Crítica | Loucademia de Polícia (1984)

Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu abriu os anos 80 já estabelecendo o padrão cômico da década, com sua trinca de diretores/roteiristas carregando seu estilo para outras pérolas como Top Secret!: Superconfidencial e Corra que a Polícia Vem Aí!, em uma saraivada de bom humor paródico que até hoje não tem paralelo. Era óbvio, portanto, que imitações inevitavelmente surgiriam ao longo da mesma década, com Loucademia de Polícia sendo um de seus mais bem-sucedidos expoentes e que gerou uma interminável franquia composta de nada menos do que sete longas (seis deles ainda nos anos 80), uma série animada de 65 episódios (de 1988 a 1989) e uma série live-action de 26 episódios (de 1997 a 1998).

Dentre os méritos do filme inaugural – e ainda o melhor de longe, mesmo não sendo tão bom assim – temos a efetiva revelação de Steve Guttemberg como ator cômico e a famosa e ainda hoje muito referenciada gag do bar gay The Blue Oyster, para onde inevitavelmente os vilões acabam parando depois de serem ludibriados pelos heróis. E, é claro, não se pode esquecer das icônicas notas musicais do tema composto por Robert Folk, que é, basicamente, a única trilha de todo o filme repetida à exaustão a cada cinco ou dez minutos (e sim, eu sei que você a está cantarolando agora).

A história é simples como deveria ser: inter-títulos de abertura informam que, devido à falta de policiais, a academia de polícia terá a obrigação de aceitar todo e qualquer recruta para treinamento. O caos segue, com diversos candidatos sendo apresentados em seguida em sequências curtas, dentre eles o malandro Carey Mahoney (Guttemberg), obrigado a se alistar para evitar ter que ir para a cadeia; Larvell Jones (Michael Winslow), que Mahoney conhece na delegacia e que se comunica apenas por “efeitos sonoros”; Karen Thompson (Kim Cattrall), a beldade rica que deseja quebrar paradigmas; Tackleberry (David Graf), o segurança de empresa que acha que é o Rambo e Moses Hightower (Bubba Smith), o gigantesco e superforte florista de bom coração. Em oposição a esse grupo heterogêneo, há o ardiloso tenente Harris (G.W. Bailey) cuja única missão é fazer com que os recrutas falhem miseravelmente no treinamento.

O que segue daí é o usual, ou seja, uma sucessão de situações cômicas que emprestam um caráter episódico à projeção, com algumas até inspiradas, mas muitas outras mais parecendo algo que os trainees de roteiristas que falharam no curso de cinema foram recrutados a escrever. E, claro, fica um aviso às suscetibilidades mais frágeis de hoje em dia: não há nenhuma preocupação com o politicamente correto, pelo que esperem mulheres nuas (só mulheres), machismo explícito, textos preconceituosos, sexo constante (a gag da prostituta no púlpito é clássica!) e a sempre “necessária” escatologia de ocasião. Ainda que, em linhas gerais, aqueles que conseguirem voltar no tempo e mergulhar no “espírito da época” consigam se divertir com o conjunto da obra, é notável que Loucademia de Polícia, apesar de ter sido o sucesso que foi, não conseguiu sobreviver bem ao teste do tempo como seus pares. Há uma certa preguiça dos roteiristas em sair do básico, em oferecer mais do que o dolorosamente óbvio na maioria do tempo, tornando o humor tão repetitivo e cansativo quanto a já mencionada música tema tocada em loop.

No entanto, uma coisa há que se reconhecer. O elenco, especialmente os nomes que citei acima, é carismático e consegue, em grande parte do tempo, suprir um pouco a falta de piadas melhores. Guttemberg é um achado na categoria de malandro cínico, assim como Bailey o é na categoria de antagonista enfezado. A oposição dos dois é divertida por si só, com os demais criando um recheio simpático, várias vezes até irresistível e por algumas outras poucas vezes, genuinamente hilário, como os efeitos sonoros de Larvell ou a truculência desmedida de Tackleberry. É como se o filme independesse de roteiro e trabalhasse mais no improviso, na reunião de um monte de cenas em que os atores interagem incorporando seus personagens sem maiores preocupações com detalhes como decupagem, montagem, ensaios ou coerência. Funciona de forma enviesada, ainda que exija que o espectador de hoje dispa-se de seu discurso PC e entre na brincadeira para que ele tenha alguma chance de funcionar.

Loucademia de Polícia é uma despretensiosa bobagem oitentista que nem de longe tem a veia cômica das obras que imita, mas que conseguiu, mesmo assim, cavar seu espaço e encontrar bons momentos (que seriam repetidos ad nauseam nas sequências, mas essa é outra história). Pode não ter resistido ao teste do tempo em sua integralidade, mas algumas de suas tiradas definitivamente perpetuaram-se e encontram eco até hoje em dia.

Loucademia de Polícia (Police Academy, EUA – 1984)
Direção: Hugh Wilson
Roteiro: Neal Israel, Pat Proft, Hugh Wilson (baseado em história de Neal Israel e Pat Proft)
Elenco: Steve Guttenberg, Kim Cattrall, Bubba Smith, Donovan Scott, Michael Winslow, Andrew Rubin, David Graf, Bruce Mahler, Marion Ramsey, Brant Von Hoffman, Scott Thomson, G. W. Bailey, George Gaynes, Leslie Easterbrook, George R. Robertson
Duração: 96 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.