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Crítica | Lost – 4ª Temporada

por Iann Jeliel
3370 views (a partir de agosto de 2020)

PODE CONTER SPOILERS DE TODAS AS TEMPORADAS! Leia, aqui, as críticas de todo nosso material do Universo Lost.

“Nós vamos mesmo para casa?” – Kate Austen

“É, nós vamos mesmo para casa.” – Jack Shepard

Ao final da impactante reviravolta da terceira temporada, Lost romperia barreiras perigosas com o público que conquistou ao longo de seu formato de TV aberta. Era um risco que ela estava disposta a correr, e de uma forma ou de outra, precisou correr no quarto ano, marcado como a temporada localizada no período da greve de roteiristas. Pensando no imediatismo da época, era difícil perceber as nuances do processo que catalisou a grave inversão de linguagem construída para esta temporada. Coloque no bolo o contexto de greve sem uma perspectiva total da obra – ainda em andamento – e era bem fácil de acusá-la de estar perdida, sem saber como preencher o caminho até a insana proposta de lidar com o pós-ilha em uma situação de completo desamparo do protagonista cientista que enlouqueceu e queria voltar.

Mais do que isso, é inegável a influência da greve sobre algumas decisões, reassistindo e conhecendo o processo de construção é extremamente perceptível cada escolha que foi tomada de improviso pela necessidade de encurtar a temporada (detalho mais à frente), algo sustentado pela construção da anterior que fingia estar fechando processos somente para enganar o público até a virada acontecer. No fim, a quarta temporada desviou desse fingimento e reordenou como verídico para justificar os vários recortes da dramaturgia de vários personagens, tramas, além de segurar a exploração da mitologia, que no fim das contas estava doida para dar as caras segundo o processo natural de revelação de universo por qual a série vinha passando.

Lembrem-se que a segunda temporada já tinha respondido basicamente todas as questões misteriosas que a primeira implantou, enquanto a terceira já estava um passo além e desmistificava esses mistérios em direcionamentos dramáticos dos personagens (Hurley não era mais amaldiçoado pelos números, ele fazia sua própria sorte), utilizando somente a fórmula montada por J.J Abrams para deixá-la mais chamativa. Na quarta, acontece algo parecido com todas, porque a inversão junto à necessidade de fechamento criou um compilado de linguagem das três temporadas anteriores em uma só, mais curta e objetiva. Acabou que era esse o processo a ser feito mesmo.

A série precisava se vender de novo pois no olhar de estar acompanhando episódios semanalmente muita coisa se dissipa, e numa virada explicitamente daquele tamanho, era preciso contextualizar e localizar o público nas peças que foram usadas para tal, e que daqui pra frente a pegada seria outra – assim, aqueles que não estavam dispostos e queriam o fácil, certamente começaram a desistir. Nisso, os flashforwards caíram como uma luva, até para ironizar o público menos paciente que perdeu a vontade de ver aqui justamente pelo fato de estarem entregando demais as respostas que queriam, mas sem o “como”, porque é justamente o “como” o que mais interessa, seja “como” aconteceu, ou “como” levou aquele personagem a estar daquele jeito.

Aí entra a genialidade de roteiristas como Calton Curse e Damon Lindelof, na maneira como eles manipulam a mistura entre linguagens num recorte só como forma de didatizar o processo que sempre ocorreu, para que o decorrer mitológico futuro seja comprável. Eles já entregam o “como” na própria temporada, direcionando-o como artefato climático irresistível, presumindo a legibilidade da nossa relação de empatia com os personagens, e assim não perdem tempo em amarrar todas as pontas levantadas naturalmente pela estrutura para potencializar o grande “começo do fim”.

Os Sobreviventes

“Eu estou morto… Mas ao mesmo tempo eu também estou aqui.”

Charlie Pace

O Intitulado The Begining of End abre com a revelação direta de que Hurley foi outro que saiu da ilha, e não só isso, ele diz que somente seis conseguiram sair. Diante da cena final anterior, já sabíamos de Jack e Kate, e agora com Hurley faltariam três nomes para completar o “Oceanic Six”, nome dado aos sobreviventes e também ao recorte daqueles a que a temporada daria mais relevância. Começando pelo próprio, um dos primeiros passos que seu flashforward estabelece é direcionar todos os seus incertos casos de má sorte conectados com seu dom comunicativo com o sobrenatural, algo de fundamental importância para a compreensão da morte na lógica posteriormente discutida da mitologia.

Hurley não à toa foi escolhido ao dar o início do fim, pensando no fechamento definitivo do personagem no último episódio, nada mais coerente do que colocá-lo como o didata visual da fronteira que a ilha cria entre a espiritualidade e a realidade, onde seu dom originado para uma liderança inconsequente futura adentra as regras por trás dos conceitos e poderios de influência dos dois pilares do universo: o monstro de fumaça e o tão mencionado Jacob. Partindo desse pressuposto de influência e destinos recalculados, a jornada de Sayid é a próxima a ser explicitada, e aí preciso retomar o significado das “peças” sugerido na crítica da primeira temporada e detalhar mais.

Lá atrás, Locke apresenta um tabuleiro de gamão a Walt, com duas peças – uma branca, outra preta. Mais tarde, Jack em sua jornada pessoal encontra em uma caverna outras duas peças – das mesmas cores. Ali, introduzia a base da dualidade da série, que no princípio temático pode se resumir em fé vs ciência, mas dentro da colocação da funcionalidade mitológica se ressignificava através de um maniqueísmo clássico de “bom” vs “mal” ou “luz vs trevas”, só que incorporado na lógica dramática de transformação de todos os personagens. Locke e Jack seriam os condutores desse jogo, mas como venho falando principalmente a respeito de Locke (e de Ben, com relação ao monstro de fumaça), eles na verdade se comportam como marionetes de interesses maiores, que colocam em xeque suas noções de destino. Incorporando a lógica de Star Wars – Lindelof é fã da saga –, a dicotomia vai além e passa a influenciar também as peças secundárias dentro de um raio consequencial já dito pelo flashforward.

No caso de Sayid, sua redenção sempre esteve ligada a conseguir um par romântico que o dava um novo propósito dentro de tantos tormentos, infelizmente por estar diretamente ligado a vida toda à violência, todas morrem em seus braços, seja Shannon, Nadia (que no futuro conseguiu o encontrar, mas acabou morrendo como mostra a season finale), até mesmo uma aleatória criada apenas no seu episódio de retorno para demonstrar o quanto o personagem busca uma válvula de escape, mas não consegue sob as influências do “lado negro”. Por conta disso, seu futuro é trabalhar para Ben, que em todo seu joguinho de caotizar por onde passa, também seria de um ou outro modo vítima dessa influência. Aliás, esse é apenas o terceiro episódio da temporada e já tínhamos quatro nomes dos “Oceanics”, considerando que Ben não estava incluso de modo estratégico para o gatilho posterior na revelação dos outros dois ser mais impactante.

Outra estratégia que possibilitou tal gatilho foi o grandioso cliffhanger do quarto episódio, quando temos a informação de que Aaron era o “filho de Kate” no futuro. Nesse episódio, dedicado inteiramente a Kate, somos ludibriados de modo curioso, pois é o presente que faz o processo de manipulação para o futuro, uma liberdade nunca tomada antes, mas que faz total sentido. Na ilha, Kate e Sawyer transam, o que dá a entender que daquela cena sairia o filho de Kate falado no futuro, mas era apenas um desvio para nosso choque ao descobrir que se tratava de Aaron – sem a Claire – sendo cuidado por ela. Um choque tão forte que nem nos faria pensar na possibilidade de a criança ser considerada um dos “Oceanics”, naturalmente criando um conforto de que ainda eram quatro, e assim a série ainda teria cartas na manga e posicionaria tudo direitinho para didatizar sua nova forma estrutural.

Os Ilhados

“Se você faz escolhas ruins, coisas ruins acontecem com você. Mas se você faz boas escolhas…”

Bernard Nadler

O episódio em questão é Ji Yeon, focado em Sun e Jin. Em mente que havia revelado somente quatro dos seis “Oceanics”, naturalmente pensamos que os últimos dois seriam o casal de coreanos. Contudo, além da pista de Aaron ser o quinto, a própria liberdade criativa tomada em alguns episódios anteriores já dava pistas de que Sun fosse a única que escapou. Mais especificamente, o episódio anterior a esse, The Other Woman, trata-se de um flashback tradicional, com influência dramática do passado sobre ações do presente da Juliet. Ele parece um tanto avulso no meio das inversões, mas serve como dica da escolha estética que Ji Yeon vai deixar clara no fechamento dos “Oceanics”. Percebam que os únicos episódios de  flashforwards são com eles (além do Ben), os demais seguem a estrutura tradicional na adaptação de fechar ou abrir ciclos de modo mais concreto.

Diante disso, inteligentemente (e com aquele tempero sacana) o episódio recorta um momento específico da vida de trabalho de Jin que muito aparentava ele estar comprando um presente para o nascimento de seu filho, somente para puxar o tapete emocionalmente dentro do presente, quando a última e definitiva pendência entre os dois é singelamente concluída, no caso, o fato de Sun ter o traído. Se havia algum resquício daquela historiazinha experimental que não funcionou do relacionamento abusivo, ela morre nesse episódio, mas de uma forma categórica. Jin reconhece no “carma” que as escolhas que ele fez justificam o ato de Sun, com isso, ele dá o braço a torcer pelo perdão e assim o casal vivencia seu ápice, que só tendia a melhorar num futuro em que os dois estivessem fora da ilha, e aí a série puxa o tapete no trágico descobrimento de que Jin não só não escapou como morreu no processo, aumentando nossa expectativa sobre os eventos que levaram ao escape.

Pensando nessa estrutura que tinha que ser pré-anunciada para manter uma coerência de linguagem, o episódio de Juliet acaba saltando a influência negativa que a greve dos roteiristas trouxe para a temporada. Apesar do flashback servir como adereço a uma futura decisão que ela toma na quinta temporada junto a Sawyer, falta um complemento do outro lado para que nessa temporada ele isoladamente seja autossuficiente. Supondo numa extensão da temporada, haveria que ter em algum lugar aí no meio um episódio de Sawyer para fazer a completude com o dela amarrado com as decisões definitivas de seu romance com Kate, além de interligar o fato de que no futuro Kate estaria fazendo um favor a ele (um pedido no ouvido no helicóptero da season finale) que nunca fica claro do que exatamente se trata. Ainda em toque de suposição com as informações até aquele momento, parece ser algo relacionado a sua filha, mas é vago e dissipado entre os episódios e esquecido em importância depois, o que deixa mais claro que deveria ter um lugar para um episódio só dele ali.

Além do mais, toda a jornada de desligar o veneno que Ben usou para matar os membros da Dharma soa como uma extensão desnecessária da ambiguidade climática de os membros do navio serem ou não uma ameaça, e aí entra o ponto que aqueles personagens novos sem a greve possivelmente teriam seus episódios próprios também, para explorar mais das suas possibilidades. Acaba que eles se comportam mais como utensílios para funções específicas do que como personagens de camadas dramáticas densas como estamos acostumados. Nesse processo, a série prefere preservar a coerência e admite o uso deles posteriormente, quando apresenta todos em um compilado de flashbacks (ou seja, eles vão ficar na ilha) e funções que vira e mexe são necessárias na temporada (falarei disso mais tarde). Fato é que depois de Jin Yeon, a temporada dá uma queimada de largada, pula etapas e através do retorno icônico de Michael os flashs passariam a responder somente às questões convenientes ao processo dramático específico.

Meet Kevin Johnsson é basicamente uma grande explicação sem nunca soar como uma, porque atribui motivacionalmente o personagem para ele chegar naquele ponto com determinada função no jogo, e de novo, como na segunda temporada, ele seria o turbo do movimento climático, mas desta vez dentro do processo semelhante ao da terceira sem encenação, de fato, buscando encerrar seu ciclo e criando o conflito que fecharia todos os demais ciclos. Levando em conta o jogo de luz e sombra, Michael viraria a chave para o lado da luz pela impossibilidade de tirar o arrependimento (a ilha não o deixa se matar), enquanto Claire, por exemplo, faria a virada para o lado sombrio, seduzida também pela culpa materna que criou uma falta paterna. A fumaça (disfarçada de Christian, seu pai) finalmente a capturaria como marionete, e digo “finalmente” porque era algo observado desde os primórdios da série.

Na primeira temporada, no início de Raised By Another, ela tem um sonho em que o monstro na forma de Locke (coincidência? Acho que não) já avisaria que ela perderia o bebê em algum momento, e isso a levaria para o lado sombrio (algo reafirmado por na cena um de seus olhos estar claro e outro escuro, e o escuro tomar levemente de conta). O monstro sabia do momento certo que ela com certeza seria levada por influência, ou melhor, a série aproveitou para ser nesse momento em que a personagem parecia não ter mais função específica com a morte de Charlie, sendo assim, até para não a deixar como uma personagem dependente de um personagem masculino, sua função foi direcionada para alavancar Kate e oferecer um novo balanço no jogo. Parece aleatório e gratuito pensando somente em colocar Aaron como um grande cliffhanger de enganação, mas lembremos que as conexões entre esses personagens também foram estabelecidas desde o início, afinal, foi Kate que ajudou Claire a dar à luz e no fim, Aaron levaria Kate a virar a chave para o lado da luz, pois depois dele, ela não precisaria mais fugir.

Abrindo a Mitologia

“O que você espera encontrar lá?” – Sayid Jarrah

“Respostas.” – Desmond Hume

Voltemos umas casas para o princípio da temporada como entretenimento, o que movia a trama presente ainda era a saída da ilha e o que prolongava essa saída – fora as intempéries conceituais – era descobrir a motivação por trás dos tripulantes do navio. Em especial, Desmond – que já funcionava como constante para equilibrar o caos das narrativas – era o que abria essa ambiguidade para os novos personagens, já que foi quem teve o primeiro contato com Naomi, que de uma forma ou de outra estava conectada a Penny, apesar de Charlie em sua morte confirmar que aquele barco não era dela. Para aumentar ainda mais a incerteza, sabemos que apenas Ben era o alvo, e dentro desse contexto, o novo quarteto mentia inofensivamente, segurando a intenção específica e científica de sua presença.

E então, em The Constant, pelo menos um deles toma a dianteira, Daniel Faraday junto a Desmond vai trazer mais uma explicitação de conceitos apresentados anteriormente e explorar suas consequências ao máximo da urgência consequencial. O mais óbvio é destacar para o público como o personagem é literalmente essa constante na equação de fé e ciência da série, afinal, apesar dos efeitos das viagens temporais da sua consciência serem reflexo da grande absorção de energia eletromagnética, que cientificamente cria anomalias plausíveis, as etapas de sua jornada de transformação pessoal são o guia do destino de praticamente todos os personagens, direta ou indiretamente. Faraday surge como esse didata das regras de convivência entre as rédias do destino e da lógica de temporalidade aleatória da ilha, e consegue se aproveitar bem no contexto do episódio para abrir a mitologia e só melhorar na dianteira quando é direcionado em conexões com Eloise, a princípio o ratinho de seus experimentos no passado, mas não à toa o nome também da mulher da joalheria que Desmond conheceu em Flashers Before Your Eyes.

Contudo, esse episódio é ainda mais especial por averiguar um poder que Lost tem como nenhuma outra série: melhor do que sua noção ímpar de transformação de linguagens é a entrega de epopeias emocionais simplesmente inesquecíveis. Tratando-se de envolver centralmente apenas um personagem, essa sem dúvida é a maior delas, e olha que envolve dois que num recorte matemático nem têm tanto tempo de tela assim, mas pouco importa. Acompanhar a jornada de redenção de Desmond com a Penny é um deleite comovente absurdo, um processo que vem desde quando o personagem surgiu, e que chegando tão perto estava quase escapando pelo tempo, pela dificuldade de recusar uma falsa noção de destino, e num ato de fé – finalmente depois de tanto pessimismo temos um concretizado – eles conseguem se comunicar, em uma cena simples, mas extremamente humana e genuinamente uma das mais lindas de toda a série.

Se as intenções dos novos personagens ficam claras com Daniel, The Constant confirma que Ben fala a verdade sobre o espião no barco (Michael, que ajuda Desmond e Sayid na sala de comunicação) e sobre as intenções militares do grupo, na introdução da equipe de Keamy, além de direcionar tudo a outra grande figura vilanesca que ganha corpo na temporada: Charles Wildmore. Mais tarde, descobrimos que a eliminação de todos da ilha se tratava de um jeito de acobertar a mentira financiada por ele, em que o Oceanic 815 foi encontrado no fundo do mar com “todo mundo morto”. Obviamente não existia a MENOR POSSIBILIDADE DE SER VERDADE, mas infelizmente, fora de um contexto total da obra, isso se tornou uma fonte de teorias da conspiração distorcidas, principalmente para o final. Em parte, isso é culpa dos produtores, que queriam brincar com essa ideia para manipular a atenção do público, o que foi legal num primeiro momento, talvez tenha sido segurado demasiadamente a ponto de ser perigoso. Mesmo que precisasse ser assim para que as mentiras contadas em flashforwards em contraponto aos desdobramentos presentes fizessem sentido no momento oportuno.

Ninguém é Especial

Desenho do quarto de Locke criança mostrava seu destino.

Esse momento decisivo não poderia vir antes de uma contextualização dos caminhos que dois pilares seguiriam: Jack e John. Na primeira metade, o ápice de tensão entre eles provocou a bifurcação completa dos sobreviventes ideologicamente, e consequentemente traçou seus caminhos para os lados luminosos ou sombrios da energia, o mesmo também aconteceria com os dois. Cada um acredita estar seguido o caminho a que está destinado (ir para o lado da luz), Jack na crença de que era seu dever ser o líder que tiraria todos da ilha, e Locke de ser o destinado a ser o protetor da ilha que deveria impedir o grupo do navio. Já sabíamos, no entanto, que sair da ilha levaria Jack ao fundo do poço, um processo detalhado em Something Nice Back Home, quando em flashforward é mostrado o gatilho que o levou a ficar transtornado e praticamente se transformar no seu pai, um bêbado inconsequente que o afastaria de Kate, com quem pretendia se casar – nesse mesmo episódio, no presente, a ilha até tenta avisá-lo, literalmente quase rompe seu apêndice para forçá-lo a ficar, mas não funciona.

E no caso de Locke, o destino não o pouparia de algo diferente, por mais que no presente ele estivesse mais certo de que estava perto de cumprir seu dever como especial, o flashback de Cabin Fever (se é flashback nessa temporada, já sabe né?) irá demonstrar de uma vez por todas que na prática ele nunca foi de fato “especial”. Richard vai visitá-lo, quando nasceu e depois criança, numa perspectiva atual era para esse momento confirmar o seu suposto destino de se tornar o líder dos outros e cuidador da ilha, mas na verdade ele se decepciona porque Locke não passa no seu teste. Mais tarde, quando adolescente, Richard secretamente tenta recrutá-lo para um campo de ciências, mas ele se nega alegando ser um “homem da ciência” e que ninguém pode dizer o que ele tem que fazer, sendo que parando pra pensar friamente, tudo que ele fez na ilha foi obedecer às ordens dela, por ser o único lugar em que ele podia confirmar seu senso de orgulho íntimo de preciosidade.

Isso fica claro nessa temporada, apesar de não mais tão frágil para cair na manipulação emocional de Ben, ele sabia que Locke estava mais perdido do que nunca na sua cegueira utópica, e a demora para tomar uma decisão reflete o quanto ele estava sendo manipulado para o público. A cena derradeira de explicitação disso é seu encontro com Christian na cabana, para quem já havia ligado os pontos naquele momento, aquele não se tratava de Jacob, e sim da fumaça – confirmando que a voz de The Man Behind the Curtain também era ele. Se não ficou claro, a série dá pistas de novo, Ben havia a invocado pouco antes para se livrar do ataque de Keamy, um momento depois Christian aparece e recruta Claire, que está do seu lado na cabana já sabendo do plano futuro do fumaça para Locke. Ele o manda mover a ilha, e com medo de que Locke realmente fosse especial, pensando ser uma indicação de Jacob, Ben toma a frente na missão e também acaba caindo na manipulação inconscientemente.

O Fim de um Ciclo

“Não é uma ilha. É um lugar onde milagres acontecem. E se você não acredita nisso, Jack… então espere só para ver o que estou prestes a fazer.”

John Locke

A greve dos roteiristas – como dito – nem foi de todo o mal, pois o encurtar da temporada deu a deixa para um ritmo mais fluido, objetivo e urgente da narrativa, principalmente na linha do tempo da ilha depois de The Shape of Things to Come. Era metade da temporada, mas o efeito de clímax já estava presente, graças à inteligente escolha de matar Rousseau a sangue-frio no cliffhanger do anterior, que possibilitou logo em sequência a espetacular morte de Alex em frente a Ben, instaurando um clima de grande guerra ao final que sujaria as mãos verdadeiramente, sem medo de matar personagens importantes repentinamente. Claro que pensando numa perspectiva extensiva, existia algum espaço ali no meio para episódios exclusivos de flashback com Danielle, e como se formou sua conexão com Ben, até para sua morte ser mais impactante.

No entanto, mais pra frente a série contornaria essa curiosidade de um modo mais criativo, o que justifica a escolha de não quebrar o ritmo para um impacto emocional maior, como a personagem não havia sido de fato desenvolvida ao longo de todo esse tempo, o sacrifício repentino ao menos serviria de ótimo gancho para o clima da finale. Mas, lógico, o amálgama de Walt e Rousseau permanece até hoje como aqueles personagens que nunca foram devidamente aproveitados, ao menos no segundo caso, a série escapou bem da armadilha. Criado o clima, todas as peças e contextos posicionados, era hora de finalmente fechar o ciclo de “fim” prometido na terceira, o trágico escape da ilha. There is no Place Like Home entra naquela mesma classificação de Exodus, Live Together, Die Alone e Through the Looking Glass, um épico dentro da série, um “filme” evento, que mesmo não tão impactante quanto os três anteriores, despertava os mesmos sentimentos satisfatoriamente.

Aliás, pegando a estruturação da temporada, o episódio perfeitamente se encaixa numa mistura do que foi cada final anterior. É um Exodus invertido, onde as sequências do futuro, em maioria, ressignificavam o evento taxado como trágico, no caso, antes era a queda do avião que se tornava algo especial por proporcionar a junção de todos, e agora a saída que tanto perturbou a todos nos flashforwards ganhava um novo tratamento, dada a história mentirosa que os Oceanic’s Six contam à imprensa, aquele sofrimento é nada mais que consequência de uma proteção à memória da tragédia. A continuidade da cena do “We Have to go Back” matura ainda mais esse sentimento de uma possível reconstrução, o que irá no fim das contas colocar Jack mais próximo da peça branca do jogo, uma vez que o orgulho que o levou até ali estava sendo finalmente quebrado.

Funciona assim como Live Together, Die Alone, pois amarra dois núcleos centrais de grandiosidade (o resgate e a guerra) enquanto resolve as pendências que a própria temporada tinha criado. Enquanto todos são levados para o barco, os “cascas” enfrentam Keamy e seu exército que tinham um dispositivo acoplado a uma bomba dentro do barco. Michael, Jin e Desmond tentavam de algum modo desarmá-la por lá ou no mínimo segurar até que chegasse um plano B. Essa escala com vida ou morte em jogo é basicamente o Through the Looking Glass, sem o fator final de inversão, porque o gancho deixado ao final com Locke morto só comprova o outro lado da construção da moeda que dará a continuidade para o próximo ciclo.

Se Locke morreu, automaticamente toda aquela apoteose dele chegando para liderar os Outros é uma farsa – remete ao sentimento de Jack ligando no final anterior e logo depois mostrando a farsa com a consequência disso, sem o mesmo efeito dramático por ser mais previsível – porque ele nega a noção de sacrifício por mover a ilha e deixa Ben fazê-lo, assim os dois caem na manipulação do fumaça, e Locke traça seu caminho para ser o peão escuro de seu jogo. O mover a ilha junto ao desarme da bomba e o resgate, acontece tudo ao mesmo tempo e culmina na forçada saída dos Oceanics. Ben com ódio de Keamy por ter matado sua filha a assassina no pior momento possível, e a série basicamente faz a limpa em todos os seus figurantes com o barco explodindo, e no caminho Jin (aparentemente) e Michael também vão embora.

Dada a justificativa de Sun estar sozinha, os seis junto a Desmond e o Piloto observam dentro do helicóptero a ilha sumindo naquele mesmo clarão brilhoso de quando Desmond girou a chave da escotilha lá na segunda temporada – comprovando que lá a ilha havia sido movida também, gerando um grande bolsão eletromagnético que permitiu que Wildmore e Penny a encontrassem. Ao terem testemunhado o evento inexplicável, Jack toma a dianteira e amarra a última ponta do ciclo ao decidir como todos devem mentir sobre o que ocorreu para proteger aqueles que não escaparam – como o Sawyer que pula antes do helicóptero. O restante é bônus – tipo o emocionante reencontro pessoal entre Desmond e Penny, que já sabíamos não sair totalmente do jogo por Ben querer vingança a sua filha e jurar matar a de Wildmore – porque no futuro, enquanto flashforwards na temporada já haviam mostrado o “como” e para onde iriam todos os destinos, bastava agora ver esse processo no próximo ciclo, era o fim chegando.

Lost nunca abandonaria o mainstream, mas sofreria com ele a partir de cada nova decisão em que acreditava, enquanto os impacientes acusavam e aproveitavam o contexto de greve para chamar essas escolhas de errôneas ou irresponsáveis. E na real, de fato não eram responsáveis, porque Lost não tinha que dar satisfação a ninguém mesmo, e quando deu (mesmo que por querer), apresentou suas maiores fragilidades (as duas últimas temporadas). O que importa é que com ou sem greve e mesmo nesses momentos, a série nunca deixou de ser corajosa, desafiadora e catártica, independentemente do formato, com mais ou menos episódios, a coerência nunca escapou, e quem acha o contrário… Lamento informar, mas você não estava preparado para os rumos que a série conscientemente trilharia até o fim a partir daqui.

Lost – 4ª Temporada (Idem / EUA, 2008)
Criador(es):
  Damon Lindelof, Jeffrey Lieber, J. J. Abrams
Diretores: Jack Bender, Stephen Williams, Eric Laneuville, Stephen Semel, Paul Edwards
Roteiristas: Damon Lindelof, Carlton Cuse, Drew Goddard, Brian K. Vaughan, Edward Kitsis, Adam Horowitz, Elizabeth Sarnoff, Greggory Nations, Christina M. Kim, Kyle Pennington
Elenco: Matthew Fox, Terry O’Quinn, Evangeline Lilly, Jorge Garcia, Josh Holloway, Naveen Andrews, Michael Emerson, Henry Ian Cusick, Elizabeth Mitchell, Yunjin Kim, Daniel Dae Kim, Emilie de Ravin, Jeremy Davies, Rebecca Mader, Ken Leung, Jeff Fahey, Harold Perrineau, Marsha Thomason, Alan Dale, Kevin Durand, L. Scott Caldwell, Sam Anderson, Sonya Walger, Nestor Carbonell, Mira Furlan, Tania Raymonde, John Terry
Duração: 43min (em média) cada episódio – 14 episódios na temporada.

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