Crítica | Longe do Vietnã

A grande maioria das construções críticas de Longe do Vietnã são desenvolvidas por meio de um recurso extremamente utilizado no cinema contemporâneo: o found footage. Nesse micro-gênero experimental, o discurso está presente na ressignificação de imagens de arquivo. Aqui, os diretores apresentam seus pontos de vista, também, por meio de uma narração em off constante, permeando quase toda a película - recurso que, por várias vezes, dá à obra um caráter mais historiográfico do que analista. Plano Crítico.

A década de 1960 foi um período turbulento da história da humanidade. Cresciam as tensões entre as potências mundiais, EUA e URSS, e grandes conflitos armados se iniciaram ao redor do mundo. As nações mais importantes do planeta encontravam-se em contextos políticos delicados e as massas reagem contra tiranos governos que haviam instaurado regimes tiranos em seus países. Desde a França até o Brasil, ocorriam importantes revoltas civis-populares que desafiavam a ordem vigente.

Dentro de uma lógica de desobediência de duvidosas regras normativas, insurgem nos quatro cantos do mundo movimentos cinematográficos dispostos a quebrar com paradigmas impostos pela indústria hollywoodiana. Batizados de nouvelle vague (“nova onda”), estas novas propostas estéticas ganharam força e popularidade. Na Ásia, a nouvelle vague japonesa marcou época com Toshio Matsumoto; Djibril Diop Mambéty marcou o cinema senegalês com seus inovadores filmes; já no Brasil, o cinema novo, capitaneado por Glauber Rocha, representa uma fundamental luta política de classes sociais no país tupiniquim. Contudo, a França é onde reuniram-se os membros mais famosos das nouvelle vague: Jean-Luc Godard, Agnès Varda, Alain Resnais e François Truffaut.

A partir de meados dos anos 60 os dois primeiros diretores franceses se voltaram para uma outra forma de crítica. Além de contrapor os paradigmas de Hollywood, inflamados pela conjuntura social pré-maio de 68, os realizadores passaram a adotar uma postura mais politizada em suas películas. Na companhia de Chris Marker, virtuoso documentarista, Godard e Varda voltam suas energias para produções de forte cunho político, tendo como principal referencial as ideias políticas de esquerda – utilizando-se da filosofia maoísta e marxista. 

Dentro dessa nova tendência, algumas obras acabam se sobressaindo, sendo de caráter documental ou não. Volta-se aos anos 1950 para apresentar Noite e Neblina e Guernica, ambos assinados por Resnais, para entender um dos aspectos estudados na fase política da nouvelle vague francesa: a denúncia de crimes de guerra. Ainda, retornando à década de 1960, Varda realiza o excepcional Black Panthers, enquanto Godard deixa sua marca com A Chinesa e Weekend à francesa

O filme aqui em questão, Longe do Vietnã, é construído a partir de diferentes visões de diferentes diretores a respeito da brutal Guerra do Vietnã. Cada um dos diretores resolve abordar um aspecto referente ao conflito. Enquanto, em um trecho, são apresentados os horrores que ocorriam no Vietnã, do outro lado é apresentada a sociedade estadunidense e as consequências sociais da batalha.

A grande maioria das construções críticas de Longe do Vietnã são desenvolvidas por meio de um recurso extremamente utilizado no cinema contemporâneo: o found footage. Nesse micro-gênero experimental, o discurso está presente na ressignificação de imagens de arquivo. Aqui, os diretores apresentam seus pontos de vista, também, por meio de uma narração em off constante, permeando quase toda a película – recurso que, por várias vezes, dá à obra um caráter mais historiográfico do que analista.

Mesmo com sete visões e focalizações distintas, o filme preza por uma unidade estilística ímpar. A mise en scène é ponto chave para o espectador conectar-se diretamente com o zeitgeist encontrado pelos realizadores do filme. A inquietude da câmera e do discurso dos personagens é um perfeito simbolismo do fervor social sessentista. A característica câmera na mão, aqui, possui apenas um momento de descanso: durante a rápida entrevista do líder revolucionário Fidel Castro. Aqui, o aparato fílmico se limita a contemplar a fala do presidente cubano. 

Uma das mais importantes teorias do documentários reside na URSS dos anos 1920, com Dziga Vertov, o kino-pravda (cine-verdade) e o kino-glaz (cine-olho). Dentro dessa estética, o diretor propunha a captura da verdade a partir de uma linguagem livre de subjetividade e simbolismos. Contudo, a ausência de uma verdade absoluta transforma esta vertente cinematográfica em algo completamente utópico. E é a partir de tal constatação que se baseia que surge Longe do Vietnã.

Os cineastas pouco preocupam-se com uma inexistente imparcialidade no filme. Apresentam ao espectador suas próprias verdades e opiniões, transformando a película em uma ode a autoria. O cinema é uma arte de autor, como propunham os jovens turcos da Cahiers du Cinéma, portanto: a sétima arte é fruto de o olhar de alguém sobre alguma coisa. Exatamente o que ocorre no filme em questão. A questão do autor é exposta, aqui, por meio da parcialidade do discurso dos diretores. O espectador é levado ao universo próprio dos realizadores.

O tom de denúncia do documentário é outro ponto forte de Longe do Vietnã. A sequência final, filmada nos Estados Unidos da América, é, definitivamente, a mais impactante. Com pouca interferência da narração, o público vê protestos que ocorreram nos EUA. Lá, o discurso está presente única e exclusivamente na imagem. Com cenas de xenofobia e racismo, somos conduzidos ao coração da burguesia estadunidense. Ao mesmo tempo, vê-se uma efervescente juventude que luta pelos direitos dos soldados, renunciando à violência praticada pela velha política. A simples comparação entre aqueles que defendem o uso de napalm e os que mostram-se contrários a isso é finalizada quando, em um rápido momento explicativo, um entrevistado explica como funciona tal arma química. A denúncia está feita; cabe ao espectador decidir de qual lado estará.

Neste documentário caleidoscópico, a chave da narrativa está na sensibilidade desse. Por mais que trate de temas delicados, os diretores dão ao espectador o juízo sobre o conflito e os lados envolvidos. Com clara solidariedade ao povo vietnamita, não há como tomar outro lado senão o do povo asiático. A importância social da louvável força do Vietnã está exposta do na fala de Godard: “precisamos criar um Vietnã dentro de nós.” Nesta outra batalha entre Davis e Golias do mundo moderno, novamente, por meio da união popular, o subdesenvolvido vence. Longe do Vietnã aproxima o espectador da luta vietnamita, criando empatia para com eles. E é a própria parcialidade que constrói essa narrativa.

Longe do Vietnã (Loin du Vietnam) – França, 1967
Direção: Jean-Luc Godard, Agnès Varda, Alain Resnais, Chris Marker, Claude Lelouch, William Klein, Joris Ivens
Com: Anne Bellec, Karen Blanguernon, Bernard Fresson, Jean-Luc Godard, Ho Chi Minh, Fidel Castro
Duração: 115 min.

FREDERICO FRANCO . . . Estudante de cinema de Porto Alegre, RS, que pretende ser professor de cinema. Ocupo meu tempo com literatura, música e cinema. No mundo da literatura, Borges é meu padrinho; na música, sou regido pelo sintetizador de Charly García; e, junto de Michael Snow e Michelangelo Antonioni, caminho pelo mundo do cinema.