Crítica | Longa Jornada Noite Adentro (2018)

Pouco mudou desde Kaili Blues, estreia de Bi Gan no cinema chinês. Tanto aqui quanto no seu primeiro filme há uma porção de características em comum: planos sequências, a atmosfera onírica, a busca de uma memória que perpetua num lugar distante entre o passado e o futuro, até mesmo a cidade onde as duas histórias se passam é a mesma. Bi Gan certamente segue à risca as tendências do cinema asiático, tanto que em Kaili Blues sua marca autoral é quase que irreconhecível entre tantas referências diretas às obras de Tsai Ming-Liang ou Apichatpong Weerasethakul, tornando seu lançamento no cenário chinês algo extremamente derivativo, mas cativante aos públicos de festival.

As intenções de seu novo filme continuam as mesmas, tratar do tempo e da memória numa narrativa elástica e desconexa enquanto molda os minutos de acordo com uma percepção transcendental à própria duração. Sua visão da arte segue sendo contemplativa, deslocada, uma tapeçaria de Greatest Hits do cinema oriental. O que faz então Longa Jornada Noite Adentro ser um filme superior ao seu antecessor mesmo seguindo precisamente sua cartilha? Em primeiro ponto, Bi Gan surge com a necessidade de uma inovação técnica que acaba interferindo na maneira que o filme é contado. O diretor teve como ponto de partida o uso de 3D nas filmagens, mas preferiu usá-lo apenas na metade final do filme, um plano sequência de cinquenta minutos. Pretensiosidade, é claro, mas o cineasta teve a necessidade de separar sua história em duas partes, diametralmente opostas, expondo uma quebra narrativa eficiente dividida entre a preparação de terreno, apresentando Luo Hongwu voltando à cidade natal e reencontrando pessoas que haviam deixado sua vida, e a segunda metade que nada mais é que um sonho filmado em um plano sequência de quase uma hora.

A tragédia de um criminoso que retorna a seu berço para reencontrar a mulher que amou, sua cidade num estado completamente diferente, um lugar estranho tanto ao protagonista quanto para nós. A primeira parte do filme pode ser vista como desinteressante, mas é necessária, pois todos os elementos nela apresentados retornarão durante o sonho de maneira tanto elucidativa quanto desconcertante. De qualquer forma, é uma hora resumida no cinema de relacionamentos de Wong Kar-Wai, mas de maneira mais amadora e sem paixão. Retoma uma discussão interessante sobre os efeitos do progresso chinês e como ela afeta um suposto cinema de afetos, mas não há muito espaço para lamúrias aqui, cinema noir aplicado à lógica do Béla Tarr.

Mas é quando o protagonista cai no sono em um cinema que o filme finalmente fica bom. Após mais de uma hora finalmente o título do filme é apresentado, e a sequência em 3D começa. Interessantíssimo o apelo de um cinema arthouse praticamente como parque de diversões para o autor, muito do que é filmado tem uma abordagem deslumbrada do funcionamento da tecnologia 3D no tocante da obra, os jogos de luzes e profundidade te deslocam o tempo inteiro, e a câmera contínua só faz prevalecer esse jogo de estranhezas. Por situar-se num sonho, muitos dos interesses de Bi Gan são os de reutilizar imagens recorrentes da primeira metade nesse modo de operação destoante enquanto o protagonista batalha para encontrar o significado de sua busca por um amor antigo. Um jogo hipnótico preservado em rotações temporais, indo e voltando o tempo todo dentro do próprio espaço e tempo. A incongruência de sentidos trazendo novas organizações o tempo todo é ideal para a réplica de um sonho, ainda mais num filme supostamente sério que se diverte tanto, decifrando um enigma como quem estivesse numa gincana de escola, o plano sequência inaugura uma lógica de videogame na linha narrativa de maneira extremamente cativante.

Sufocado por uma primeira metade menos cativante porém necessária, Longa Jornada Noite Adentro tem grandes momentos nesse jogo de simbolismos cujo mote é o controle do tempo e memória. Não há nada de poesia num filme cuja vontade é brincar com as liberdades estabelecidas após uma hora de repressão imposta, seus melhores momentos são justamente os de emancipação do cineasta. No meio de tanta necessidade por replicar o melhor do cinema asiático, Bi Gan encontra momentos de descontração, e só pode ser feliz quando filmou dois amantes finalmente encontrando-se e beijando-se dentro de um sonho.

Longa Jornada Noite Adentro (地球最后的夜晚) – China, 2018
Direção: Bi Gan
Roteiro: Bi Gan
Elenco: Huang Jue, Tang Wei, Sylvia Chang, Lee Hong Chi, Chen Yongzhong, Li Meng, Zeng Meihuizi
Duração: 130 mins.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.