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Crítica | “Love & Hate” – Michael Kiwanuka

por Kevin Rick
254 views (a partir de agosto de 2020)

Standing now

Calling all the people here to see the show

Calling for my demons now to let me go

I need something, give me something wonderful

Love & Hate começa sua jornada poética (lírica, mas especialmente sonora) com o épico de quase 10 minutos Cold Little Heart composto por duas partes distintas, a primeira em torno de cinco minutos apenas instrumentais de uma melodia angelical, um coro suave e uma seção de cordas arrebatadora e vibrantes a la Motown, piano de jazz e órgão psicodélico, antes do vocal surpreendentemente autoconfiante de Michael Kiwanuka entrar na mistura alternando entre sua guitarra uivante e sua voz áspera, trêmula e triste. É uma faixa verdadeiramente grandiosa para iniciar a obra, e dita o tom de embalagem musical de blues, folk e soul com uma mensagem de contradição sobre si mesmo, como na letra “My cold little heart / Oh I, I can’t stand myself” e logo depois, na mesma canção, “Maybe this time I can be strong / But since I know who I am / I’m probably wrong“. Um álbum verdadeiramente sobre pertencimento.

A segunda faixa da obra, Black Man In a White World, cheia de palmas com uma musicalidade meio gospel, pega essa ideia de pertencimento, inicialmente pessoal, e agora social – o álbum pula de um âmbito ao outro -, e propõe sua visão crítica de exasperação política com o papel do negro na sociedade através do rock/soul ora angustiante, ora energético em uma (quase) ilusão musical para o eu-lírico – Marvin Gaye, alguém? -, transpondo um resultante som nostálgico em uma alma progressiva com mensagens de incrível urgência em seu coração, como injustiça social, racismo, violência, abandono e exclusão. Além disso, na mesma faixa, é possível ver a inserção da mesma contradição do artista na parte: “I’m in love but I’m still sad / I’ve found peace but I’m not glad“, fazendo com que sua abordagem nostálgica seja ainda mais justificada por abordar os mesmos problemas de artistas dos anos 70.

O restante da obra assume a catarse emocional e jornadas internas, e a sonoridade de resgate do álbum não tem exatamente um efeito de homenagem, mas de protesto pela atemporalidade destas várias dificuldades sociais. É curioso como que tematicamente é uma obra densa e observacional, mas minha experiência pelo menos foi a de uma contemplação sonora com a dor da injustiça racial adoçada por cordas doces e vocais de apoio celestiais, uma harmonia que mescla uma poesia deprimente em vários violinos – especialmente Fathers Child, sobre a relação do artista com religião – com um arranjo de blues dolorido. Se o lírico é crítico, a sonoridade do álbum é a poesia musical de um coração partido num mar de emoções que vão desde raiva e indignação em Black Man In a White World, a incompreensão do amor na melodia exuberante de I’ll Never Love, até o cansaço em Falling, uma faixa sobre um homem que não pode fazer nada sobre a condição em que está.

Na faixa-título, Love & Hate, o arranjo reforça com sentimentalidade e graciosidade o questionamento que sumariza a proposta da obra: “Love and hate/ How much are we supposed to tolerate?“, mas mantém o protesto logo em seguida com “You can’t break me down / You can’t take me down“. Dessa forma, o segundo álbum de Michael Kiwanuka reúne problemas pessoais e políticos em uma viagem emocionante sobre pertencimento humano, romântico, social e musical, trazendo a nostalgia soul e blues setentista no seu indie rock como reclamação corajosa da falta de mudança. E também não machuca que seu discurso direto é reforçado por uma sonoridade angustiantemente épica e um vocal que personifica os vários sentimentos de Love & Hate: tristeza, queixa, indignação e, acima de tudo, uma confissão dolorosa de amor e ódio.

Aumenta!: Black Man In A White World
Diminui!: Nenhum!
Minha canção favorita do álbum: Cold Little Heart

Love & Hate
Artista: Michael Kiwanuka
País: Estados Unidos, Reino Unido
Lançamento: 15 de julho de 2016
Gravadora: Interscope Records / Polydor Records
Estilo: Indie rock, Folk rock, Blues, Soul

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