de agosto, 03 de setembro, 26 de novembro e 24 de dezembro de 2025; 25 de fevereiro de 2026
Páginas: 210
