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Crítica | Loucuras de Verão

por Gabriel Carvalho
649 views (a partir de agosto de 2020)

“O seu carro é mais feio do que eu!”

Contém spoilers.

Loucuras de Verão tem um universo bastante particular, apresentando, com as desventuras de uma juventude do início da década de sessenta, uma nação americana como outrora sonhada, contendo uma rebeldia prematura, ainda bastante juvenil. Antes de tudo, Loucuras de Verão entende o fiasco estadunidense posterior àquele verão de 1962, ano em que se passa o longa-metragem, antecedendo eventos cruciais da história do país. “O rock n’ roll está decadente”, comenta um dos personagens. Nessa época em especial, as canções ainda falam sobre amor, comportando-se como a própria juventude: contagiante, apaixonada, empolgada e divertida – características da primeira geração de filhos do pós-guerra. A guerra acabou quase duas décadas antes. Os americanos vivem a paz. Quase como um personagem por si só, os embalos musicais apresentados na obra, que contém uma trilha sonora composta de inúmeros clássicos, exprime o que o contexto significa para a história, quando a desesperança não existia. De certa forma, Loucuras de Verão, trazendo o seu recorte da felicidade, realmente ilusória, é uma obra que desmascara a magia, observação perceptível quando o filme incorpora, para dentro da sua narrativa, Wolfman Jack, o radialista que acompanha toda a trajetória dos personagens centrais, quase como uma presença superior, conduzindo aquela juventude abobalhada, despretensiosamente tentando encontrar eles mesmos através de diversão, namoradas e música.

Todavia, essa magia é momentânea, como quase tudo o que o longa-metragem representa. Por dentro de uma única noite, George Lucas é capaz de desenvolver interessantes conflitos, moldando personagens que representam algumas facetas da inocência americana que premedita tempos sombrios, como se uma semana inteira tivesse se passado. A realidade é que, dentro dessa linha do tempo encurtada, George Lucas demonstra a efemeridade das coisas: sonhos que se vão, decisões que mudam, pessoas que conhecemos brevemente, amores de uma noite só, loucuras de verões que não viriam a retornar. As ruas são ambientes de interação social, uma rede social na qual os jovens de uma pequena cidade se encontram através das janelas de seus carros. Por falar neles, os automóveis, assim como a música, também são coadjuvantes notáveis, dando origem ao embate climático entre John Milner (Paul Le Mat) e Bob Falfa (Harrison Ford). O mais veloz fracassa porque perde, e o vencedor fracassa porque não foi o mais veloz. Em seu segundo longa-metragem, George Lucas realiza uma obra extremamente sagaz, que acompanha trajetórias bastante despretensiosas para mostrar o fim da adolescência e o fim da inocência, no último momento possível para isso. Até mesmo os embates entre uma gangue criminosa e a polícia se resumem a uma ingenuidade meio burlesca. Uma época em que entrar numa briga para recuperar seu carro roubado era sinônimo de “diversão”.

A montagem vai intercalando bem cada uma das tramas, sem perder fôlego: o jovem que “termina” com a sua namorada pois irá para a faculdade; o jovem que decide não ir para a faculdade, mas começa a questionar sua decisão, apenas para se ver apaixonado aleatoriamente no meio da noite; o jovem sem os atributos de grandes galãs que consegue um carro de ponta e decide procurar por uma garota; o jovem que tenta encontrar uma garota em seu carro, socializando em frente ao sinal vermelho, mas que termina se vendo ao lado de uma adolescente muito mais nova, querendo se divertir enquanto pode. Além disso, o diretor não permite que nenhuma das tramas se sobressaia mais do que as outras, embora, nos termos gerais, a protagonizada por Curt (Richard Dreyfuss) é a mais significativa dentro do que a obra, enfim, significará para o espectador, contrapondo, em temática e direção, com a vivida por um Ron Howard mais apático, interpretando Steve Bolander. A relação dele com Laurie (Cindy Williams) funciona – ou não funciona – mais por mérito da atriz, bastante competente no papel. São jovens apaixonados que mal sabem o que é o amor. Quando o primeiro beijo é narrado, a raiva transforma-se em uma nostalgia que recupera um interesse no garoto, mesmo que ele não esteja interessado nela. Quando o garoto quer mais da garota do que ela quer oferecer, o desejo pela última noite juntos transforma-se em frustração. Por quanto tempo durará uma relação dessas?

Ao mesmo tempo que existe um otimismo no longa-metragem, com o roteiro encontrando saídas para as tantas problemáticas que são criados durante a projeção, o pessimismo é um agente futuro extremamente previsível, ditando as consequências das ações tomadas pelos jovens. Loucuras de Verão tem uma alma que percorre o longa-metragem através de considerável dose de humor, apuradíssimo, que se transforma, após a sessão, em passagens mais sérias sobre a juventude, como a narrativa envolvendo Terry “The Toad” Fields (Charles Martin Smith). O personagem é um representante da insignificância do ser, substituído pelo carro que dirige. Porém, quem é verdadeiramente Terry Fields? The Toad ou The Tiger, como mais tarde se apelidaria para Debbie Dunham (Candy Clark), tentando mascarar sua personalidade? Um garoto que mente para conseguir o que quer. Quem ele é, além das mentiras, torna-se uma pergunta para próximos capítulos, encontrando relação próxima com o espectador jovem, sempre a beira de seu próprio precipício de inseguranças. O futuro nunca esteve tão colorido quanto esse presente. Qual é o destino da dinâmica entre Milner e Carol (Mackenzie Phillips), senão ser apenas um pequeno momento no tempo? Os pedaços dessa grande história vão sendo concluídos, interligando-se no meio da jornada, trazendo o senso de que estamos diante de uma narrativa extremamente bem amarrada e coesa, sobre o fim e o futuro.

“Onde você estava em ’62?”, perguntava os pôsteres do filme. Mas onde você estaria no ano seguinte, nos anos seguintes, na década seguinte? Onde o povo americano se encontraria? Os protagonistas “decidem” os seus rumos, estão felizes. Loucuras de Verão, aparentemente, não é um filme sobre tristeza, mas sobre felicidade. Que seja sobre os dois, nessa antítese constante da vida. Acima de tudo, o grafite americano discursa sobre o fracasso norte-americano. No final do filme, Curt olha pela da janela do avião, aparentemente encontrando, bem distante dali, a garota de seus sonhos de uma única noite de verão, percorrendo a estrada rumo a qualquer lugar. Em uma sacada bastante genial, que desmonta uma visão mais ingênua sobre o longa-metragem, apenas um entretenimento adolescente puxando do nostálgico, embalado por clássicos charmosos e um visual mais do que elegante, informações sobre o futuro dos quatro protagonistas surgem durante a conclusão da fita, nos encaminhando para um sentimento de confronto com o que acabamos de ver e o significado de tudo aquilo. O garoto que permaneceu na cidade permaneceria na cidade. Um morreria tragicamente, também na cidade. Aquele que foi para a guerra não voltaria dela. O que saiu da cidade encontrou o sucesso. Um sentimento de não conformismo, mas não com a vida pacata em cidades pequenas, mas com a vida nos Estados Unidos. Afinal, ele foi morar no Canadá.

Loucuras de Verão (American Graffiti) – EUA, 1973
Direção: George Lucas
Roteiro: George Lucas, Gloria Katz, Willard Huyck
Elenco: Richard Dreyfuss, Ron Howard, Paul Le Mat, Charles Martin Smith, Candy Clark, Mackenzie Phillips, Cindy Williams, Wolfman Jack, Bo Hopkins, Harrison Ford, Manuel Padilla Jr, Lynne Marie Stewart, Terry McGovern, Kathleen Quinlan, Scott Beach, Susan Richardson, Kay Lenz, Joe Spano, Debralee Scott
Duração: 112 min.

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5 comentários

Fórmula Finesse 9 de setembro de 2019 - 17:21

Passou ontem na Band, aproveitei para rever – após muitos anos – esse verdadeiro clássico. Covardia quando lá pelas tantas tocou Buddy Holly hein? E um dos alicerces, talvez o principal, daquela cultura? Os carros é claro, as avenidas coloridas, as misturas de formas e cores sobre rodas, a versatilidade que permitia “provar a virilidade” num racha ou o ninho que embalava os casais…
O traumático ano de 1963 já iria começar e a guerra começaria a recrudescer de verdade em 1965, o sonho se tornaria epitáfio muito em breve.
Fantástica a crítica!

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Edson A. de Araújo 11 de novembro de 2018 - 15:12

É impossível assistir esse filme e não corre atrás da trilha musical em seguida. Ótima crítica.

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Gabriel Carvalho 16 de novembro de 2018 - 16:37

Eu amo a trilha desse filme. É uma das minhas favoritas. VALEU!

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Daniel Arendt 2 de agosto de 2018 - 16:56

Filme que marcou minha adolescência e forjou para sempre o meu gosto musical pelos clássicos do Rock, fazendo com que eu iniciasse minha coleção de músicas dos anos 50 e 60 , que para mim é a melhor.

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Gabriel Carvalho 3 de agosto de 2018 - 18:20

Também adoro as músicas dos anos 50 e 60, mas também tenho uma quedinha pelo rock dos anos 70.

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