Crítica | Locke & Key – Vol. 1: Bem-Vindo a Lovecraft

Joseph Hillström King, filho do meio de ninguém menos do que Stephen King, decidiu ingressar na vida literária sem depender diretamente do sucesso do pai, adotando o nom de plume Joe Hill em 1997. Tendo sua identidade secreta revelada em 2007, mesmo ano que publicou seu primeiro romance, Hill manteve o nome que escolheu e, ato contínuo, expandiu suas atividades para os quadrinhos logo no ano seguinte, lançando a primeira edição de Locke & Key em fevereiro de 2008, alcançando imediato sucesso.

E o sucesso foi mesmo merecido, já que, muito diferente de HQs comuns, que correm para entregar ao leitor uma recompensa muitas vezes sacrificando qualidade no processo, Hill decidiu trilhar o caminho mais difícil e contar uma história de queima lenta. Ao final de Bem-Vindo a Lovecraft, o primeiro volume da série composto por seis edições, a impressão que fica é que tudo não passou de um prólogo, de uma introdução a um fascinante universo que é apenas vislumbrado aqui.

Mas não se enganem. Quando digo “prólogo”, não quero de forma alguma rebaixar a obra ou afirmar que pouco ou nada acontece. Muito ao contrário, Hill mostra imediato gabarito para atiçar a curiosidade do leitor começando sua narrativa pelo brutal assassinato de Rendell Locke, pai de família, no que parece ser um assalto cometido por dois particularmente violentos adolescentes. Mas nada é o que parece ser em Locke & Key e Hill, usando narrativa não-linear, vai e volta no tempo para contar os detalhes do que aconteceu e para abordar as consequências da morte de Rendell para seus filhos Tyler, Kinsey e Bode, além de sua esposa, que acabam tendo que retornar para a mansão da família Locke, na cidade fictícia de Lovecraft, em uma ilha na costa de Massachusetts.

Tyler, o filho mais velho e de aparência física mais próxima do pai, debate-se sobre seu papel no assassinato e toda a culpa que sente pelo ocorrido. Kinsey, a filha do meio de personalidade forte, tenta tornar-se invisível em seu novo lar para justamente não ter que falar sobre seu passado. O pequeno Bode, por sua vez, é o primeiro a notar que a Keyhouse (ou Casa da Chave, em tradução direta, o que faz dobradinha com o nome Locke, já que “lock” significa tranca, daí o nome da HQ), nome que a mansão dos Locke tem, não é um lugar comum e que há chaves e portas muito especiais por ali que ele começa a destrancar com toda sua curiosidade de criança inocente. E, finalmente, há a matriarca que, apesar de ter razoavelmente pouco destaque nesse primeiro volume, carrega nos ombros a responsabilidade – quase paranoia – de proteger seus filhos de mais tragédia, o que cobra um alto preço físico e psicológico dela.

Mas o núcleo familiar e a forma como seus membros lidam com a dor da perda e com o trauma da violência não são os únicos enfoques de Joe Hill. Ao contrário, ele emprega um bom número de páginas para lidar com Sam Lesser, o assassino de Rendell. Preso na Costa Oeste, onde os Locke moravam, o criminoso se mostra peça-chave na narrativa e com uma conexão muito maior com a família do que é possível entrever no início da história. A cadência da narrativa de Hill é particularmente cirúrgica nesse lado da história, já que os acontecimentos com Lesser vão sendo conectados – passado e presente – com o que vemos desenrolar na Keyhouse, especialmente no que se refere às descobertas de Bode sobre as chaves e as trancas e, principalmente, sobre uma misteriosa entidade que reside em um poço proibido nos fundos da mansão. Claro que os contornos lovecraftianos de Locke & Key, que não são surpresa alguma, obviamente, vão sendo aos poucos intensificados e costurados aos conceitos estabelecidos pelo autor.

Em termos de construção de mundo, portanto, Bem-Vindo a Lovecraft é uma aula de narrativa. Joe Hill trata a HQ como um romance – mas entendendo e respeitando perfeitamente bem as características próprias de cada mídia – e costura uma história sólida, rica, extremamente violenta e repleta de surpresas muito interessantes que estabelecem um universo próprio e com ótima lógica interna. Há apenas uma conveniência de roteiro, envolvendo a forma como Bode encontra uma chave ao final, que não funciona de verdade e retira o leitor desse mergulho mágico por alguns momentos.

A arte de Gabriel Rodriguez, que estabeleceu prolífica parceria com Hill desde o início, é um achado, já que o desenhista consegue trabalhar com a mesma eficiência o mundano e o sobrenatural, especialmente quando suas amarras são soltas na Keyhouse, uma belíssima, mas assustador mansão gótica que tem todos os predicados clássicos da “casa mal-assombrada”. Seu domínio sobre a progressão narrativa é excelente mesmo diante das exigências de Hill com seu vai-e-vem temporal que é tão integral à trama quanto a mansão. O único senão é a tendência do artista em trabalhar as feições de seus personagens de acordo com suas características psicológicas, o que faz, por exemplo, com que Sam Lesser seja feio e os membros da família Locke bonitos, em um maniqueísmo que, pelo menos aqui, nesse volume, era desnecessário.

Bem-Vindo a Lovecraft é um delicioso aperitivo que afeta e envolve completamente o palato de quem o digere, aguçando a curiosidade sobre os pratos que serão servidos a seguir. Um incrível começo de história e um mais incrível ainda começo de carreira nos quadrinhos de um autor que definitivamente tem voz própria e não precisa do nome do pai para fincar-se nas artes.

Locke & Key – Vol. 1: Bem-Vindo a Lovecraft (Locke & Key – Vol. 1: Welcome to Lovecraft, EUA – 2008)
Contendo: Locke & Key: Welcome to Lovecraft #1 a 6
Roteiro: Joe Hill
Arte: Gabriel Rodriguez
Cores: Jay Fotos
Letras: Robbie Robbins
Editoria: Chris Ryall, Justin Eisinger
Editora original: IDW Publishing
Data original de publicação: fevereiro a julho de 2008
Editora no Brasil: Novo Século
Data de publicação no Brasil: outubro de 2017 (encadernado)
Páginas: 168

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.