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Crítica | LJA: Liberdade e Justiça

por Luiz Santiago
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Liberdade e Justiça finaliza a série de histórias que Alex RossPaul Dini fizeram entre 1998 e 2003 (as datas de capa dessas edições são sempre um ano à frente), abordando situações de maior impacto moral e profundidade dramática para os personagens. Antecedida por LJA: Origens Secretas, Liberdade e Justiça é quase uma aglutinadora de temas, visões heroicas e ideais gerais da DC Comics em relação aos seus figurões. Levando em consideração que esta não é exatamente uma one-shot tão querida quanto as três primeiras da saga (Paz na Terra; Guerra ao Crime e O Poder da Esperança), o leitor pode até tentar compreender o por quê muitos declinam rapidamente da proposta, normalmente sob duas justificativas: “ela não traz nada de novo para a cronologia da Liga da Justiça e, para fazer valer uma mensagem anti-bélica e de harmonia e esperança de um mundo melhor, coloca os heróis na retranca, em certa medida acuados pela opinião pública e pela mídia”. Essas críticas, a bem da verdade, não são sem motivo. Mas Liberdade e Justiça é muito mais do que uma simples história de “heróis na retranca”.

A história é simples, mas com implicações sólidas. Um vírus é detectado em uma vila da República Democrática do Congo. Um vírus diferente dos que a Liga já vira ou enfrentara antes. Afetando apenas humanos, mantendo-os paralisados enquanto o corpo, consciente, serve de cápsula para a propagação do hospedeiro — que se multiplica através das sinapses — o invasor espalha preocupação, medo e faz com que o caos urbano e impasses diplomáticos aconteçam. Rapidamente entra em cena a formação original da Liga: Aquaman, Batman, Flash (Barry Allen), Lanterna Verde (Hal Jordan), Caçador de Marte, Superman e Mulher-Maravilha. Até certo ponto eles conseguem lidar com os problemas, mas a situação foge do controle e outros heróis são chamados para engrossar a voz da ordem e da justiça.

Dentre os muitos detalhes que nos chama atenção na arte de Ross, a capacidade do artista em capturar movimentos é a que mais ganha destaque aqui. Como a história é bastante ágil, passando-se no continente africano, nos Estados Unidos (Central City, Gotham, Metropolis e Nova York), em Atlantis e com relevo para as cenas na Batcaverna, o leitor é presenteado com inúmeras tomadas de ângulos, dimensões e movimentos em conjunto que por si só já valeriam a leitura (ou a observação) da saga. Dependendo da recepção do leitor, a forma como Ross desenha a resolução do caso (com o plano de Barry e Hal) pode parecer “barato” demais, mas isto é apenas parte de um ponto de vista.

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Pronunciamento da Liga da Justiça na ONU.

A representação realista dos personagens, a construção dos cenários em conflito, as faces de cansaço e expectativa de Aquaman e Flash; o olhar penetrante da Mulher-Maravilha; a postura sempre objetiva do Batman… tudo conta como narração artística. E isso acontece porque Ross é um dos poucos desenhistas de quadrinhos que nos obriga a olhar para sua arte com muita atenção, observar os detalhes, realmente parar para admirar as páginas. Ler um quadrinho ilustrado por esse tipo de desenhista leva mais tempo que o normal e é neste tempo de contemplação que nos ajuda a pensar mais na história, a ver tudo com um nível mais intenso de pessoalidades, o que é natural, dado o estilo artístico que temos em mãos.

O problema do vírus, no entanto, não é épico. Ele é tornado épico pela arte de Ross, mas em narrativa, não tem e nem traz a agilidade que boa parte dos leitores das histórias da Liga esperam. Em parte, isso se deve à diagramação utilizada por Ross; e em parte, pelo tipo de exploração do tema feito pelo artista e co-roteirista Paul Dini. A noite de caos urbano através dos Estados Unidos e o pronunciamento do Superman/Caçador de Marte na ONU são os únicos pontos que realmente temos uma maior ligação entre tema, missão e sentimentos dos personagens. Mas na maior parte da história há uma objetividade tremenda, talvez algo que alguns leitores podem interpretar como “estéril”, crítica muitas vezes feita a esta história e com a qual eu não concordo, mas consigo entender sua origem.

É preciso levar em consideração o modelo de álbum que temos em mãos e a simplicidade e intenção geral da história (união, esperança) para que a apreciemos melhor. A forma como os autores nos mostram a amizade e respeito que os heróis têm um pelo outro não é algo que normalmente vemos em sagas, one-shots e minisséries, que em sua grande parte estão focadas em entregar eventos chocantes. Mesmo com espaço um pouco menor, notamos dinâmicas que não são comuns nas HQs desse porte, com diálogos de agradecimento, reconhecimento de fraqueza, quebra de alguns padrões e até uma linha “fanboy” dos heróis para com eles mesmos. Vejam a sequência em que Aquaman e Flash, afetados pelo vírus, são resgatados pela Mulher-Maravilha e levados para a Batcaverna, um lugar que admiram e fazem até uma rápida piadinha a respeito. Ou as cenas na RDC, com o Lanterna e o Caçador.

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Quando a Liga sozinha não dá conta de tudo, é hora de pedir ajuda.

Embora não seja dado o tratamento um pouco mais próximo para os “heróis de segunda chamada”, o roteiro ainda conserva a sensação de unidade e respeito, mostrando como cada herói lida, a seu modo, com um delicado problema: os humanos. Ver as duplas Arqueiro Verde e Canário Negro; Gavião Negro e Mulher Gavião; Metamorfo e Homem Elástico; e os solos Zatanna, Shazam, Tornado Vermelho e Homem Borracha barrando as ações de pessoas que estavam depredando cidades, cometendo crimes e ameaçando gente nos dá a sensação mais próxima de como impasses maiores enfrentados pela Liga são recebidos pelos “meros mortais” e o que isto pode causar a eles.

Incomoda bastante o fato de o roteiro olhar esta luta dos heróis “contra” as pessoas — não eram protestos ou atos públicos legítimos, eram bandidos que estavam se aproveitando de uma situação de crise mundial para roubarem, destruírem, ameaçarem e matarem! — como algo que precisa ser revisado pelos heróis e que eles precisam pedir desculpas por isso. Das ideias heroicas expostas especialmente no começo e no final do volume, as que envolvem esta cena da ONU (exclusivamente o pedido de desculpas, porque o restante do pronunciamento é ótimo) não pareceram uma boa ideia do roteiro. A grande mensagem final, porém, permanece.

Essa mensagem quase se perde após o pronunciamento é verdade, mas nós entendemos as implicações dos limites morais e éticos que o texto abraça e daí para frente não demora para tomarmos o ponto de vista dos heróis e contemplarmos a fragilidade da vida e a necessidade que temos de buscar algum modelo heroico para nos ajudar em algum momento. De certa forma me lembrou a reflexão final do Surfista Prateado em Parábola, mas aqui, o enredo tem raízes, está bastante apegado à Terra, aos humanos… independente do que eles possam ser ou de como possam agir. É um nível de entrega e um chamado à reflexão que alcança ares divinos. A mensagem é bonita, mas se o leitor prestar muita atenção nela e na forma como é entregue, tenderá a ver o final de maneira um pouco mais dura, porque depois de tudo o que os heróis passaram, as linhas carregam uma boa parcela de ingenuidade e utopia. Isso não muda o fato de termos um excelente final de série e uma história capaz de nos fazer olhar a humanidade com olhos ainda mais receosos.

JLA: Liberty and Justice (EUA, 2003)
No Brasil: Panini, 2004
Roteiro: Paul Dini, Alex Ross
Arte: Alex Ross
Cores: Alex Ross
Letras: Todd Klein
Capa: Alex Ross
Editoria: Charles Kochman, Joey Cavalieri
96 páginas (encadernado da Panini)

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4 comentários

Rafael Lima 3 de novembro de 2017 - 15:24

Mais um grande trabalho da dupla Dini/Ross. De fato, esse aspecto do companheirismo entre os heróis citado por você é algo muito bem trabalhado através de pequenos detalhes pelo roteiro, algo que nem sempre aparece nas histórias regulares da equipe.

Gosto da questão que a história levanta sobre o delicado equilíbrio que existe entre os conceitos de ordem e liberdade, e que é muito fácil escorregar para qualquer um dos lados, prejudicando este equilíbrio, que pode gerar tanto caos quanto possíveis ações repressoras.

Gosto do protagonismo que a história dá ao Caçador de Marte, já que de todos ali, ele é o que possui olhar mais “estrangeiro”. A arte do Ross é linda como sempre, e concordo plenamente com a sua observação. Não é o tipo de arte que pode ser consumida no fluxo, e sim aquela que tem que se parar para contemplar o quadro.

Entretanto,, embora isoladamente “Liberdade e Justiça” seja ótima, acho que é uma história que empalidece diante do restante da série que Dini/Ross começaram com “Superman: Paz Na Terra”, e acaba soando um pouco redundante em alguns momentos, não trazendo nada que os outros volumes estrelados por Superman, Batman, Shazam e Mulher Maravilha já não tinham trazido. Mas isso é apenas um pecadilho dentro de uma excelente obra, que problematiza de forma delicada, mas ainda otimista o papel de “deuses” que a Liga da Justiça ocupa dentro do UDC.

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Luiz Santiago 3 de novembro de 2017 - 17:18

Chegamos no mesmo ponto aqui. A arte do Ross é o grandioso atrativo da história e tem aquela exigência que a gente adora, de ficar admirando as páginas. É uma obra e tanto. Por outro lado, o roteiro tem mesmo esse pecadilho. Embora eu (e penso que também você) se afaste do grupo de detratores da obra, dá para entender as críticas sim. De fato não há nada de muito novo. Mas a dinâmica, a arte e essa colocação da ingratidão das pessoas são coisas a se considerarem. Sem contar a discussão que dá pano pra manga, que é o discurso cheio de dedos na ONU.

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Rafael Lima 3 de novembro de 2017 - 18:20

Com certeza estou longe de ser um detrator da obra. Gosto muito da história. Só acho que dentro de proposta semelhante, a dupla Ross/Dini fez trabalhos mais “redondos” digamos assim.

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Luiz Santiago 3 de novembro de 2017 - 22:11

Concordo!

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