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Crítica | Locke & Key – 2ª Temporada

A chave de uma mitologia em expansão.

por Ritter Fan
3.541 views (a partir de agosto de 2020)

É muito bom constatar a franca evolução de uma série que, no lugar de cometer os mesmos erros, os corrige, aprimorando sua abordagem geral, mesmo que acabe cometendo novos erros. Mas amadurecer é cometer erros, faz parte do processo e Locke & Key parece definitivamente ter encontrado seu chão em sua 2ª temporada, conseguindo superar a já muito boa temporada inaugural que nos apresenta a uma fascinante e razoavelmente complexa mitologia com base nos quadrinhos homônimos de Joe Hill e Gabriel Rodriguez em uma mansão na cidade de Matheson contém diversas chaves mágicas, cada uma com uma função específica como permitir que se literalmente entre na cabeça de uma pessoa, que são utilizadas pela trinca adolescente que lá mora para lutar contra o mal.

Mas não se assustem aqueles que porventura têm preconceito de “série de adolescente”, pois seria muito mais justo classificar Locke & Key como uma série adulta de fantasia que é protagonizada por adolescentes. É inclusive importante notar que, em seu segundo ano – com o terceiro já encomendado -, há uma pegada mais sombria e violenta em toda a narrativa, de certa maneira aproximando-a do conteúdo dos quadrinhos, que não poupa sanguinolência, ainda que nunca de maneira meramente gratuita ou descerebrada. Há, diria, uma troca feita pelos showrunners, já que a novidade da premissa da série já se foi e eles introduzem essa abordagem mais pesada – que não é tão pesada assim, só para constar – como uma forma de compensar.

Em linhas gerais, a temporada gira em torno da arte de se fabricar as misteriosas chaves feitas com Metal Sussurrante, que nada mais é do que o que permanece de palpável dos “tiros de demônios” no portal para outra dimensão que existe no desfiladeiro de Key House, onde moram os Lockes. A vilã Dodge, que, ao final da temporada anterior, deixa sua forma feminina vivida por Laysla De Oliveira (que aparece apenas em breves pontas aqui), e adota a de Gabe (Griffin Gluck), iniciando um relacionamento com Kinsey Locke (Emilia Jones), deseja, com a ajuda da agora possuída Eden Hawkins (Hallea Jones), forjar uma chave que o permita criar um exército de demônios ocupando corpos humanos que obedeçam apenas seus comandos.

O que realmente funciona é que as identidades secretas de Gabe e de Eden são mantidas por muito tempo na temporada, evitando aqueles artifícios bobos típicos de cliffhangers, que são resolvidos nos primeiros minutos do primeiro episódio da temporada seguinte. Há uma bem-vinda queima lenta neste aspecto que não só tem a função de enervar e desesperar o espectador com o desenvolvimento do plano do “Eco Gabe”, que é decididamente complicado demais, mas que se conecta com sua relação amorosa com Kinsey, como abre espaço para que novos personagens sejam incorporados à história e para que arcos de personagens da primeira temporada sejam encerrados, sem que nada seja realmente esquecido, verdadeira raridade, diga-se de passagem.

O mais relevante novo personagem é o professor de história Josh Bennet (Brendan Hines) que se muda para Matheson depois da morte de sua esposa, o que, somado à sua obsessão por seu antepassado Casaca Vermelha Frederick Gideon (Kevin Durand), o aproxima de Nina Locke (Darby Stanchfield). Igualmente, sua filha Jamie (Liyou Abere), estabelece conexão imediata com Bode Locke (Jackson Robert Scott) que lhe revela tudo sobre as chaves e demõnios. A introdução dessa dupla de personagens é aparentemente mais importante, em termos narrativos, para o futuro da série, já que, ao final, Gideon torna-se o novo grande vilão, em uma bela sacudida de status quo, mas, ao mesmo tempo, isso acaba abrindo espaço para que Nina ganhe mais relevância, inclusive sem que seu alcoolismo seja esquecido, com Bode não ficando muito atrás, especialmente quando ele e Jamie passam a manipular o modelo da Key House que Josh tem e que permite excelentes momentos do tipo “querida, encolhi as crianças” que são organicamente utilizados na trama.

Outra boa mudança na série é a transformação de Duncan Locke (Aaron Ashmore), de um mero extra que aparece quando conveniente, em um coadjuvante realmente relevante, já que fica estabelecido, ao longo do desenvolvimento da história, que ele é o único da família Locke atual que sabe forjar uma chave de Metal Sussurrante, o que obviamente o conecta diretamente com os objetivos escusos de Gabe. Confesso que não gosto como a sexualidade do personagem é abordada no início da temporada, pois seu noivo Brian (Milton Barnes) é imediatamente defenestrado com a invenção de uma oportunidade de trabalho no Japão, retirando-lhe completamente da série e apagando essa representatividade da temporada. No entanto, o foco no “Tio Dunc” é ótimo, inclusive conectando sua amnésia fabricada por seu irmão e amigos não só com o retorno de Erin Voss (Joy Tanner) de sua catatonia de décadas, como também com a vindoura perda de memória de Tyler Locke (Connor Jessup) com seu aniversário de 18 anos e que ele vê manifestada primeiro em sua namorada Jackie (Genevieve Kang).

Em outras palavras, há uma construção dramática bastante madura na série que não suaviza os acontecimentos, ceifando vidas relevantes fora do círculo imediato da família Locke, como é o caso do violento assassinato de Erin por Gabe, e, talvez mais chocante ainda, a morte de Jackie mesmo depois de Tyler fazer o esforço hercúleo de forjar uma chave para reverter as possessões causadas por Gabe, o que inclusive cria uma esperança e uma expectativa de que “tudo vai acabar bem”. Claro que há problemas que reputo como inevitáveis em razão da quantidade de personagens. Os Savinis são convertidos em meros extras que parecem existir apenas para criar um círculo de amigos para os Lockes fora da família, mas cuja importância para a trama é nula. E isso acaba afetando o desenvolvimento do simpático Scot Cavendish (Petrice Jones), que tem um arco que não realmente se conecta com o restante, o que acaba deixando-o na incômoda fronteira que separa a relevância da irrelevância.

Em termos de chaves novas, há uma clara economia no uso desses artifícios, já que as chaves que convertem e desconvertem humanos em demônios são de uso discreto, por assim, o que deixa apenas a chave que manipula a maquete da casa com destaque (e até uma pena que ela não é mais usada), além da que dá asas para Kinsey e que é introduzida na base do “porque sim”, ainda que seja bem usada na batalha climática. Com isso, a computação gráfica é reduzida a um mínimo eficiente, com raros usos espalhafatosos e estridentes, o que sem dúvida é uma boa notícia, permitindo que o foco permaneça mesmo no que importa, ou seja, na história e nos personagens.

O segundo ano de Locke & Key é maduro, bem trabalhado e expande a mitologia da série sem perder o controle sobre ela e sempre tentando – e conseguindo – evitar mistérios que não são solucionados e encerrando todos os arcos narrativos possíveis, quase como se a temporada fosse a última da série (essa, aliás, deveria ser a regra em séries). O final traz uma novidade importante, que é o novo Eco Frederick Gideon, que parece ter uma conexão forte com o portal cavernoso, já que foi ele quem originalmente o abriu. Será interessante ver que tipo de aventuras um personagem do século XVIII será capaz de destrancar de forma a acrescentar à sempre expansiva história dos Lockes.

Locke & Key – 2ª Temporada (EUA – 22 de outubro de 2021)
Desenvolvimento: Carlton Cuse, Meredith Averill, Aron Eli Coleite (baseado em HQ de Joe Hill e Gabriel Rodriguez)
Direção: Mark Tonderai, Mairzee Almas, Carlton Cuse, Millicent Shelton
Roteiro: Meredith Averill, Carlton Cuse, Liz Phang, Mackenzie Dohr, Vanessa Rojas, Meredith Averill, Kimi Howl Lee, Michael D. Fuller, Jordan Riggs
Elenco: Darby Stanchfield, Connor Jessup, Emilia Jones, Jackson Robert Scott, Petrice Jones, Aaron Ashmore, Griffin Gluck, Hallea Jones, Laysla De Oliveira, Brendan Hines, Kevin Alves, Genevieve Kang, Joy Tanner, Coby Bird, Kevin Durand, Liyou Abere, Milton Barnes
Duração: 487 min. (10 episódios)

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