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Crítica | Lost – 6ª Temporada

por Iann Jeliel
3281 views (a partir de agosto de 2020)

  • SPOILERS DE TODAS AS TEMPORADAS! Leia, aqui, as críticas de todo nosso material do Universo Lost.

Jacob

Iniciei essa jornada de artigos espelhando Lost em Solaris do Tarkovski. Ao longo do desenvolvimento, vim equiparando diversas vezes as nuances da jornada da série em sua lógica maniqueísta de “bem x mal” em contraponto ao destino, de forma assíncrona com o que acontece em Star Wars. E o que Star Wars e Solaris têm em comum? Ambos são exponencialmente classificados na ficção científica, mesmo que de forma prática não funcionem como uma. Nesses filmes, não são os preceitos científicos que trazem à tona impactos existencialistas ao homem, mas a força espiritual em dialética maior com o que parece cientificamente improvável (dentro do universo em questão, é claro). Um faz isso de forma mais intimista, melancólica e conflituosa ao que o realismo técnico-científico prega, enquanto o outro faz de modo menos realista, mitológico e conceitualmente mais aventuresco, classicista. Contudo, ambos, assim como Lost, são essencialmente fantasiosos, sendo a experiência seriada em toda sua singularidade uma junção entre essas duas formas vistas cinematograficamente de usar o poder da fantasia para se sobressair ao falso controle que abraçamos na racionalização de tudo.

Lost em origem sempre foi sobre os personagens e seus dramas, mas também é sobre a ilha e todo o rico universo que ela oferecia, que porventura alimentava a maior necessidade de descobrir esses personagens. Ambos estavam sincronicamente sendo revelados aos poucos pela estrutura de mistério, que começou por um artifício de venda na visão “caixa preta” deJ.J Abrams, que teve seus méritos por promover o fenômeno em formato televisivo, mas depois desse gatilho engatinhou em uma linguagem única provida especialmente por Damon Lindelof. Diferentemente de Abrams, ele viu que o universo criado tinha potencial para além de um grande produto nerd ser icônico e inesquecível, como também uma grande obra audiovisual como um todo, mesmo se tratando de TV aberta. E uma coisa sustentaria a outra, a autoria natural de conceitos de Lost é o que faria ela ser uma grande obra, e não o que se esperava ver nela. Em um comparativo bem distante, é como as duas trilogias de George Lucas, a primeira que virou um clássico por ser feita sobre o que acreditava, e a segunda que se tornou questionável porque foi feita sobre o que esperava ser visto.

Mais tarde, ironicamente, isso foi ainda mais trágico com J.J assumindo o posto de fechar uma trilogia sobre as mesmas médias esperadas (Episódio IX), porque J.J é esse autor de estúdio que felizmente não esteve envolvido nas últimas decisões de Lost, embora grande parte da rejeição a elas seja em parte culpa do gatilho que ele proporcionou. Contudo, culpar J.J pela má fama de Lost e seu final é injusto, afinal houve outras cinco temporadas sob constantes transformações conscientes de linguagem para educar o público, sem deixar de desafiá-lo a compreender o grande intuito discursivo daquele universo. Inclusive, a quinta temporada se tornou mais fraca porque, dentro da produção seriada em constante mudança, justamente optou em ceder um tanto à “obrigação” de resolver certas pendências cobradas que a linguagem e a narrativa não necessariamente precisavam dar. O mesmo acontece com a temporada final, mas diferentemente daquela, existe aqui uma compensação emocional maior interligada a essas explicações, transportas de modo mais dramático e sem um senso falso de continuidade que dava brecha para as milhões de teorizações, que contaminavam a experiência em termos dramatúrgicos.

Infelizmente, a série já estava tão contaminada que o público forçou-se a pensar no mais difícil, sendo que esse assumir conclusivo era justamente para deixar as coisas mais simples, já que tudo de mais complexo aos personagens e à ilha já havia sido devidamente construído e intensificado. E tudo isso ficou ainda mais prejudicado por pontualidades de uma ambiguidade que a série não poderia deixar de abrir mão, porque o efeito emocional tinha essa dependência inicialmente exclusiva da dúvida sobre o que iria acontecer. Lost fez uma escolha arriscada com isso, o que criou seu rótulo pejorativo injustamente que hoje precisa ser revisitado sobre uma nova óptica televisiva, que é vendida em sequência com temporadas lançadas na íntegra e que já são vistas com olhares mais cinematográficos. Mas também, é o que faz ela ser historicamente emblemática no universo da TV, um Twin Peaks sem o luxo de ser originada de nicho ou com brechas para nesse futuro seriado reprogramar seus status, além de ter o dobro de ambição, em termos logísticos, e lidar com uma temática muito mais complicada em aceitação.

Todas essas características criam uma redoma especial a essa temporada, ultrapassando boa parte de suas limitações, semelhantes às que aconteceram na anterior, que não teve a sustentação do legado muito bem finalizado e honrado, sem trair o público que realmente foi disposto a aceitar o desafio, sem trair sua própria lógica e que ainda ofereceu surpresas inimagináveis para um último ano sobre um último mistério: a recompensa.
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Os Flashsideaways

“Meu estado é irreversível.” – Jack Shepard

“Nada é irreversível.” – John Locke

A recompensa de poder assistir àqueles personagens que tanto amamos finalmente conseguirem chegar em segurança em Los Angeles, em uma realidade alternativa que o Oceanic 816 nunca caiu? Está aí, a nossa última grande dúvida e que se sustentaria até o fim da série sobre várias ópticas. A mais óbvia é a curiosidade pelo mistério que a série sempre nos deixava, não seria a última temporada que faria diferente. Pode falar o que quiser, mas que em algum momento ela foi enfadonha ou desinteressante é o cúmulo do descaso. Lógico, aqueles mais preguiçosos viram isso e perderam a paciência, mas era só pensar um pouco, esse último mistério já estava resolvido desde a temporada anterior. “O que aconteceu, aconteceu”, lembram? Sim, teve o Daniel Faraday que veio com aquela história de que cientificamente era possível mudar o futuro, gerando a ambiguidade sobre o que aconteceria depois da explosão daquela bomba.

Lógico que na primeira cena depois disso com uma realidade em que o avião não cai, o natural é pensar que deu certo, o que é sequencialmente desmentido com a presença de Desmond no avião, logo na sequência inicial, e reforçado algumas vezes. Se aquilo se tratasse mesmo da realidade do futuro, como seria possível Desmond estar no avião? No máximo, alguma noção do destino, certo? Sim, exatamente isso, vinda de Desmond, a constante da série. Ou seja, a ambiguidade referente é sim proposital para nos deixar divididos entre a alternatividade da realidade em paradoxo ser consequência do que aconteceu e o fato de ser alternado pela realidade viva na ilha ser apenas alegórico, mas independentemente do que se acredita enquanto acompanha, uma coisa é sólida, a intenção de reforçar o quanto a série é sobre o destino. Eles mostram que não importa se não houvesse a ilha, aquelas pessoas estavam conectadas para ajudar uma as outras a melhorar pelo destino.

Os flashsideaways são brincadeiras geniais sobre como ele atuaria de forma igualitária ao que aconteceu na ilha, porque uma outra realidade não muda os planos desse algo maior sobre eles, mesmo considerando inversão de certos valores da personificação de cada um. Nesse ponto, está a segunda pista, como que Hurley é sortudo se o paradoxo cientificamente não deveria alternar as suas características? O avião não cair não deveria mudar o que viveram antes daquela viagem(como não muda de vários: Kate, Sayid, Sawyer). Numa liberdade criativa seria até plausível pensando em como o cientificismo aleatório por trás dos efeitos magnéticos que constaram no “incidente” cancelado poderia ter influído em algo, é outra dúvida implementada, mas pouco a pouco essa pista de Hurley vai se categorizando em outras mais que confirmam alguma linha de caráter espiritual, por mais que não negasse uma conexão temporal com os acontecimentos presentes na ilha, mas essa também era uma conexão mitológica que saberíamos somente nos finalmentes.

Infelizmente, como dito, a contaminação por teorizações adversas era tão forte que qualquer pista dada de modo sugestivo para não entregar a surpresa era reinterpretada a tentar complexar o que era simples. Sendo a derradeira aquela no presente com Juliet, morrendo nele. No leito de morte, Juliet fala que “funcionou”, o que aumenta a ambiguidade no momento, mas é a primeira dessas confirmações sobre falta de sincronia entre os eventos sideaways e os finais da ilha serem vindos de uma separação arbitrária. Se tivesse que ser narrativamente sincronizado, dramaticamente bagunçaria sua proposital bagunça de prover o mistério que proveria o drama. Porque aí teria que entregar primeiro Juliet à “consciência” no sideaway, aquilo que deveria ser para Desmond, por toda a sua construção como função de constante na série inteira.

A aleatoriedade da ordem do “despertar” e as mudanças comportamentais em alguns têm fundamento na finalização da jornada dramática do personagem na série, seja reafirmando os processos completos em um resumo póstumo sob esse novo contexto, ou os incompletos dando o benefício de uma nova escolha. Com esse segundo tipo em isolado, fica muito clara a intenção estrutural da coisa e o grande exemplo está em Ben, porque ele teve uma jornada à parte do “grupo” importante. Em Dr. Linus vemos a consequência de ele “escolher” ser a caótica da narrativa pelo poder, e como isso o levou a tomar escolhas que não necessariamente queria, mas que ele acreditava serem as certas para suprir seu desejo íntimo de especialidade, tal como Locke teve, e ambos foram manipulados pelo fumaça. Ver o personagem na temporada anterior ser desarmado ao admitir todas as mentiras que contou para se manter à frente do verdadeiro Locke no jogo de preciosidade já tinha sido bem simbólico, mas olhar isso no espelhamento direto do sideaway onde ele tem a oportunidade de escolher novamente torna ainda mais impactante a dramática de um vilão que escolheu ser assim em vão.

É lindíssimo o monólogo em que ele admite ter sido essa peça que caotizava o universo de todos, juntamente ao simbolismo do reencontro dos personagens que o acompanhavam na praia naquele momento, deixando-o isolado. É uma cena de sensibilidade ímpar no direcionamento consequencial da trajetória do personagem, que momentos antes já estava cavando a própria cova. Acabou que seu espírito de sobrevivência o fez para esperar, assim como o faria esperar novamente no último capítulo, porque sua segunda chance estava em outro momento.
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O Templo

Venha Sayid… Ainda há tempo. – Benjamin Linus

Não para mim. – Sayid Jarrah

Falando em vilão e em segunda chance, Sayid novamente se torna um problema dessa reta final de série, embora, para essa, suas atitudes vilanescas sejam melhor fundamentadas dentro da explicação mais explícita do jogo de luz e escuridão a que tange todo o universo de Lost nas entrelinhas. Creio eu que essas explicações soam como desnecessárias, especialmente pela forma como são colocadas, de modo parcelado e entre atitudes convencionalmente misteriosas dos “outros” no arco do templo. Tudo envolvendo o personagem de Dogen parece absolutamente dispensável, especialmente porque o seu pano de fundo dramático, implementado depois para justificar sua ladainha em contar o que precisa, é muito fraco. Assim, parece que ele irá fornecer novos detalhamentos importantes sobre a mitologia, e a série até aproveita esses momentos para apresentar novos conceitos, como a fonte que revive Sayid (a mesma que reviveu Ben na quinta temporada depois de levar um tiro do próprio Sayid, coincidência? Acho que não) ou a caverna e o farol de Jacob, mas na prática isso não acontece, e o personagem se limita a frases soltas que tecem os conectivos com outros momentos na intuição.

Se era pra exercer a função de explicador para o público que ainda não havia pegado, ou para aqueles personagens, que fizesse isso de forma pelo menos mais direta e clara, não ficando com suspense sobre cada próximo movimento, porque o efeito só gerava mais perguntas cujas respostas seriam as mais óbvias possíveis, tão óbvias que dava uma sensação de lacunas, de que haveria algo mais, só que não havia. É aquela velha história do senso de continuidade desnecessário em alguns momentos da quinta, mas nesse caso era ainda pior porque nem se categorizavam como ganchos, era literalmente uma protelação espertinha de informações até certas convergências terminarem de acontecer, sendo que poderiam nem acontecer se Dogen fosse um pouquinho mais direto ao ponto. Por isso, ele é disparado o pior personagem de Lost e esse é o momento que dá para dizer que a série enrolou o público, se não fossem os sideaways – de que falarei logo mais.

Ao menos as pontas soltas referentes ao funcionamento mitológico da fumaça são fechadas, seja direta ou indiretamente. Já tínhamos a motivação primordial, o ódio a Jacob que levava a fumaça a tentar recrutar ajudantes para matá-lo ou para conseguir um corpo novo para fugir da ilha. Sabíamos das regras de seus poderes através de deduções calculadas sobre suas fraquezas, como a energia sônica que consta acerca dos outros, aonde ele não conseguia nem passar por cima, logo, não tinha como sair da ilha “voando”, e a água, o que reforçava essa segunda afirmação e pode ser deduzida através do sistema de engrenagens das vias subterrâneas originadas no templo. Em Dead is Dead, da quinta temporada, Ben demonstra como fez para invocar o monstro retirando uma rolha que drenava a água desses túneis possibilitando o acesso do monstro por baixo deles (e da cerca) para matar os mercenários de Keamy. Ou seja, o monstro possivelmente não tinha passado por baixo porque existia essa rede de canais que protegia tanto o vilarejo da Dharma quanto o templo, onde ficava a fonte principal e por isso ainda era seguro.

Nunca saberemos as origens desse sistema, mas fica implícita a engenharia originada dos egípcios, que provavelmente ao longo de seu período descobriram algumas das propriedades especiais da ilha e construíram sistemas que os fariam explorar essas propriedades (basicamente o que a Dharma e os outros fizeram). Seria legal se isso fosse abordado em algum momento das viagens temporais anteriormente, especialmente porque eles deviam ter relações mais religiosas com o precursor Jacob , tanto que a estátua que construíram virou seu lar. Isso não faz falta na dramaturgia principal, o que faz falta é de novo Dogen não deixar muito claro por que sua morte levaria a única coisa que não deixava a fumaça entrar no templo se havia o sistema das águas. Ele fala “agora que Jacob morreu, ele está livre”, então possivelmente a adoração dos egípcios ao precursor de Jacob fez com que esse batizasse o sistema de uma água protetora deles, que é o que o fazia funcionar, mas não fica claro até o final, porque não dá para saber se o fumaça manipulou Sayid a acreditar que foi ressuscitado por ele, ou se foi pela água, mesmo que seja mencionado na cena de afogamento a Sayid que demonstra que a proteção daquela água não estava “funcionando mais” depois que ele morreu.

Porque outras pistas apontam para outros lugares, por exemplo, como isso se espelha no salvamento de Ben? Se foi a mesma água abençoada de Jacob, a interconexão entre ele e Sayid no destino traz um ciclo um tanto confuso, porque tornaria Jacob um mediador consciente de problemas que ele mesmo acabaria criando no futuro e que levariam a sua morte. E sim, isso não deixa de ser uma verdade, mas dentro daquele momento, sem a dramática de Across the Sea, só queimava o filme da figura, mesmo que fossem introduções ao processo de humanização e a sua simbologia mística, que cedo ou tarde iria ser detalhada. Enquanto não, era aceitar sob a suspensão da descrença (algo relativamente fácil em Lost) e ver a fumaça eliminando o restante dos outros com a recompensa de não ter que mais ouvir enrolação do Dogen outra vez e ter o primeiro gostinho do clímax. Pena que esse gatilho, de novo, tenha que ter vindo do pobre Sayid pela mesma e exaustiva dramática de “recuperar o amor perdido” sob pena de cometer atrocidades no caminho.
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Os Candidatos

Jack está aqui porque ele tem algo a fazer. Não posso contar a ele o que é.  Ele tem que descobrir por si.

Jacob

Além de Sayid, a temporada se fixava em outros 6 personagens primordiais, chamados “Candidatos”, apresentados em The Incident através de flashs que mostravam a influência de Jacob sobre suas vidas, o que acabou de alguma forma induzindo os destinos na ilha com o intuito de substitui-lo. Numa primeira vista, essas cenas pareciam pouco críveis, um tipo de solução tirada da cartola em cima da hora, algo que pode ser reforçado pela caverna e o farol de Jacob, cenários devidamente importantes que deveriam ter sido ao menos mencionados (como foi o templo) alguma outra vez na série, ou que ficassem a uma distância considerável da geografia padrão. Contudo, parando para pensar friamente, isso não trai a lógica de descobrimento da série, que visualmente sempre apresentou suas novidades quando precisou delas, ou um pouco antes de precisar com pequenas pistas. Como foi o caso dos sobreviventes da cauda vivos (e Ana Lucia aparecendo em Exodus para isso), a outra ilha da estação Hydra (só mencionada antes de levarem os personagens para lá), o mecanismo que moveu a ilha… Enfim, dentre outras várias.

Faz parte do método de Lost, lembra? Exposé já tinha mostrado como era o processo para o desenvolvimento de personagens, e agora, por se tratarem de temporadas mais mitológicas, o direcionamento foi naturalmente para um lado mais fantasioso, o que deu a impressão de jogado, mas que dada a amarra utilizada, além de fazer muito sentido, é como sempre direcionado a um grande potencializador dramático, especialmente na angústia do fim. Tal amarra foi feita com a justificativa por trás do falso “amaldiçoamento” dos números. Esses que por algum motivo eram cobrados por uma justificativa racional, sendo que originalmente eles estavam ali como apenas um MacGuffin que conectava a ideia de destino com o Hurley, com a escotilha, com o computador e agora com os últimos candidatos.

Olhando com cuidados as paredes da caverna, é possível perceber outros sobrenomes de personagens da série riscados em meio a vários outros aleatórios, o que indica que possivelmente todos do avião em algum momento foram também candidatos, mas foram riscados por morrerem no caminho ou terem uma redenção precoce à finalização do ciclo, como Kate por ser mãe, e que tem destaque nessa temporada justamente para ser esse demonstrativo.

  • 4 – Locke (John)
  • 8 Reyes (Hurley)
  • 15 Ford (James | Sawyer)
  • 16 – Jarrah (Sayid)
  • 23 – Shepard (Jack)
  • 42 – Kwon (Pode ser tanto Jin como Sun, mas como Kate teve seu nome riscado por ser mãe, possivelmente, Sun deve ter tido o mesmo destino, sobrando para Jin).

Se esses outros foram candidatos e foram riscados por motivos de morte, significa que os que sobraram poderiam também morrer, em regra, o que dava a ideia de risco real aos personagens, mesmo com o trabalho do destino em impedir (algo que o final irá subverter pelos sideaways, já que a morte não estava ali como necessariamente o fim, mas tememos por achar que tudo podia ser em vão). Jacob é vaidoso com a própria natureza, ele quer que os candidatos descubram sozinhos a importância de assumirem seus papéis, e para isso, ele tenta interferir o mínimo possível, até o momento em que morre e se vê tendo que tomar escolhas mais diretas, porque o fumaça já não obedecia as mesmas regras para tentar matá-lo, quem dirá agora que não havia ninguém para impedi-lo, assim forçando-o inclusive a inclinar o nome que parecia mais disposto naquele momento: Jack.

Em The Ligthouse, ele o leva por meio de Hurley, que consegue se comunicar com os mortos, até o farol para mostrar o que viria a ser sua responsabilidade, mesmo assim, não conta nada para deixá-lo se descontaminar sozinho do ego que tanto o assombra e entender que, seja qual for o destino, ele tem que ser cumprido fora do vício que carrega de querer consertar as coisas, antes, Jack precisava consertar a si próprio. O sideaway desse episódio é lindíssimo nesse sentido, mostrando uma hipotética relação de Jack com seu filho para prover esse exercício de desconstrução do personagem, desarmando-se daquilo que se tornou pelo seu pai, para não fazer o mesmo acontecer com o filho. Enquanto isso, Locke-Fumaça tentaria convencer Sawyer sobre Jacob ser um mero manipulador, que naquele momento era bem plausível. A ambiguidade tinha que prevalecer de algum modo, o que poderia ser cansativo com a quantidade de trocas no direcionamento que essa ambiguidade teve ao longo da temporada, e só não foi porque tínhamos Sawyer como nosso mentor nesse terreno.

No seu anti-heroísmo característico, depois de sofrer tanto ao perder Juliet, tudo o que lhe restou era o escape, e para isso ele tinha que voltar ao seu eu interior uma última vez e promover um último golpe sobre o quadrângulo de confrontos a acontecerem. A chegada de Wildmore à ilha, contra o grupo da fumaça, contra Jack e Richard divididos com diferentes interpretações sobre o que Jacob queria para proteger a ilha. Basicamente, ele é a faísca que vai acender todos em dianteira, para junto a Kate ao fundo observarem, e na sobra das coisas, escaparem e sobreviverem. Os dois têm também em comum flashsideaways que não exatamente mudam o que são, mas que explicitam o processo que fez ambos se tornarem novas pessoas. No caso, Kate sendo esse auxílio de maternidade de Claire, ajudando-a mesmo depois de praticamente sequestrá-la, e Sawyer optando por virar um policial ao invés de golpista, criando um personagem em cima disso para segurar seus traumas que ainda o perturbam quando encontra dificuldades, algo que aconteceu quando ele era La Fluer, e na realidade alternativa seguiu acontecendo com sua perseguição ao nome de Anthony Cooper.

Já Hurley, em sideaway, pela inversão já mencionada onde o personagem é “sortudo”, teve uma oportunidade de ter seu encontro cessado com Libby, quando os dois meio que invertem os papéis, mas se complementam da mesma forma. Na ilha, Hurley tinha esse complexo de inferioridade por ter passado um bom tempo num hospital psiquiátrico contando a história dos números em que ninguém acreditava sem taxá-lo de louco. Libby foi a primeira das sobreviventes a escutá-lo sem jogar sua loucura contra ele, o que iniciou o processo de amadurecimento de segurança no personagem que tempos depois superou sua maldição e passou a ganhar um status de liderança intuitiva, com até mesmo Jack confiando em seu julgamento moral, mesmo sabendo que estava mentindo. No sideaway esses papéis meio que se invertem, Libby é a internada da vez, por contar a história do que viveram na ilha naquela realidade sem ninguém acreditar, a não ser Hurley. Aí só precisava de um empurrãozinho de Desmond para o primeiro “despertar” acontecer.|
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Explicando no Drama

“O que importa é aquilo que sentimos.” – Charlie Pace

Hapilly Ever After, Ab Aeterno e Across the Sea são os três episódios que melhor resumem a estruturação da temporada, cada um em sua particularidade e grau, pois são focados em explicações diretas sobre os eventos principais, encobertas pelo drama da função de seus personagens.

5X11 – Happily Ever After

“Muita coisa pode acontecer em 20 minutos.” – Desmond Hume

Protagonizado por Desmond, esse é o episódio que finalmente o fará perceber sua função de constante naquele universo. Quando Widmore o traz de volta à ilha e descarrega energia eletromagnética nele, testando se realmente ele era resistente a isso, ocorre novamente aquela viagem de sua consciência, mas desta vez não através do tempo, e sim pelo espaço espiritual da ilha.  No sideaway, Desmond irá ser o primeiro a passar pelo processo de “despertar” por completo, com a ajuda de Charlie que já estava sob efeitos iniciais, assim como Libby no episódio seguinte do Hurley, porque haviam morrido, o que até gera uma dúvida nos próximos episódios, se havia algum critério sobre a ordem que supostamente esse despertar teria que acontecer, se havia padrão ou sincronia com as mortes. No meio da missão de Desmond em levar Charlie para o concerto de Daniel – que nessa realidade é músico por ser filho bem cuidado de Eloise e Widmore, para quem Desmond trabalha, já que nunca tinha conhecido Penny -, essa ideia de uma certa ordem lógica parece ser mesmo concreta, com Eloise, que já havia morrido, já despertada e Faraday, também morto, com pelo menos um flash de consciência sobre o que ele fez, no caso, a explosão daquela bomba.

Ao falar “Eu acho que já explodi”, Daniel abriu margem para a sua lógica de mudança temporal ser cientificamente concreta, naquele constante exercício de ambiguidade que acabará sendo mal interpretada pelas exageradas teorizações em cima. Só que aquilo é puro achismo, ele não despertou completamente (e nem iria), assim, aquele pequeno flash de anotações no caderno trouxe apenas a mesma suposição de sua cabeça antes de morrer. Se ele realmente despertasse, possivelmente traria a mentalidade de leito de morte, em que ele compreende que o destino não podia ser mudado. Por que ele não “despertou”? Possivelmente, Eloise, aparentemente já “despertada” não queria isso para o filho, tanto que tentou impedir Desmond de continuar a procurar por Penny com medo de, no caminho, despertar Daniel também. Isso acabou não acontecendo porque, quando Desmond finalmente encontra Penny, seu despertar equilibra a sua consciência entre as realidades, tornando-o mentor no sideaway a guiar os demais personagens a despertarem por conexões – o que faz total sentido, afinal foi ele quem juntou todos na ilha para não apertar o botão -, e no presente a “arma” para derrotar o vilão.

5X09 – Ab Aeterno

“Pense nesse vinho como o que fica chamando de inferno… Há outros nomes para ele também.” – Jacob

Richard, que foi constante como guia mitológico nos passeios da quinta temporada, finalmente ganha a sua história de origem em um dos mais belos capítulos da série, e ganhou no momento certo. Da tríade que mencionei, sem dúvidas é o mais interessado em dar um background dramático acima de explicações de funcionalidade conceitual da mitologia, o que condiz com a sua função de guia para um passeio. O diferencial é que nesse episódio o guia será seu drama, um homem pobre, religioso, que perdeu sua esposa e ainda foi castigado com a escravidão por acidentalmente ter matado um outro importante. As pontas vão se amarrando naturalmente, o Black Rock, a origem dos outros, sua imortalidade, além do desejo sadio da fumaça em querer recrutar alguém para matar o seu irmão, Richard sendo o primeiro. Tudo isso é sublinhado na dramática em que Alpert chega na ilha, com a certeza de que está no inferno pagando por seus pecados, um delírio que retoma no presente quando se vê sem propósito diante da morte de Jacob, e que sua imortalidade foi sem qualquer propósito.

O episódio faz questão de flertar com conceitos explicitamente cristãos para, através de um básico espelhamento metafórico, Jacob explicar a funcionalidade da mitologia da própria ilha para Richard e para nós, público. É só pensar um pouco, quando Jacob fala sobre a rolha, não está dizendo literalmente que a ilha é um purgatório que segura o inferno de se espalhar pelo mundo, é uma metáfora à fumaça e ao bolsão de energia que o criou em Across the Sea. Esse episódio, inclusive, poderia ter vindo logo depois daquele para deixar mais claro o porquê da fumaça não poder sair da ilha, tanto em questão motivacional íntima do personagem quanto consequencial para o mundo exterior, se a energia de que ele é constituído saísse do seu ambiente de controle. Em suma, a ilha é esse ambiente, mas dentro de uma lógica mitológica muito única, onde os mortos continuam presos vagando até conseguirem atingir seu propósito e redenção (os sussurros), como Michael que não atingiu e ficou por lá, como Isabella – esposa de Richard – também ficou até o momento em que, através de Hurley, pôde ganhar uma chance de dizer uma última palavra a Richard e ajudá-lo a encontrar o propósito, numa cena simplesmente linda.

6X15 – Across the Sea

“Um dia você vai ter seu próprio jogo e vai poder criar suas próprias regras.” – Homem de Preto

Como dito, não é um episódio que veio no momento tão certo, nem foi tão bem executado como foi o de Richard, a ponto de deixar Jacob um personagem tão interessante quanto poderia, mas ainda tem sua base amortecida na importância dramática acima das maiores explicações. Tanto que a construção toda do episódio busca passar a ideia de ciclo mais do que se ater a contar detalhes. Jacob e o seu irmão fumaça não foram os primeiros, mas os últimos que haviam entrado nesse jogo alegórico orquestrado pelo destino. E a alegoria desse jogo novamente é reforçada por um tabuleiro de gamão antigo, da mesma forma que Locke nos apresentou esse universo lá na primeira temporada com Walt. Duas peças, uma clara, uma escura, o bem, o mal, a fé, a ciência, um maniqueísmo que pode ser misturado.

Jacob não era o “destinado” a substituir sua mãe como novo protetor, esse papel era do homem de preto (fumaça) que passou a negá-lo quando quis descobrir mais do seu passado e viu a mentira que sua mãe havia contado. Assim, foi corrompido e matou a falsa mãe, forçando Jacob a ter que assumir o papel de protetor, que não o impediu de cometer a vingança, a contragosto do destino que castigaria ambos, um preso como um líder que nunca quis ser, e o outro preso (na forma de fumaça) para sempre onde ele não queria mais estar. Desse modo, amarram-se todas as motivações, do fumaça em querer sair da ilha e depois destruí-la (ele odeia o lugar), e de Jacob em não querer guiar nenhum de seus candidatos, querendo que eles descubram sozinhos se querem assumir esse papel, por isso que não conseguiu ninguém ao longo de todo esse tempo, mesmo com o auxílio de Alpert. Ao menos, até John Locke aparecer.
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O Legado

“John Locke foi o único entre nós que acreditou nesse lugar.

Você desrespeita sua memória ao usar o seu rosto.”

Jack Sherpard

Como assim? Mas John na prática não morreu por ser manipulado o tempo todo no plano da fumaça? Sim, mas como diria um filósofo anônimo, “pessoas morrem, mas suas ideias permanecem”. Locke teve fé na ilha e na sua especialidade acima do próprio ego em praticamente toda sua jornada, certamente era aquele que mais merecia o título de substituto dos candidatos. Quando Jack o confronta na versão de fumaça, depois de passar pelo teste de Jacob no farol, e tenta suicídio com uma dinamite em Black Rock (que na verdade, só não se concretizou porque Richard não podia morrer), ele começa a entender que existe realmente algo ali a ser feito, como John acreditava. E no final, esse processo de conversão de sua mentalidade também é ligeiramente o processo de conversão da série, porque ela é sobre seu ponto de vista, que claramente joga tudo para o lado da fé no final, mesmo sem nenhuma ideia se vai funcionar ou não.

Para nós, público, estava igualmente incerto graças às várias intersecções de diferentes ambiguidades inseridas ao longo das tramas, que só teriam como ser desmentidas já em neutralidade emocional, algo basicamente impossível nesses últimos episódios, que potencializam essas ambiguidades em cada ação decisiva de modo a ficar emocionalmente ainda mais intenso e desesperador. Quando The Candidate mata Sayid, Sun e Jin em uma tacada só, na crueldade de pouco tempo antes terem se reencontrado depois de tanto tempo separados, parece não haver mais nenhum sinal de esperança, o que é ÓTIMO! Final de série grande precisa ter momentos fortes, grandiosos e emocionalmente carregados, e tanto The Candidate quanto o anterior, The Last Recruit, são primorosos exemplos de como entregar isso com um senso consequencial simplesmente devastador. O momento em que Hurley, Kate, Sawyer e Jack chegam na praia e têm consciência daquela perda está entre as cenas mais incríveis da série.

Enquanto o presente desestruturava nosso emocional nesses momentos dignos de season finale, os núcleos mais à parte como o de Richard e Ben fortificavam a ideia de ciclo colocada por Across The Sea. Widmore era eliminado, Ilana (a ajudante de Jacob) também, porque de alguma forma eles já haviam cumprido seus papéis, e deixá-los seria uma barreira aos últimos movimentos do destino (como tentar explodir o avião que tinha que partir). Já o fumaça tinha plano de fuga garantido, só precisava lidar com a última ameaça a sua pele (Desmond, por resistir à energia de que era feita), e Jacob teria a conversa derradeira com os demais candidatos, expondo o objetivo da substituição e colocando na mesa quem gostaria de ser e, obviamente, Jack assumindo com a ideia de continuar o legado de John. Por fim, os flashsideaways terminariam de preparar o terreno às diversas convergências que o destino já tinha preparado para todos despertarem, e assim, aconteceria o polêmico episódio final.

Lembro bem da sensação que tive ao assisti-lo pela primeira vez, já anos depois de seu fim. Ao longo de toda minha caminhada, cada vez que a série me surpreendia, mais eu me deixava levar pelo seu rótulo popular de decepção por uma expectativa equivocada. É interessante como isso acabou se tornando benéfico, ia acreditando no pior e sendo desmentido logo em sequência com mais surpresas que só apuravam mais meu tato como espectador. Só ao fim de 120 episódios eu pude ter a certeza de que não existia final que pudesse estragar a experiência que Lost proporcionou. Foram seis temporadas de surtos, choros, sorrisos, empolgações e um envolvimento imersivo que jamais tinha tido em nenhum outro produto audiovisual, que não poderiam ser apagados em hipótese nenhuma, nem pelo “pior” final de todos os tempos, como era dito. Felizmente, o que experimentei ao ver essa series finale foi justamente cada uma das sensações que haviam me prendido durante toda a jornada, potencializadas ao máximo pela magia da construção fragmentada da linguagem televisiva.

A esta altura do texto, não tem como e seria injusto resumir a magnitude de The End com apenas um ou dois parágrafos finais. Ele merece mais e receberá mais em um texto exclusivo para ele ser trabalhado por completo e em detalhes (clique aqui para conferir). Contudo, algo que posso adiantar e que não pode ser discordado (ALÉM DO FATO DE QUE ELES NÃO ESTAVAM TODOS MORTOS DESDE O ÍNICIO!!) é que dificilmente se sai indiferente dele. Assim como não se sai indiferente da experiência que Lost proporciona como um todo, seja ela vista na época ou depois, seja achando que ela se perdeu na terceira, quarta, quinta, sexta ou somente no final, não importa. Fato é que esse final pode ser tudo, menos incoerente com o legado que Lost construiu como obra audiovisual, um legado que está muito além de mistérios “não respondidos” ou de um fenômeno viciante das noites de domingo ou de uma suposta mediocridade do último episódio.

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Mesmo se fosse verdade, isso não apagaria o brilho da série, assim como os problemas dessa temporada (e garanto que nenhum deles está no final) não a tiram da prateleira da excelência. Até porque, em maior escala, ela também representa a valorização desse grande legado conseguido em todas as instâncias, o que a torna muito honesta e emocionalmente envolvente a ponto de a conclusão ser uma recompensa quase transcendental à jornada que aqui se confirma como uma das maiores obras-primas da história da televisão.

Lost – 6ª Temporada (Idem | EUA, 2009-2010)
Criador(es):
Damon Lindelof, Jeffrey Lieber, J. J. Abrams
Diretores: Jack Bender, Stephen Williams, Paul Edwards, Tucker Gates, Bobby Roth, Mario Van Peebles, Daniel Attias, Stephen Semel
Roteiristas: Damon Lindelof, Carlton Cuse, Edward Kitsis, Adam Horowitz, Elizabeth Sarnoff, Graham Roland, Melinda Hsu Taylor, Greggory Nations
Elenco: Matthew Fox, Terry O’Quinn, Evangeline Lilly, Jorge Garcia, Naveen Andrews, Josh Holloway, Daniel Dae Kim, Yunjin Kim, Michael Emerson, Ken Leung, Henry Ian Cusick, Emilie de Ravin, Jeff Fahey, Nestor Carbonell, Elizabeth Mitchell, Dominic Monaghan, Jeremy Davies, Ian Somerhalder, Rebecca Mader, Harold Perrineau, Cynthia Watros, Michelle Rodriguez, Maggie Grace, L. Scott Caldwell, Sam Anderson, Alan Dale, Sonya Walger,  Mark Pellegrino, Titus Welliver, John Terry
Duração: 43 min. (em média) cada episódio – 18 episódios na temporada.

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