Crítica | Link Perdido

Coraline e o Mundo Secreto, ParaNorman, Os Boxtrolls e Kubo e as Cordas Mágicas. Se você já viu essas produções da Laika, especializada em stop-motion, você sabe que Link Perdido é uma animação obrigatória (se você não viu nenhuma dessas, por favor pare de ler a presente crítica e corra atrás dessas maravilhas. Sério. Está fazendo o que aqui ainda?). Na verdade, vou além ainda: se é stop-motion, a obra já vale o preço de seu ingresso. Essa técnica, somente por sua enlouquecedora complexidade, merece ser reverenciada por todos os apreciadores de animações, independente da qualidade do roteiro de determinada obra.

E a notícia boa é que Link Perdido, apesar de ser consideravelmente linear em sua história, talvez o mais narrativamente “simples” de todos os trabalhos da produtora, ainda é um primor de cadência e de crítica social. Localizando a ação na segunda metade do século XIX, a obra escrita e dirigida por Chris Butler lida com o vaidoso e egoísta Sir Lionel Frost (Hugh Jackman), um desacreditado caçador de criaturas mitológicas que deseja mais do que tudo no mundo ter seu nome eternizado e ser membro de um clube de cavalheiros exploradores de Londres. Depois de um prelúdio em que ele se vê descobrindo – mas não conseguindo provas – o monstro de Loch Ness e que serve para caracterizar à perfeição o personagem, com Jackman brilhante em seu trabalho de voz, a ação propriamente dita quando ele recebe o convite de um sasquatch (o Pé Grande do norte dos EUA e do Canadá) para vir “descobri-lo”, em uma reversão divertida de expectativas.

Batizado sem demora de Sr. Link, a inteligente e solitária criatura humanoide – voz de Zack Galifianiakis –  revela que precisa da ajuda de Frost para transportá-lo até o Himalaia para que ele possa viver com seus “primos”, os yetis. Essa é a desculpa para um road movie que atravessa o mundo todo, com a dupla, logo adicionada de Adelina Quinzena (Zoe Saldana), fugindo do caçador e matador de aluguel Willard Stenk (Timothy Olyphant), por sua vez contratado pelo Lorde Piggot-Dunceby (Stephen Fry) que quer ter certeza do insucesso de Frost.

O grande mérito do roteiro é não deixar a história ter barriga narrativa quase alguma, apesar de não recorrer a sequências de ação frenética a cada 10 minutos. Ao contrário, apesar do humor simpático, especialmente com o Sr. Link interpretando tudo na literalidade que rende piadas simples, mas eficazes, Link Perdido não se sustenta na base de montanhas-russas narrativas, mantendo tudo bem ritmado, ainda que por diversas vezes exagerando no didatismo de suas lições de moral e críticas sociais, como a quantidade de vezes em que Adelina precisa dizer que é uma mulher independente, que sabe se defender ou com a temática do preconceito e aceitação sendo esfregada na cara do espectador com uma frequência maior do que a desejável.

É claro, porém, que o grande destaque fica por conta do stop-motion quase inacreditável que mais uma vez a Laika coloca nas telonas. Sim, não é o stop-motion puro de outrora, já que há ajuda de computação gráfica notadamente nas tomadas externas em plano aberto e retoques digitais para permitir fluidez de movimentos em sequências de alta complexidade, mas mesmo assim o resultado é admirável, literalmente de cair o queixo. Se cada novo cenário que a estrutura de road movie permite é deslumbrante por si só, com determinados frames que dão vontade de enquadrar e pendurar na parede de casa de tão belos, o trabalho vívido da equipe desabrocha mesmo é nos pequenos detalhes como a movimentação da pelagem grossa do Sr. Link ou a textura dos figurinos aristocráticos de Lionel e Adelina. Igualmente, as sequências de ação mais uma vez sobem o sarrafo técnico, com a mais impressionante de todas acontecendo logo no primeiro terço, em uma longa e assombrosa briga de bar no estilo clássico dos faroestes americanos. A pluralidade de personagens e as variações do tema de pancadaria em saloon convidam o espectador a ver e rever o momento, de preferência em câmera lenta depois da terceira ou quarta vez só para não deixar passar cada detalhe dessa verdadeira maravilha de alguns poucos minutos.

Mas o rigor técnico de Chris Butler à frente do projeto mantém o interesse do espectador a todo momento, com uma decupagem precisa que garante uma montagem econômica que não enrola a história em momento algum, exagerando apenas no clímax gelado no Himalaia. Mas, a essa altura, o espectador já está devidamente hipnotizado ao ponto de sequer perceber as repetições do momento quase que em loop que arriscam cansar os mais afoitos.

Link Perdido é mais um acerto da Laika, que mantém seu ainda curto, porém já riquíssimo currículo completamente imaculado. Se a Pixar é a mestre em animação em computação gráfica e os estúdios Ghibli em animação tradicional, a Laika mantem-se firme e forte no topo da arte do stop-motion e a produtora não parece querer perder esse posto.

Obs: Conferi o filme com as vozes originais em inglês, pelo que não tenho como comentar sobre a dublagem brasileira.

Link Perdido (Missing Link, EUA – 2019)
Direção: Chris Butler
Roteiro: Chris Butler
Elenco: Hugh Jackman, Zoe Saldana, Zach Galifianakis, Timothy Olyphant, David Walliams, Stephen Fry, Matt Lucas, Amrita Acharia, Ching Valdes-Aran, Emma Thompson, Humphrey Ker, Adam Godley, Neil Dickson, Ian Ruskin, Matthew Wolf
Duração: 93 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.