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Crítica | Lost – Missing Pieces

por Davi Lima
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PODE CONTER SPOILERS DE TODAS AS TEMPORADAS! Leia, aqui, as críticas de todo nosso material do Universo Lost.

Tendo em vista que o projeto Missing Pieces é um extra da famosa série Lost, demarcar uma visão crítica fora do campo linguístico da trama adere paralelamente a indução anacrônica de se ver os episódios fora do seu percurso de lançamento a uma certa relevância do texto ao leitor. Por isso, vale citar que em 2007 Lost, da emissora ABC, deu mais um passo de grandiosidade na história da TV americana, conseguindo fazer um contrato integrado da série de TV aberta com a distribuição de webepisodes, algo que na época iniciava uma proto oficialização de roteiros registrados pelo Sindicato de Roteiristas para serem utilizados na internet. Isso não apenas foi um estouro sistemático no mundo da TV americana pela visibilidade de Lost como aconteceu exatamente durante a greve dos roteiristas (2007-08), que almejavam melhores pagamentos.

A proposta dos showrunners, especialmente o mais executivo, Carlton Cuse, era ser justo com pagamentos quase pioneiros aos roteiristas oficiais da série para escrevem episódios curtos para o meio virtual, enquanto a série alimentava os fãs alvoroçados com o hiato entre a 3ª e a 4ª temporada.  O tal projeto de webepisodes foi denominado Missing Pieces, um nome que já havia sido utilizado na antiga Twin Peaks, a série avassaladora em diferenciação na história da TV americana nos anos 90, talvez a favorita do showrunner Damon Lindelof. Não à toa que as duas séries, por utilizarem o mistério não resolvido como impulsionador do drama, confrontaram tanto o público da TV aberta, ambas da mesma emissora em tempos diferentes. Com Twin Peaks, série produzida pelo famoso diretor David Lynch e pelo renascentista das séries de drama na TV americana Mark Foster, os Missing Pieces ajudaram os fãs a compreender as conexões que havia com a primeira temporada cancelada e o filme prelúdio lançado anos depois. Com Lost a proposta é a linguagem da série pautar os dramas dos personagens pelos conflitos temporais do que eles eram e o que se transformam no ambiente misterioso da ilha, especialmente com a introdução do artifício de roteiro flashforward no final da 3ª temporada, que faz com que os “pedaços perdidos” se tornem tanto preenchimento de lacunas e caracterização de personagens quanto uma narrativa que aponte para o paradoxo temporal que a série sempre se dispôs a fazer para que, humanisticamente falando, o mistério nunca desapareça.

Logo, se por um lado a ideia de lançar semanalmente um curta baseado em episódios cortados da gravação para a entrega televisiva das temporadas soa, mercadologicamente, uma iniciativa apelativa para manter o público sempre atento ao clima da série na transição de 2007 para 2008, por outro, por preservar cenas gravadas pelo melhor diretor da série, Jack Bender, e conservar os variados escritores presentes nas temporadas, torna a apelação em um novo exercício de Lost para provar que sua maneira de contar história não se resume a uma estrutura de TV aberta em uma pretensa constante de prender o público usufruindo das artimanhas clássicas da TV americana, mesmo que Lost seja uma série diferenciada.

O ato de transformar cenas em episódios, em curtas-metragens, permite averiguar que os showrunners sempre tiveram peças artísticas, como o compositor de trilha Michael Giacchino, que sempre transformaram a grande massa roteirista que caracteriza o mundo televisivo em poder audiovisual mais impactante, conseguindo uma ambiguidade mais cinematográfica pela temática relativa a dramas humanos misturados a uma mitologia que usa paralelismos e movimentos temporais que evidenciam bem mais a capacidade de um diretor em set de filmagem como determinante para uma autoria em episódios isolados numa série de TV. Dessa forma, Missing Pieces, os tais curtas explicativos de tramas da primeira à terceira temporada da série se misturam na ordem de lançamento, provocando uma minissérie de curtas de Lost com uma história contada pelas conexões futuras e passadas que algum curta prega para a série como um todo, que sempre está a dinamizar os vetores dramáticos temporais pelo simples desenvolvimento de personagens cortados da série, ainda assim formando uma narrativa própria com a identidade de Lost.

Quando se aplica a objetificação do relógio, quando a “assombração” de Christian Sherpard, pai do protagonista Jack Shepard, indica ao filho, que ordinariamente joga pedras no mar, uma herança paterna que não usava, é quase um efeito metalinguístico com os espectadores que ao esperarem a 4ª temporada, nesse estado de ação de Jack, recebem um aviso quanto ao tempo. Sequencialmente, o curta seguinte impõe estranhamente ao personagem Hurley uma pressão quanto ao seu romance com a personagem Libby, quando um outro personagem bem mais secundário questiona seu romance com ela, que está relacionada com um evento impactante na 2ª temporada. Embora seja uma situação em primeira vista desimportante de dois homens disputando uma corrida para conquistar uma garota, até certo ponto se torna cômica, a trilha sonora de Giacchino orquestra um estranhamento de tensão, e mais uma vez um episódio remete ao tempo em que Hurley deve se apressar para conseguir firmar seu romance com Libby.

Percebe-se em dois episódios que o conhecimento pré-concebido da série, como exercício de atenção que ela exige do espectador, é necessário, assim como mais uma vez questionar a experiência do público quanto a prestar na composição artística conflui para formar a narrativa dos webepisodes, a mesma da série em curto espaço de tempo. A tal linguagem talvez perca drama por não administrar sequências longas e de espera por um mistério quanto aos personagens, mas no efeito de curta-metragem isso pode ocorrer de maneira mais intensa. É mais ou menos isso a que Ben Linus no terceiro episódio incita Jack sobre o imediatismo de sair da ilha, de descobrir as coisas, mas até que ponto a onisciência dela permite isso? Após o final da 3ª temporada, isso se torna ainda mais dramático para quem a assiste. E se o fã mais racional espera por respostas, o teste da websérie é tanto explicar conexões dos personagens Juliet e Michael com processos implícitos da ilha.

Vale citar novamente a paternidade em xeque e conflituosa que sempre se relaciona ao protagonista Jack e que inicia a série de curtas, da mesma forma essa temporalidade, seja da pressa ou da espera que se conectam para dar à narrativa mais unidade nos curtas. Tais personagens, Juliet e Michael, são simultaneamente representativos de mistério e explicação, ambos relacionados dramaticamente a aspectos familiares, como maternidade e paternidade, e um representativo por excessos de lacunas e que seria importante para a 4ª temporada, e outra recém-apresentada na 3ª temporada, e são exatamente esses personagens que têm mais destaque nos curtas. Embora eles tenham mais ênfase, assim como em Lost muitos dramas resvalam em outros personagens, se a Juliet tem muita relação com a ilha e com o drama de Jack de sair dela, Michael sempre teve relação dramática com o casal de coreanos, Jin e Sun.

Por isso que no episódio 7, alguma cena deletada da 1ª temporada, que talvez mostrasse o personagem professor de ciências bem antes dos últimos episódios em 2005, o diretor Jack Bender em meio a uma conversa de personagens, consegue retomar a tensão sexual e misteriosa de Michael e Sun no começo da série. Na contextualização de planos abertos e simples planos paralelos do rosto dos personagens com distância distinta (Michael mais pressionado por saber sobre o segredo de Sun e ela pressionada duplamente num plano mais aberto que mostrasse Jin do lado), Bender estabelece tal conflito que é quebrado pelo professor de geografia quanto a questionar a caverna descoberta no começo da série. Só nesse episódio na cena inteirada na 1ª temporada, após a sequência de 3 episódios sobre Juliet, sobre Michael, sobre bebês nascerem na ilha e sobre Walt, estabelecem-se dois dramas explicativos que pressionam o espectador a pensar no desenvolvimento dos personagens Jin e Sun como união e desunião do casal por fatores interpessoais e independentes deles ao longo da série; e um episódio mais humorado com o professor de geografia que chega na ilha indo atrás de um romance, que tanto exercita o poder roteirista da série tornar personagens interessantes, como referência conclusivamente, como praxe da série, uma explicação para o episódio metalinguístico Exposé da 3ª temporada.

Além disso, se Jin sempre foi mais isolado pela língua na série, os webepisodes questionam isso dentro da proposta de destino que Lost já apresentou, assim como linkar às revelações da 3ª temporada sobre a maternidade e a paternidade possível do casal, mesmo tema que vai narrando os episódios. Por isso, antes da finalização, o mistério escrito por J.J Abrams, adaptado ao método televisivo de apresentação para a cena deletada, envolve Juliet e a ilha como reverso de sua expectativa de berço de respostas científicas, assim como Ethan é humanizado, seja por mentira ou verdade quanto à temática de perder os filhos, algo intimamente conectado ao drama inicial da websérie. Se Christian Sherpard leciona a Jack a cuidar de um filho dele melhor que Christian cuidou de Jack, a loucura da autoral direção mais simbólica e imagética de Jack Bender explora a floresta da ilha, algo muito recorrente especialmente na linguagem visual da série no começo e que foi permanecendo especialmente com Bender quando ia dirigir algum episódio.

A ilha sempre foi um personagem da série, um personagem nunca desvendado completamente, e a trilha de Michael Giacchino enfatizava mais ainda isso. Finalmente, o último episódio usa a visão de Vincent, o cachorro de Walt, para introduzir e concretizar a narrativa da websérie. Se o relógio e o tema familiar percorrem os curtas, até mesmo a falta de par romântico para o professor de ciências, a cena deletada final é que torna a série Lost um grande planejamento progressivo, apontando para frente especulações nas salas de roteiristas. Se Vincent que assusta Jack na floresta após o abrir de olhos é algo planejado por alguém na ilha, a explicação tão “prelúdica” que esse episódio define, tendo em vista que são episódios lançados oficialmente, não só torna a proto introdução de boa legislação de roteiros serem bem pagos em território virtual, como engrandece o final destinado por uma escolha de Jack querer voltar para a ilha após anos de sua saída.

Lost: Missing Pieces (Idem | EUA, 2007-2008)
Direção: Jack Bender
Roteiro: Damon Lindelof, Carlton Cuse, Edward Kitsis, Adam Horowitz, Brian K. Vaughan, Elizabeth Sarnoff, Christina M. Kim, Drew Godard, J.J Abrams.
Elenco: Matthew Fox, Yunjin Kim, Harold Perrineau, Elizabeth Mitchell, Jorge Garcia, Daniel Dae Kim, John Terry, Michael Emerson.
Duração: 13 episódios – 2 a 3 minutos cada episódio – total de 30 minutos

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