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Crítica | Locke & Key – 1ª Temporada

por Ritter Fan
276 views (a partir de agosto de 2020)

Baseada em excelente HQ homônima criada por Joe Hill e Gabriel Rodriguez (que, aliás, fazem brevíssimas pontas como paramédicos no último episódio), Locke & Key, desenvolvida por Carlton Cuse, Meredith Averill e Aron Eli Coleite para o Netflix, parte de uma ideia fascinante sobre chaves mágicas espalhadas em uma antiga mansão que são descobertas por três irmãos para desenvolver uma mitologia interessante em uma temporada que, porém, nem sempre acerta no alvo. Mesmo assim, considerando a estrutura de apenas 10 episódios com tamanho padrão e os ótimos efeitos especiais, a série consegue manter-se ágil por praticamente toda sua duração, com a introdução de mistérios de toda a ordem que, por incrível que pareça, são quase todos eles resolvidos ao longo da narrativa, por muito pouco não tornando a história totalmente auto-contida.

Essa qualidade – solucionar problemas que introduz – é sem dúvida um dos trunfos da temporada. Mesmo iniciando a narrativa com uma história “já começada” sobre uma família que se muda para a cidade de Matheson (Lovecraft nos quadrinhos) depois que o patriarca é assassinado por um jovem perturbado, a estrutura não rígida de flashbacks dá conta do recado ao costurar passado e presente primeiro a conta-gotas e, depois, de maneira mais ampla, inclusive com voltas breves no tempo para explicar situações estranhas. Há também um cuidado dos roteiros em manter o foco nos três irmãos da família Locke – Tyler (Connor Jessup), o mais velho; Kinsey (Emilia Jones), a do meio; e Bode (Jackson Robert Scott), o mais novo -, mas sem transformá-los nos únicos personagens da história, o que permite a abertura da narrativa para coadjuvantes como Joe Ridgeway (o veterano Steven Williams), o diretor da 11ª série da escola dos jovens, Ellie (Sherri Shaum) e Rufus Whedon (Coby Bird), respectivamente mãe e professora de educação física e seu filho autista que é o faz-tudo da mansão dos Lockes, a Keyhouse, o Esquadrão Savini, nerds viciados em filmes de horror que fazem amizade com Kinsey e assim por diante.

Por outro lado, alguns personagens em tese importantes só aparecem quando conveniente. Duncan Locke (Aaron Ashmore), tio dos adolescentes e guardião da mansão, é um desperdício de tempo de tela. Apesar de gostar de Ashmore, seu papel não tem muita razão de ser depois que ele apresenta a casa para sua cunhada e sobrinhos, já que ele fica mais tempo em Boston, completamente offscreen e, quando aparece em Matheson, fica restrito a um ou duas linhas de diálogo com apenas uma honrosa exceção mais para a frente. No entanto, o crime maior fica mesmo com Nina Locke (Darby Stanchfield), a matriarca. Ela é como um papel de parede bonito: dá vida ao ambiente, mas não tem qualquer outro objetivo do que ser apenas isso. Até mesmo quando seu vício é abordado, os roteiros tratam como “problema da semana”, ou seja, torna-se o tema de um episódio que, já no seguinte – puft! – desapareceu, o que é até um desserviço à doença em si, passando uma mensagem no mínimo equivocada, para não dizer completamente errada.

Pelo menos os irmãos Locke funcionam bem dentro do que se espera de uma série adolescente. Não há aquele tipo de conexão imediata que os garotos de Stranger Things evoca no público, mas a trinca de atores é suficientemente eficiente para trabalhar bem os papeis basicamente clichê que lhes foram entregues: o quase adulto perdido entre o que fazer da vida e a responsabilidade que precisa carregar, a bela adolescente rebelde e o inteligentíssimo garoto que, aliás, é o primeiro a encontrar as chaves. Considerando as limitações impostas, dentre elas uma espécie de simplificação do trauma sofrido com a morte de Rendell Locke (Bill Heck), provavelmente para tornar a série mais leve e palatável para um público maior (algo que a HQ simplesmente não é, ainda bem)

Mas o verdadeiro atrativo é mesmo a premissa fascinante da criação de Hill e Gonzalez. A existência de chaves misteriosas, cada uma capaz de algo incrível, desde abrir a cabeça das pessoas, passando por reconstrução de objetos, manipulação de sombras até alterações corporais, abre um leque grande de possibilidades que, fico feliz em atestar, o CGI maneja muito bem, diria até acima da média de séries semelhantes e sem aquele tipo de economia que o espectador percebe facilmente. Toda a mitologia por trás das chaves, das portas, da vilã Dodge (a brasileira Laysla De Oliveira) e da Key House como um todo é abordada com cenários variados que mostram muito carinho pelo material fonte (a casa é magnífica por dentro e por fora) e com um encadeamento de eventos que mantém a lógica interna intacta.

Não gostei muito, no entanto, da simplicidade do clímax, pois ele subestima a inteligência dos Lockes e, por tabela do espectador. E gostei muito menos do gigantesco epílogo de mais de 20 minutos que só existe para armar uma segunda temporada, ainda que conte com reviravoltas bacanas, mesmo que previsíveis, pois ele quebra a cadência narrativa completamente e poderia ter sido encaixado de maneira mais orgânica nos últimos dois episódios, pelo que espero que essa escolha equivocada gere dividendos extras em possível futura temporada.

Quem não gosta de “séries de adolescente”, algo que o canal de streaming tem em profusão, pode até virar o nariz para Locke & Key, mas isso seria um erro. Não é ainda uma obra desafiadora como Dark (e provavelmente nunca será) e pode não ter a magia nostálgica de Stranger Things (ainda que com a mesma qualidade narrativa), mas a adaptação da HQ de Joe Hill e Gabriel Rodriguez, mesmo com suas concessões para domá-la e torná-la mais universal, oferece diversão inteligente em um mundo mágico realmente fascinante.

Locke & Key – 1ª Temporada (EUA – 07 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Carlton Cuse, Meredith Averill, Aron Eli Coleite (baseado em HQ de Joe Hill e Gabriel Rodriguez)
Direção: Michael Morris, Tim Southam, Mark Tonderai-Hodges, Dawn Wilkinson, Vincenzo Natali
Roteiro: Joe Hill, Aron Eli Coleite, Liz Phang, Meredith Averill, Mackenzie Dohr, Andres Fischer-Centeno, Brett Treacy, Dan Woodward, Michael D. Fuller, Vanessa Rojas
Elenco: Darby Stanchfield, Connor Jessup, Emilia Jones, Jackson Robert Scott, Petrice Jones, Laysla De Oliveira, Griffin Gluck, Bill Heck, Aaron Ashmore, Sherri Saum, Thomas Mitchell Barnet, Kevin Alves, Genevieve Kang, Hallea Jones, Kolton Stewart, Asha Bromfield, Jesse Camacho, Eric Graise, Felix Mallard, Steven Williams, Coby Bird
Duração:

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29 comentários

Leandro M. 15 de abril de 2020 - 08:41

Na boa, tem cenas que não possuem uma coerência.
Como a cena em que Bode encontra a chave da coroa, pois se a chave era importante por qual motivo entregam para a Ellie levar para casa na qual todos sabem que o Lucas está lá com a droga da coroa, e nenhum deles contesta a decisão, tipo vc vai sozinha, ou vamos juntos, ou ainda a chave fica até vc voltar, sabendo que o Lucas possui a chave que muda aparência a molecada parece muito ingênua, o resultado poderia ser o mesmo mas de maneira mais inteligente.
Aquele Rufus sem química nenhuma com o Bode, a cena em que o Bode pega a espadinha de plástico rsrsrs meu Deus poderiam esperar até cair a ficha que a luz afeta as sombras.
Dá para ficar o dia todo lamentando da preguiça dos diretores e roteiristas em várias cenas, a cada episódio ficava com vergonha alheia de um trabalho executado em um nível bem baixo.
Os efeitos são legais o clima de suspense as vezes funciona, mas as decisões toscas que o roteiro manda decepciona um pouco a experiência.
Só terminei os 10 episódios com muito custo pq decidiram confirmar a segunda temporada.

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planocritico 16 de abril de 2020 - 13:19

Eu te entendo, mas confesso que, no geral, apesar de a série ter ficado aquém do que eu esperava, o resultado foi positivo. A pegada mais juvenil acabou levando a narrativa para essas armadilhas de roteiro com saídas fáceis, sem dúvida, mas tem muita coisa interessante ainda.

Abs,
Ritter.

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Diony Mattos 24 de março de 2020 - 00:08

Que roteiro ruim.

Os personagens são muito confusos. O irmão mais velho é bizarro. Uma hora ele é o protetor pra logo em seguida virar o sem noção.

A mãe é nula.

A série tem uma dificuldade imensa de criar senso de perigo para os.personagens.
Tramas adolescentes são legais, vide sex education, ou podem só atrapalhar, vide Sabrina. Essa série no momento “escola” é muito arrastada.

Só quando o menino aparece, que a série avança.

A ideia das chaves é muito legal, mas o roteiro arrastado e confuso, torna uma experiência enfadonha.

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planocritico 24 de março de 2020 - 02:23

Não achei tão ruim assim não. Mas, de fato, poderia ser muito melhor!

Abs,
Ritter.

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Gabriel Filipe 25 de fevereiro de 2020 - 19:19

Ritter, vcs do site, poderiam aumentar a fonte do site na versão pra celular? Pq a fonte atual é pequena e, por isso, fica cansativa

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Rudiéri Leal Schöenfeldt 24 de fevereiro de 2020 - 21:04

Muito ruim esse primeiro ano, misericórdia!

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planocritico 1 de março de 2020 - 20:24

Mas do que você não gostou?

Abs,
Ritter.

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Alessandro 23 de fevereiro de 2020 - 12:45

Eu não li a hq, Vi a primeira temporada da série e gostei. Achei que propositalmente se insere mais no terreno da fantasia do que no gênero do horror para atingir os adolescentes, o mesmo público alvo de “Strange Things”. Gostei do conceito das chaves mágicas, que é bem explorado. No entanto, achei que alguns episódios tiveram um ritmo irregular, principalmente devido ao núcleo do colégio, com situações que para mim foram desnecessárias. Sobre a personagem da mãe, achei que atriz foi eficiente e conseguiu passar bem as emoções contraditórias da personagem. Também gostei da atuação da atriz brasileira que faz a Dodge que para mim encontrou o tom certo da vilã, de modo a torna-la interessante.

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planocritico 12 de março de 2020 - 17:35

É uma boa temporada mesmo. O tom adolescente, apesar de ser mais, digamos, massificado, funcionou direitinho, talvez porque a mitologia seja realmente interessante e curiosa.

Abs,
Ritter.

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Mr White (Luis Mendes) 19 de fevereiro de 2020 - 01:18

As HQS são bem melhores. Ja tem nego idiota dizendo que é uma copia de Residencia Hill, sendo que a série de HQS veio muito antes, e é bem mais sombria que essa série amena. Dodge não passa nem na unha da ameaça Penniwiziana que é a Dodge das HQs, manipulando de forma extremamente meticulosa o tempo inteiro os irmãos, Kinsey e Tyller não tem o mesmo carisma dos personagens das HQS, deram uma importância pra NIna mas retiraram a parte mais tensa que é quando ela caiu pro alcool, muito rapido. E PTQP, NÃO TEM EXPLORAÇÃO DAS CHAVES, É TUDO APRESENTADO DE FORMA ANTISSENTIMENTAL. retiraram até a ameaça e o poder da chave mais destrutiva que é a chave das sombras…
12 ANOS de Varios estudios brigando e brigando pelos direitos pra terminar assim…
so o Bode salva.

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planocritico 19 de fevereiro de 2020 - 12:14

Tem gente dizendo que Locke & Key é cópia de Residência Hill? Só tem maluco mesmo… Agora vão dizer que essa série “inventou” a casa mal-assombrada, fora que NÃO TEM NADA A VER com Locke & Key…

Sobre seu ponto, sim, as HQs são melhores. Mas isso vale para 90% das adaptações de livros e HQs. O material fonte costuma ser melhor. No caso concreto, eu achei que a adaptação foi muito respeitosa e capturou a essência do original, mas universalizando a narrativa, o que é uma palavra bonita para “diluir a história”. Enfocaram na “série de adolescente” e tiraram o poder de algumas linhas narrativas, mas mesmo assim achei que o resultado final ficou muito bom.

Abs,
Ritter.

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Ramon Vitor 17 de fevereiro de 2020 - 15:23

Infelizmente esta série me fez ter vontade de agredir uma adolescente que sai por aí contando para todo mundo o que as chaves mágicas fazem e ainda deixa um e outro testarem por motivo nenhum.

Responder
planocritico 17 de fevereiro de 2020 - 15:27

Você precisa de terapia de controle de raiva…

HAHAHAAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHHA

Abs,
Ritter.

Responder
Érica Pazzi 16 de fevereiro de 2020 - 02:12

Eu me diverti assistindo mas lá no fundo queria que fosse bem mais sombrio estava torcendo que fosse muito mais próximo das HQs que são ótimas na minha opinião.
Acho que muito tempo da série foi dedicado aos adolescentes.
Eu senti um pouco de falta no drama psicólogo deles.
Mas algumas chaves realmente gostei bastante.
Quando percebi que não ia seguir a linha das HQs eu tentei assistir sem comparar muito e foi legal.
Tomara que tenha uma segunda temporada.

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planocritico 16 de fevereiro de 2020 - 03:38

Também queria que a série tivesse sido mais pesada e sombria como as HQs, mas é aquilo, não se pode ter tudo. Fiquei feliz o suficiente com um bom trabalho de adaptação e com uma qualidade geral acima da média.

Abs,
Ritter.

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Fórmula Finesse 15 de fevereiro de 2020 - 09:43

A história é boa mas achei tudo um pouco diluído (faltou mais magia) e vi preguiça no CGI do fogo – mania de fogo digital – do carro sendo lançado aos ares e no visual muito cartunesco dos efeitos da chave fantasma. Mas as interpretações são boas e a espinha dorsal da história tem muito potencial, eu só esperava um pouco de tensão e horror a mais pela graduação de idade permitida, algo mais sombrio vindo de Joe Hill.

Responder
planocritico 15 de fevereiro de 2020 - 19:34

Eu gostei do CGI, especialmente dos fantasmas. Mas, tendo lido as HQs, realmente queria, lá no fundo, algo mais sombrio e pesado. No final das contas, porém, ficou legal!

Abs,
Ritter.

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João Vitor 15 de fevereiro de 2020 - 00:59

Eu gostei bastante da historia e achei bem envolvente, mas em alguns momentos os personagens tomam atitudes burras e inconsistentes, tanto que coisas importantes só acontecem por causa dessas “burradas” dos personagens. Enquanto não sai a segunda temporada vou ler as hqs!

Responder
planocritico 15 de fevereiro de 2020 - 02:10

Leia mesmo as HQs! São sensacionais.

Abs,
Ritter.

Responder
Pablo Lucena 14 de fevereiro de 2020 - 22:55

Apesar da série ter sofrido certas “concessões para domá-la e torná-la mais universal” – o q pode ser uma pena – ainda devemos dar um voto de confiança e assisti-la e + ainda procurar ler o material original.
Parabéns pela crítica.

Responder
planocritico 15 de fevereiro de 2020 - 00:24

Sim, sem dúvida. O material original é realmente muito bom!

E obrigado!

Abs,
Ritter.

Responder
O Gambit dos x-men 14 de fevereiro de 2020 - 19:32

Cadê a crítica de Sonic?

Responder
planocritico 14 de fevereiro de 2020 - 20:02

Se tudo correr bem, teremos no domingo.

Abs,
Ritter.

Responder
paulo ricardo 14 de fevereiro de 2020 - 18:41

Quando vc falou série p adolescente , parei de ler , q pena ….

Responder
planocritico 14 de fevereiro de 2020 - 18:56

Não se deixe levar por preconceito. Tente ver!

Abs,
Ritter.

Responder
Lucas Casagrande 14 de fevereiro de 2020 - 17:35

É muito mas muito raro eu discordar de vc, aqui não é diferente, vc simplesmente descreveu tudo o que achei

Estou ansioso pela segunda temporada e vou procurar as HQ’s para ler

Responder
planocritico 14 de fevereiro de 2020 - 19:10

Que legal, Lucas!

Corra atrás das HQs, pois garanto que você vai adorar mais do que a série!

Abs,
Ritter.

Responder
Matheus Felipe 14 de fevereiro de 2020 - 16:33

Até agora tô gostando do que estou vendo, me lembra aquele clima de diversão em Perdidos No Espaço. Entretanto queria ver essa pegada de leveza descartada, algo mais dark parecido com que vi no Labirinto do Fauno, pois já temos derivadas do estilo Stranger Things d+.

Obs : Protagonista com nome Bode, só me faz chamá-lo com a pronúncia brasileira do animal.

Responder
planocritico 14 de fevereiro de 2020 - 16:33

Bode é um nome estranho inclusive nos EUA.

E a comparação com Perdidos no Espaço procede. Não espere ficar mais “sombrio” do que isso, pois esse lado da HQ foi extirpado, digamos assim.

Abs,
Ritter.

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