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Crítica | Lindinhas (Mignonnes)

por Gorete Frazão
3146 views (a partir de agosto de 2020)

O momento atual nos coloca grandes desafios, sendo um deles pensar o papel da mulher na sociedade. Ser mulher inserida nessa teia é para seres de muita força. Pensar o nosso espaço requer debater muitos aspectos: culturais, políticos, religiosos. Parto dessa colocação para abordar alguns elementos na seara cinematográfica, e falo isso como mulher, que tem que abrir espaços constantes para reflexão e construção efetiva de uma sociedade plural e mais igualitária.

Essa pauta vem da polêmica em torno do filme Mignonnes, com tradução brasileira de Lindinhas, lançado na plataforma de streaming Netflix no último dia 9 de setembro. Essa é a obra de estreia na direção de longas-metragens da cineasta e roteirista franco-senegalesa Maïmouna Doucouré. A polêmica em torno de seu trabalho vem em falas, posts e campanhas para retirada do filme da plataforma, já que, para um determinado grupo, ele incentiva à pedofilia.

Estamos falando de um filme que inicialmente teve aceitação dos críticos nos festivais onde foi apresentado, no início do ano de 2020, abordando um universo feminino onde o amplo debate pode acontecer. Esse debate é, sem dúvida, necessário, já que podemos analisar na narrativa alguns aspectos caros ao universo feminino. Falamos aqui de criação dos filhos, de casamento e do papel da mulher no domínio que a religião ainda exerce. É nesse ambiente que a história se desenvolve, partindo de planos abertos e inserindo essas personagens em seu espaço, depois fechando a objetiva cada vez mais, até os closes destacarem detalhes das meninas e darem identidade visual ao problema que a cineasta aborda. A mesma coisa acontece com os “figurinos escandalosos” que acompanham a mudança das garotas, em contraste com o “guarda-roupa sóbrio” dos adultos. 

Em Lindinhas, temos uma abordagem fílmica focada na tradição familiar muçulmana que deixa claro: não há espaço para a entrada de temas como sexualidade e lugar de fala, nem mesmo ambiente para o diálogo na criação dos filhos. O longa lança o seu olhar para os dilemas da adolescência de meninas francesas, e é protagonizado por Amy (Fathia Youssouf). A personagem enfrenta impasses familiares como o casamento do pai com uma nova esposa e o controle que a religião muçulmana exerce sobre elas. Todas essas mudanças abrem espaço para um franco desenvolvimento do roteiro. 

Nos deparamos, portanto, com uma adolescente que será transformada, na tentativa de construir sua identidade e sentimento de pertencimento a um grupo de outras adolescentes. É nesse processo de construção que temos grandes polêmicas, com Amy tentando se encontrar fora das tradições familiares. Esse é o momento de debate em torno da obra. Para ser aceita, a adolescente vai se forçar a uma grande mudança. Ela passa a consumir conteúdos de apelo sexual, sem ter recebido a devida informação sobre eles, uma vez que esses temas são tabus em seu núcleo. A personagem não tem realmente noção que os eróticos gestos aprendidos são a grande problemática que cerca a sua realidade.

Este é o dilema que envolve o universo de algumas adolescentes: não ter esses temas abordados no seu processo de formação, seja no âmbito familiar, seja nas escolas. Estamos vivendo momentos em que esses assuntos devem ser tratados, para não cometermos os mesmos erros sociais na formação de nossos adolescentes. Quando a descoberta da sexualidade é feita dessa forma abrupta, rebelde, corre-se o risco de repetirmos falhas, perpetuando uma sociedade onde poucos espaços são realmente ocupados por mulheres livres e com consciência de seus potenciais. Caímos em erros formativos dos padrões comportamentais, com mulheres que são rotuladas pela exposição de seus corpos. 

Chegamos à grande polêmica. É nela que teremos grupos pedindo a retirada do filme da plataforma, com base em diversos pensamentos alheios ao que o filme trabalha ou criticando coisas que o filme abertamente critica, chamando a nossa atenção para um problema. Para um comportamento frequente e desafiador em meninas de uma certa faixa etária: a rebeldia, o desafio às raízes, a vontade de se encontrar. E tudo isso, infelizmente, sem a devida orientação ou olhares da família, já que “esse terrível assunto” não é discutido em lugar nenhum. Cancelar o debate parece mais fácil. Educar as nossas adolescentes para se tornarem conscientes dos abusos, da dominação, é algo bem complexo. Falamos em liberdade, mas não educamos realmente nossas adolescentes para o empoderamento de si e de seus lugares na sociedade. 

A problemática que o filme aborda é boa para o cinema, para questões ligadas ao gênero e para novos olhares sobre tradições culturais de um universo feminino muito fechado. Uso da tecnologia, tabus, relacionamentos familiares e a cobrança que a mulher tem para ser forte e ter que dar conta de tudo (sem questionamentos, aceitando a condição) estão presentes no filme e são, na verdade, o foco da obra. Penso que houve um grande erro de abordagem de marketing da Netflix, mas o longa, em si, é muito bom e jamais o levaria para o lado da pedofilia. Gosto do foco na abordagem da adolescência aqui, com meninas vindo de núcleos familiares bastante problemáticos, e esses problemas refletindo-se na construção da identidade dessas adolescentes. Temos também uma crítica à hipersexualização feminina (e precoce), e isso está posto nas danças e na escolha da trilha sonora, que no nosso universo brasileiro está voltado para o quadro da exposição do corpo no funk.  

No que tange à cultura islâmica, também são abordados problemas referentes à violência na adolescência. Essa abordagem é notada em como o corpo feminino é apresentado: coberto, restrito e servil. Nesse aspecto não posso deixar de lembrar que a violência também se faz presente nesse ambiente cheio de vestes e recato, quando meninas têm seus corpos e vidas entregues a casamentos arranjados por volta dessa mesma tenra idade, e onde não há espaço para suas necessidades como seres humanos. Ali há também um tipo cultural de objetificação velada. A violência é identificada em ambos os modelos culturais. 

Lindinhas é um filme que chama ao debate sobre o ganho de espaço e visibilidade dentro da sociedade a partir do uso do corpo. Pior: sem se ter muita consciência disso, porque essas questões não são realmente discutidas. A crítica vem, mas as conversas e a educação não aparecem. É muito fácil criticar certo comportamento estrutural sem que se faça as necessárias discussões do ponto de vista da educação, do ponto de vista das tradições culturais e em cima dos próprios temas tabus. Lindinhas é um possível ensaio para esse tipo de conversa.

Lindinhas (Mignonnes) — França, 2020
Direção: Maïmouna Doucouré
Roteiro: Maïmouna Doucouré
Elenco: Fathia Youssouf, Médina El Aidi-Azouni, Esther Gohourou, Ilanah Cami-Goursolas, Myriam Hamma, Maïmouna Gueye, Mbissine Thérèse Diop, Demba Diaw, Mamadou Samaké, Bilel Chegrani, Canelle Brival, Jean-Paul Castro, Hakim Ferhi, Michael Perez, Bass Dhem
Duração: 96 min.

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