Crítica | Lizzie (2018)

“Homens não precisam saber coisas, Bridget. Mulheres precisam.”

Uma versão revisionista de um crime macabro acontecido no século retrasado, Lizzie se transporta para um visão peculiar da mulher homônima, aqui interpretada por Chloe Sevigny, uma das herdeiras de uma grande fortuna, mas que vê o seu futuro ameaçado com algumas possíveis mudanças no testamento do seu pai. Um relacionamento amoroso proibido entre a mulher e Bridget (Kristen Stewart), empregada da casa, é uma das reviravoltas acordadas – algumas das melhores sequências da obra envolvem essa permissão momentânea, como se um casulo fosse construído ao redor de ambas, à exploração de uma proibida sexualidade entre as duas, seja com um beijo retardado ou com carinhos modestos. Os problemas simplesmente somem quando juntas.

O longa pode supor os seus culpados, até mesmo renegar um absolvimento dos criminosos “apontados”, no entanto, sabe como embutir, primeiro pelo roteiro, uma considerável empatia, obviamente parcial, ao caso revisto. As ironias referentes ao personagem do pai, interpretado convincentemente por Jamey Sheridan, por exemplo, ajudam a fortalecer uma desordem na casa, a sensação de que o espaço está comprometido. A recusa ao progresso, com a casa mantendo-se na escuridão, mesmo com a chegada da eletricidade, é contraposta com o rompimento do personagem com o seu matrimônio, estuprando rotineiramente a empregada da casa. Uma sugestão com a aparência em desolação da sua esposa, após o primeiro estupro, consolida o antagonismo que está presumido com a narrativa, ainda que exista rupturas com o maniqueísmo.

O caso não é de conhecimento de todos, contudo, ainda possui sua fama particular, a depender da pessoa que é confrontada por essa empreitada de Craig Mcneill, cineasta ainda pouco conhecido. O problema é que a obra já decide mostrar o evento de uma maneira nebulosa na sua primeira cena, o que compromete uma construção de mistério e suspense mais arrojada. Os espectadores, ao menos, ainda se interessam em saberem as motivações e os responsáveis pelo crime. O roteiro de Bryce Kass joga, sem muita discrição, os interesses de outros coadjuvantes com o testamento do patriarca da família na narrativa, interagindo interessados com interessados e, com isso, gerando tensão. A execução não é perfeita – Bridget, por exemplo, recebe a notícia da morte da sua mãe, que não nos impacta em nada, apenas pela interpretação de Stewart, chorosa na cena.

Lizzie consegue, contudo, estafar o espectador em seu último ato, guiando-o por minutos e minutos que não envolvem o público em um ambiente renovado, o princípio ao macabro, muito pelo contrário. Um gigante flashback surge abruptamente, quebrando com o presente, e a única coisa verdadeiramente interessante que acontece – porque todo o resto é exprimido com uma calmaria cansativa – reside na performance inquietante de Kristen Stewart, que rompe com a apatia de sua servidão àquela casa – o choque é imenso para Bridget. Já Chloe Sevigny é uma artista mais que suficiente para uma personagem que é, por monstros, aproximada de ser um monstro. A completa destruição é sentida após um ataque de pânico de Bridget. Sevigny emite um olhar que, no anacronismo do que havia sido mostrado antes, questiona suas lágrimas “passadas”.

A trilha sonora tensa, esporadicamente retornada com certa presença, e o gênero cinematográfico do longa, a identidade peculiar do thriller, misturado com a época em questão, são úteis para a criação de espaço e atmosfera, mas o pouco senso de horror é prejudicado pontualmente pelo ritmo. Os ótimos figurinos, a cenografia encorpada e a cinematografia arejada mostram o cuidado na produção, que possuiria potência para segurar uma poderosa contradição do sonho americano, despedaço pela sua própria ganância e os seus vários contrapontos. O que sobra, entretanto, é o romance entre a protagonista e a empregada, que sugere uma ideia interessante no longa, com alguns ótimos momentos, mas pouca força conjunta para ser, enfim, verdadeiramente significativo, justificando essa revisão na história americana como necessária para novas proposições, atuais.

Lizzie – EUA, 2018
Direção: Craig Macneill
Roteiro: Bryce Kass
Elenco: Chloë Sevigny, Kristen Stewart, Jamey Sheridan, Fiona Shaw, Kim Dickens, Denis O’Hare, Jeff Perry, Jody Matzer, Daniel Wachs, Roscoe Sandlin, Darin Cooper
Duração: 106 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.