Crítica | Love – A História de Lisey, de Stephen King

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Quando Stephen King quase morreu após ser atropelado por uma caminhonete no fim dos anos 90, sua esposa resolveu organizar o estúdio do marido, que convalescia no hospital. Ao retornar para casa e ver o estúdio mudado, King passou a imaginar como teria sido o ambiente se ele tivesse morrido, e a que tipo de pressão sua esposa teria sido submetida. Foi desse cenário que nasceu a ideia que se tornou o romance Love- A História de Lisey, que se tornou um dos trabalhos favoritos do escritor.

O livro acompanha Lisey Landon, uma viúva que perdeu o marido Scott, famoso escritor de histórias de suspense, morto por pneumonia dois anos antes. Nesse meio tempo, ela vem sendo pressionada por fãs e pela imprensa para liberar todo o material póstumo deixado por seu marido, mas ela ainda não está pronta pra mexer em seus pertences. Quando um fã fanático e psicótico de Scott começa a persegui-la, Lisey é obrigada a reviver lembranças do passado de sua relação com o amado que havia suprimido. Essas lembranças envolvem os relatos da traumática infância de Scott e de um mundo paralelo chamado Boo’ya Moon, que seria a fonte das ideias do falecido escritor.

A História de Lisey (que sabe-se Deus por que, ganhou a palavra Love como título principal na tradução brasileira) é um romance bem curioso do King, que vagueia por vários gêneros como o suspense psicológico, a fantasia de horror e o drama intimista. O primeiro terço do livro parece ser fortemente influenciado pela obra de Edgar Allan Poe. A protagonista passa a maior parte do tempo sozinha em sua casa, assombrada não pelo fantasma de Scott, mas sim por suas lembranças, conflito comum de muitos personagens de Poe e que aqui é tomado emprestado por King.

Assim, mesmo que Scott já esteja morto quando a história começa, ele se torna um personagem forte e presente dentro da trama. O autor utiliza-se do recurso do flashback pra criar idas e vindas no tempo — e algumas vezes há flashbacks dentro de outros flashbacks. Felizmente, nunca ficamos perdidos dentro da narrativa, graças à escrita fluída e precisa do autor. Outro ponto interessante é que o romancista desenvolveu um vocabulário interno para o casal, cheio de termos que só eles entendem. Confesso que alguns deles acabaram me soando um pouco bobos, o que me tirou um pouco da narrativa, mas nada que seja realmente grave, já que reforça a grande intimidade do casal protagonista.

 O tema do fanatismo cultural, já retratado por King em Louca Obsessão volta a ser abordado aqui em uma representação interessante da loucura, embora o stalker de Lisey esteja longe de figurar entre os vilões humanos mais interessantes ou assustadores de King. Mas o tema principal de A História de Lisey é mesmo o amor. O autor realmente consegue nos fazer acreditar na relação de intimidade e companheirismo que havia entre Lisey e Scott, o que era vital para que o livro funcionasse. Por outro lado já não é tão feliz assim ao retratar a relação da protagonista com a irmã Amanda, que a certa altura da trama ganha uma grande importância. A relação das duas irmãs acaba não funcionando não só pela participação de Amanda se tornar um ponto um pouco forçado do enredo, mas também por King não conseguir transmitir credibilidade nenhuma na relação de intimidade entre as duas mulheres.

No geral, A História de Lisey revela-se um dos trabalhos mais intimistas de Stephen King. Está longe de ser o melhor trabalho do autor, já que em alguns momentos o livro se revela um pouco arrastado, e King escorrega bastante no clímax, gerando desfechos um pouco fracos e insatisfatórios. Mas há um certo caráter experimental no livro pela forma de idas e vindas no tempo que a narrativa emprega, e por sua pegada Poeniana. Vale a conferida.

Love- A história de Lisey (The Lisey’s Story) – EUA, 2006.
Autor: Stephen King
Editora: Ponto de Leitura, 2011.
Tradução: Fabiano Morais.
673 Páginas.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.