Crítica | Loja de Unicórnios

“Você acha que eu sou bonita o suficiente para ser assediada sexualmente?”

Uma ambiguidade em Loja de Unicórnios, que torna o espectador averso ao conjunto, mesmo tentando, desesperadamente, conquistar o seu interesse e carinho, é o maior problema que a obra carrega, um caso típico de um produto cinematográfico tão millennial. Quem estiver passando pelos mesmos confrontos que a protagonista, vendo-se criança em um mundo tão adulto, poderá encontrar os paralelos que o longa em si não se preocupa em construir. Mas a verdade é que parece que Brie Larson – tanto protagonista quanto a diretora do seu primeiro longa-metragem – está, o tempo inteiro, curiosamente, zombando de si mesma. Teoricamente, ela estaria zombando dos seus problemas, o que não é verdade. Essa é uma fantasia que já fracassa em ser verdadeira.

O projeto em questão, para princípio de conversa, traja uns tons consideravelmente fantásticos, a começar pelos seus segundos iniciais, mais coloridos, que são vistos mais como paródicos que apreciáveis, instigantes ou curiosos. Essa paródia sem intenção em ser, acabará influenciando o relacionamento entre o público e a jornada da própria protagonista, seus trejeitos animados e seu comportamento imaturo em relação ao mundo. Encaminhamo-nos, portanto, à jornada de uma garota cheia de criatividade em seu passado e que opta por ser uma artista. Em consequência a um tropeço na caminhada em questão – apresentado sem a menor sinceridade -, a saudosa criatividade e as maravilhas anteriores podem continuar sendo constantes ao presente e ao futuro?

Entretanto, Kit, como introduz sempre com maniqueísmos Loja de Unicórnios, é uma mulher que fracassou em sua carreira artística anteriormente – uma piada mostra uma avaliação de suas obras como pobres – e se sente perdida no mundo. Termina recebendo, no entanto, misteriosamente, uma chance única de conseguir um unicórnio, ou seja, uma metáfora para persistir em seus sonhos, encontrar uma alegria mesmo no fracasso. Sonhos podem parecer coisa de criança para os céticos – sempre vendo com olhos menos infantis os impasses de Kit, que vão desde a um emprego em uma empresa de aspirador de pó, a um caso de assédio sexual que a personagem nunca percebe. Uma pena o roteiro, querendo um viés “espertinho” até,  ser tão pouco imaginativo.

Meandros na execução mostram que o comando de Brie Larson também não é competente. Piora um roteiro já abarrotado de temáticas subjacentes sucateadas, sem qualquer ideia mais arejada de desenvolvimento, para que uma visão universal conciliatória – também mentirosa – surja, encerrando os confrontos. E minimiza-se, paralelamente, um texto que progride, insistentemente, com as piadas mais simples. Por exemplo, uma cena coloca, pretendendo encontrar graça nas ideias mais óbvias possíveis, os pais da garota gritando que gritar não é solução. Enquanto isso, Brie Larson continua sorrindo, querendo encontrar o seu lugar no mundo, mas tão perdida quanto a direção e a ideia que a cineasta possui para essa contraposição entre um misticismo e a realidade.

O comando é quase amador. Contrariada por outras pessoas, ainda no início do enredo, a personagem se vê escanteada pelos seus pais, que preferem um conhecido a ela – um dos pontos que não vão para frente. “Volto em cinco minutos”, grita Kit, apenas para que um corte a mostre deitada em sua cama, sofrendo um sofrimento que não nos importamos, pois é tudo passado com a maior irreverência, sem muito tom. Uma montagem, com cena da personagem explorando suas coisas, seus itens pessoais, exemplifica a perdição que reside no conteúdo dessas imagens, pouco significativas para um arco real de personagem se construir. Os pais da protagonista, por sinal, parecem ter saído de Desventuras em Série.  Curiosamente, Joan Cusack participou deste seriado.

Em outra instância, mais polêmica, o casting de Samuel L. Jackson é simplesmente um cúmulo. O próprio personagem que interpreta está inserido numa ótica em que a paródia se confunde com o fantástico, parecendo uma brincadeira mesmo, mas de péssimo gosto – vide “Negro Mágico”, citado em uma coluna sobre estereótipos raciais. Larson está no meio dos milennials. Quiçá sacaram o mundo, mas sempre com ressalvas, sem saber realmente se comunicar e tornar-se sério, criar algo com essa verdade. E depois, para concluir a palhaçada, quer encontrar alguma redenção para a garota branca sem apresentar nada, apenas mantendo a mesma ingenuidade de outrora. Tão inocente que é “inocentemente” preconceituosa com Virgil (Mamoudou Athie). Pôneis?

Loja de Unicórnios (Unicorn Store) – EUA, 2017
Direção: Brie Larson
Roteiro: Samantha McIntyre
Elenco: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Joan Cusack, Bradley Whitford, Mamoudou Athie, Hamish Linklater, Martha MacIsaac, Karan Soni, Annaleigh Ashford
Duração: 92 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.