Crítica | Locke & Key – Vol. 4: Chaves do Reino

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Com a mitologia de Locke & Key bem estabelecida ao longo dos três volumes anteriores e com todas as peças devidamente colocadas no tabuleiro, Joe Hill e Gabriel Rodriguez puderam se dar ao luxo de experimentar em Chaves do Reino. No lugar de um arco estruturado de maneira clássica, os criadores escolheram contar essa parte da história com o que pode ser essencialmente classificado como quatro one-shots e um capítulo duplo final que, porém, não dispersam a atenção do leitor em momento algum. Se alguma coisa, a curiosidade só aumenta de edição a edição.

E que tipo de experimentação eles fizeram além de quebrar o arco narrativo em pequenos pedaços? A resposta é múltipla, pois os dois resolveram realmente soltar os freios da criatividade (mais ainda) começando com uma absolutamente adorável edição dedicada a Bill Watterson, o brilhante quadrinista criador de Calvin e Haroldo, uma das melhores tiras em quadrinhos da história da Nona Arte (e quem discordar está errado), com direito à imitação, por Rodriguez, do inconfundível estilo do desenho do roteirista/artista aposentado. Nela, Bode descobre uma chave que o transforma em seu animal totêmico que, no caso, é um pequeno pardal, tendo que enfrentar Dodge que, não muito surpreendentemente, transforma-se em um lobo em um confronto inesquecível e mortal. Em seguida, a dupla dedica uma edição inteira para introduzir Erin Voss na mitologia, uma das amigas de Rendell que, hoje, está internada em um sanatório. Mas essa introdução é utilizada como veículo para a abordagem do preconceito racial, já que Bode e Kinsey usam uma chave que permite a mudança de etnia para tornarem-se negros, o que automaticamente os torna indesejáveis nos olhos de muitos.

Como se isso não bastasse, a edição seguinte acompanha dia-a-dia um mês inteiro na vida dos Lockes e, finalmente, na quarta edição experimental, temos uma abordagem a partir da imaginação fértil de Bode e Rufus e seus brinquedos de guerra. Mas o mais importante dessa brincadeira toda que Hill e Rodriguez fazem é que eles simplesmente não se perdem e não escrevem algo que pode ser classificado como filler ou desimportante para o épico que contam. Cada uma das edições aparentemente soltas – e que, no agregado, introduzem diversas novas chaves – tem relevância para o todo e funcionam efetivamente como um arco completo, mesmo não tendo essa estrutura sob o ponto de vista técnico. E é por isso que mencionei que o leitor tem sua curiosidade potencialmente amplificada aqui, já que cada novo número é algo inteiramente diferente, mas sempre dentro da história macro.

As duas edições finais, no entanto, voltam para o padrão usual da série e alteram completamente o status quo dos personagens ao final, deixando, pela primeira vez, um cliffhanger de arrepiar os cabelos. Chega até mesmo a ser vertiginosa a velocidade com que tudo acontece nesses dois números, mas tudo é muito bem encaixado e lógico dentro da estrutura maior. Arriscaria dizer até mesmo que os autores conseguem efetivamente “recomeçar” a história tamanhas são as alterações feitas no encerramento de Chaves do Reino e que preparam os dois arcos finais de Locke & Key. Algo realmente corajoso e inesperado, tenho para mim.

No entanto, o volume não é exatamente perfeito como o anterior. Para desmascarar Dodge, Hill recorre primeiro a uma conveniência de momento e, segundo, a textos expositivos. Trata-se do momento em que descobrimos que Rufus consegue ver e ouvir o fantasma de Sam Lesser que, agora, voltou-se para o lado do bem e decide aproveitar a oportunidade para contar tudo sobre Dodge. E, por tudo, leia-se cada detalhe do vilão, algo que o próprio Sam não deveria conhecer. Foi um momento fora da curva na qualidade costumeira do texto de Hill, que acaba pecando logo em um momento chave (sem trocadilho!) para a história.

Mesmo com essa escorregada, Locke & Key permanece de altíssima qualidade em seu quarto arco. Com o novo status quo tanto para Dodge quanto para Bode, simplesmente tudo pode acontecer nos volumes finais.

Locke & Key – Vol. 4: Chaves do Reino (Locke & Key – Vol. 4: Keys to the Kingdom, EUA – 2010/11)
Contendo: Locke & Key: Keys to the Kingdom #1 a 6
Roteiro: Joe Hill
Arte: Gabriel Rodriguez
Cores: Jay Fotos
Letras: Robbie Robbins
Editoria: Chris Ryall, Justin Eisinger
Editora original: IDW Publishing
Data original de publicação: agosto de 2010 a abril de 2011
Páginas: 152

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.