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Crítica | Lobo Samurai

por Ritter Fan
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Entre 1964, quando Hideo Gosha migrou da televisão para o cinema com a excelente adaptação cinematográfica de sua bem-sucedida série Três Samurais Fora da Lei, e 1970, quando ele retornou para a TV com um revival de sua criação, o diretor somente fugiu uma vez da temática de samurai/ronin, com Gohiki no shinshi, seu terceiro longa, um noir sobre gangsteres que pode ser visto como um ensaio de sua segunda fase como cineasta, desta vez focando em tramas envolvendo a Yakuza. No mesmo ano, porém, ele colocaria na lata nada menos do que três outros filmes de samurai, um deles o início de uma duologia conhecida por aqui como Lobo Samurai e que não tem relação alguma, além do animal no nome, com o posterior mangá Lobo Solitário, adaptado como uma série de filmes.

De certa maneira, seu modesto filme sobre um ronin errante que acaba ajudando um bela mulher cega, dona de um entreposto comercial ameaçado por um vilão cercado de minions mortais, é um elo perdido que bebe profundamente de Akira Kurosawa, especialmente da estrutura base de Yojimbo – O Guarda-Costas, mas também do western spaghetti de Sergio Leone e outros que, a partir de 1964, com Por Um Punhado de Dólares, começava a decolar de verdade. Em outras palavras, trata-se de um longa que curiosamente abraça sua origem nipônica, mas que ao mesmo tempo não tem vergonha alguma em trazer de volta ao Japão a versão ocidentalizada dos filmes de samurai, “reorientalizando-os”.

Essa fusão narrativa já fica evidente com a introdução do personagem-título vivido por Isao Natsuyagi, que se autodenomina, na verdade, de Lobo Furioso. Apesar de muito hábil com a espada, ele não carrega a aura de honra e respeito que vemos nos samurais errantes de Kurosawa, mas sim o estilo malandro, por vezes desagradável e sempre egoísta, da pegada de Leone, depois reiterada por Sergio Corbucci. Sua aceitação da missão de defender um carregamento valioso que significa a vida ou morte para o entreposto da jovem cega se dá por dinheiro e por um evidente desejo carnal que é reiterado pela forma como o ronin se conecta com a prostituta local. Outro elemento que muito claramente vem de fora do arquipélago é a trilha sonora de Toshiaki Tsushima que emula Ennio Morricone a tal ponto que por vezes o uso da gaita aguda e intrusiva parece vir direto do maestro italiano.

Interessantemente, porém, Natsuyagi consegue ser transformativo como o grande Toshiro Mifune, transitando habilmente entre o cínico egoísta, o espadachim animalístico e o homem que encontra seu norte e resgate um pouco de sua honra quando a poeira abaixa. O Lobo Furioso de Gosha é explosivo, invencível, dono de uma técnica de luta peculiar que mantém a espada quase o tempo todo na bainha, mas ele é sensível ao ponto de se preocupar com os empregados do entreposto, de lamentar as mortes que acontecem ao seu redor e ao se conectar com a bela cega.

O estilo do cineasta faz-se presente na forma como ele faz sua câmera se aproximar de seus personagens, especialmente durante os duelos, assim como algumas escolhas audiovisuais estranhas como o uso de muito silêncio, de frames pausados e do retorno abrupto do som, algo que é introduzido já nos segundos iniciais de projeção, ainda nos créditos. Chega a ser quase um experimento do diretor que larga um pouco a estrutura básica de um filme como esse e se preocupa mais com a estilização visual e com um roteiro de Kei Tasaka (com base em ideia de Gosha) que caminha quase que exclusivamente na base da reviravolta, mudando o status quo a cada 10 ou 15 minutos e criando aquela aura de que nada é o que parece.

Diria que a dependência desses artifícios é maior do que a realmente necessária para se contar a história pretendida e o longa sofre um pouco com essa âncora narrativa que dificulta um pouco a fluidez do longa. Digo apenas um pouco, pois, por outro lado, talvez Gosha estivesse perfeitamente ciente disso ao não permitir espaço para barrigas e trabalhando com uma duração mais do que econômica que se limita ao que o filme precisa para funcionar, sem firulas. Com isso, o diretor compensa o espectador que se incomodar com reviravoltas atrás de reviravoltas com agilidade que encadeia os acontecimentos sem dar muito tempo para que situações e personagens sejam estudados e desafiados pela lógica narrativa.

Lobo Samurai que, no melhor estilo da arte japonesa da produção a toque de caixa, ganhou continuação já no seguinte, é quase um “filme B” de samurai, um em que o estilo inconfundível e a economia de Hideo Gosha se fazem muito presentes e que parece preencher lacunas cinematográficas sessentistas na boa e velha retroalimentação entre oriente e ocidente na categoria de anti-heróis silenciosos e errantes fazendo o bem quase que sem querer. Definitivamente, um dos elos perdidos desse bem específico subgênero.

Lobo Samurai (Kiba Ôkaminosuke – Japão, 1966)
Direção: Hideo Gosha
Roteiro: Kei Tasaka (baseado em argumento de Hideo Gosha)
Elenco: Isao Natsuyagi, Ryôhei Uchida, Junko Miyazono, Tatsuo Endô, Junkichi Orimoto, Yoshirô Aoki, Takashi Tabata, Kyôichi Satô, Misako Tominaga
Duração: 75 min.

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