Crítica | Lobo Solitário – Vol.2: Uma Barreira Sem Portões

Existem narrativas que amadurecem com uma rapidez absolutamente impressionante. Lobo Solitário foi uma delas. Nos nove capítulos que formaram o arco O Caminho do Assassino, tivemos uma apresentação-base do personagem Itto Ogami, de seu filho Daigoro e acompanhamos crônicas que nos mostravam valores pessoais, métodos de ação e estilo de vida desse homem vítima de uma intriga organizada pela poderosa família Yagyu, perdendo sua posição como Executor oficial do xogum. Uma sólida e cativante apresentação.

Já nos quatro capítulos que compõem este Uma Barreira Sem Portões, percebemos que Kazuo Koike traz com gosto uma pesquisa histórica sobre os costumes japoneses do século XVII, expondo, por exemplo, a enorme quantidade de cargos e encargos do poder nos clãs e, principalmente, como o pensamento de um personagem como o Lobo poderia ser enriquecido por novas práticas e contato com novas ideias. Neste segundo volume da saga, vemos na prática como tudo isso é aplicado à história em geral, tanto para o protagonista quanto para Daigoro, e muitas vezes a força de tudo o que é mostrado está totalmente entregue à habilidade de um lápis…

…o lápis do fenomenal Goseki Kojima. Em todos os capítulos deste arco há um momento de pausa nos diálogos e o que temos são diversos quadros e páginas apenas com uma narrativa visual sendo apresentada. A maturidade rápida que citei no início de minha argumentação tem aqui um dos pontos mais fortes. E os autores ainda conseguem sustentar a beleza, o significado e a importância de elementos básicos das narrativas japonesas em poesia, prosa, kabuki ou artes plásticas em contos tão distintos como Atraindo o Gato Vermelho (do qual não gosto totalmente da maneira como termina, mas penso que tem um dos inícios mais brilhantes do volume), Kantourai – A Chegada do Inverno (acho este brilhante, exceto pela imensa improbabilidade da cena da avalanche, no final), Osue – O Drama de uma Criada (meu conto favorito do arco, de uma lindeza fraterna que dá grande destaque a Daigoro), Mumonzeki – Uma Barreira sem Portões (o mais poético, belo, teórico e religioso — ou místico — do volume) e por fim Tsuwabuki – A Flor do Inverno (uma história de vingança, perfeita para terminar o livro).

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Estrutura e ritmo de cenas criados com maestria.

Dando lugar à ação da natureza, com grande destaque para o inverno, os autores resgatam um item essencial das histórias de maturidade dos indivíduos na poesia japonesa. O inverno é o momento de reclusão, o que leva ao pensamento e à busca por novidades nesse espaço mais fechado em que se vive fugindo do frio, algo que fica muito claro no conto que dá título ao arco. E essas ideias são desenvolvidas aos poucos, sempre com algum valor cultural, físico ou espiritual que podemos atribuir ao protagonista ou a Daigoro, que como já disse, tem grande destaque aqui — inclusive lutando e resistindo a provações físicas! –, provando que filho de Lobo… Lobinho é.

Por mais que eu tenha tido pequenos problemas com a forma como Kazuo Koike finalizou dois capítulos aqui, não me é possível avaliar esse arco com uma nota menor que a máxima. O conceito geral apresentado, a travessia aliada a um aprendizado e histórias densas de infiltração em território inimigo, de confusão e de busca por fazer o certo segundo o código dos samurais acabam por engrandecer também o leitor. Eu já tinha ficado embasbacado com o primeiro volume dessa série e termino o segundo com um sentimento ainda mais profundo. O que Koike e Kojima fazem aqui é nos transportar para um tempo de adversidades, regras e misérias humanas que entendemos bem, mas que não imaginamos em um contexto de enfrentamento tão moralmente duro. Sem meias-palavras. Sem rodeios. Com a resolução dos casos na manutenção da honra ou na ponta da espada… E tudo isso numa estética de significados capazes de nos deixar existenciais. Um trabalho digno da fama e adoração que tem.

Lobo Solitário – Vol.2: Uma Barreira Sem Portões (Japão — série completa publicada entre setembro de 1970 e abril de 1976)
Capítulos:
10 a 14
No Brasil:
 Lobo Solitário – Edição 2 (Panini, abril, 2017)
Roteiro: Kazuo Koike
Arte: Goseki Kojima
308 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.