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Crítica | Lilith – Vol. 3: O Fronte de Pedra

por Luiz Santiago
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A introdução que Luca Enoch escreveu para esta aventura demonstra a ótima pesquisa que ele fez para conceber mais uma viagem da cronoagente Lilith ao passado da humanidade, a fim de exterminar as ocorrências do parasita que no futuro exterminará parte de nossa espécie e assumirá o controle do planeta. A trama se passa durante a 1ª Guerra Mundial, mais precisamente no outono de 1917, região de Carnia, nordeste da Itália. E mais uma vez Luca Enoch consegue entregar uma história que captura a essência do momento que representa juntamente com novidades e intensificação da história de sua protagonista.

A demora para Lilith encontrar o miriápode e a ausência do simpático e provocador Escuro no início do volume é uma interessante estratégia para fazer com que o leitor foque o máximo possível nos horrores que ocorriam dentro do Exército italiano, que além de ter uma estrutura pouco preparada para a guerra, mantinha regras disciplinares absolutamente atrasadas e em tudo desumanas. Nós temos a oportunidade de ver personagens de patentes e lugares diferentes fazendo essa discussão sobre a justiça no meio militar, um tema que acompanha a discussão sobre o horror da guerra, mostrado já nas primeiras imagens do quadrinho.

Quando Escuro aparece, o autor usa do humor do animal-guia para tornar a história um pouquinho mais leve, mas o peso de tudo o que é abordado aqui domina a atmosfera geral. O que vemos não é apenas uma “situação comum de guerra”, onde sabe-se que os dois lados podem sofrer baixas terríveis. O que temos é uma carnificina atrás da outra, mostrada visualmente através do uso de diversas armas e táticas de guerra, principalmente nas trincheiras. E no meio de tudo isso, acompanhamos Lilith atravessar diversos campos de batalha à procura de seu alvo, uma jornada que termina com uma surpresa muito interessante.

Confesso que achei o tom de todo o drama da cronoagente bastante maniqueísta nas duas edições anteriores, mas não tomei isso como um ponto negativo, porque é uma premissa que entendemos como comum nesse tipo de situação. Em O Fronte de Pedra, no entanto, o autor me fez mudar de opinião ao acenar para o outro lado da moeda. A cena de Lilith com o cardo que está morrendo é a minha favorita da edição, especialmente porque ele sugere que o que contaram para a protagonista não é exatamente verdade. E sim, isso pode ser uma manipulação psicológica feita pelo cardo, mas ela retira o véu de maniqueísmo na batalha entre os “humanos bonzinhos” e o “parasita triacanto malzão” levando-a para um outro estágio.

Esses tons de cinza na construção de um Universo onde lados diferentes lutam para dominar alguma coisa são o meu tipo favorito de condução dramática. Elas mostram que ambos os lados podem ter pontos positivos e negativos em seu interior, pontos de vista diferentes, com as mais diversas origens. A cena do treinamento de Lyca com as lâminas é mais uma prova de que os humanos nesse futuro estão focados demais no extermínio do parasita e parece que se esqueceram de algo muito importante. Lyca é treinada para matar até o seu próprio instrutor, e isso é tido como uma honra na cultura do futuro, algo que no mínimo deve servir de sinal de alerta.

Fico extremamente ansioso para ver esse véu se descortinar e tornar a missão de Lilith não apenas uma coleção de dilemas ético-morais, mas também uma missão que pode fazer a personagem se questionar se vale mesmo realizar algo para salvar a humanidade. Afinal de contas, o que o cardo diz sobre os humanos não é mentira. Nós somos uma espécie destruidora e, mais dia menos dia, iríamos encontrar alguém para parar a gente, não é mesmo?

Lilith – Vol. 3: O Fronte de Pedra (Il Fronte di Pietra) — Itália, novembro de 2009
Roteiro: Luca Enoch
Arte: Luca Enoch
Capa: Luca Enoch
Editora: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Red Dragon Publisher, 2019
128 páginas

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