Home TVEpisódio Crítica | Lovecraft Country – 1X03: Holy Ghost

Crítica | Lovecraft Country – 1X03: Holy Ghost

por Ritter Fan
6786 views (a partir de agosto de 2020)

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série.

O que esperar de Lovecraft Country depois do que a série conseguiu despejar magistralmente em seus dois episódios iniciais? Estava sinceramente receoso que Misha Green não tivesse a coragem ou mesmo material suficiente para continuar no mesmo ritmo, que ela fosse acalmar as coisas, rearrumar o tabuleiro para começar outro arco. Mas a grande verdade é que a showrunner não está nem um pouco interessada em parar para respirar ou deixar que o espectador relaxe sequer por um segundo. Holy Ghost não só paga para ver, como o faz em uma estrutura clássica de casa mal-assombrada em um episódio eminentemente auto-contido, mas que ao mesmo tempo consegue deixar a narrativa sobrenatural principal perfeitamente viva sem, claro, afastar a mira da questão racial dos EUA nos anos 50, o verdadeiro objetivo da série.

E olha que Green faz finta e usa os primeiros 10 minutos não só para “bater o martelo” na morte do tio George (mais sobre ele adiante para explicar as aspas), como também para recomeçar de maneira razoavelmente calma, ainda que sem perder a energia, com as pistas sobre o mistério da vez já sendo indicado no texto que abre o capítulo, porque sutileza não é nem de longe uma característica da série. Na história, Leti, usando dinheiro de origem misteriosa, compra uma mansão no lado norte – e branco – de Chicago, convidando sua irmã Ruby para lá morar e convertendo o lugar em uma pensão para negros. Lógico que isso não passa despercebido dos “simpáticos” vizinhos racistas que começam a sabotar a permanência dela e a de seus hóspedes, hóspedes esses que incluem Tic, agora inquieto, não querendo continuar morando com a tia, não sendo aceito por seu pai e pensando em voltar para a Flórida.

Como no episódio anterior, tudo acontece muito rapidamente, sem enrolação, sem perda de tempo. Já de início, quase que emulando filmes trash do gênero dos anos 80, vemos “mãos flutuantes em carne viva” puxando a coberta de Leti e um rosto deformado ao lado de sua cama. Barulhos no sótão a levam a descobrir um quarto abaixo de onde saem vozes desencarnadas e tentativas misteriosas de se abrir o alçapão. E, como ela e Tic já viveram o que viveram, o roteiro pula aquela fase irritante dos filmes de terror que determina que as potenciais vítimas permanecerão em negação até não poder mais e vai direto para a pancadaria fantasmagórica que novamente parece bem menos assustadora do que os exemplos horrorosos de racismo explícito que Leti sofre ao longo da narrativa.

O objetivo, portanto, é manter a cinética da série e isso Daniel Sackheim consegue novamente, desta vez com a vantagem da quase que completa auto-contenção do episódio e da estrutura mais, digamos, familiar de mansão mal-assombrada, que torna explicações desnecessárias, abrindo espaço para a ação que é muito – mas muito – bem conduzida, seja na excepcional sequência da cerimônia de exorcismo vudu que se converte em Leti, de mãos dadas com as vítimas que assombram a casa, acabando com o cientista nazista que possuíra Tic, seja na ação paralela em que os vizinhos racistas invadem a casa somente para ganharem merecidos e sanguinolentos fins, daqueles que inevitavelmente extrairão sorrisos do espectador. E isso porque sequer falei da maneira como Sackheim lida com Leti na festa de inauguração, desaguando na sequência de sexo entre ela e Tic, com resultado surpreendente ou da maneira dolorosa como ele retira excelentes atuações de Jurnee Smollett contracenando com Wunmi Mosaku na cena em que Leti revela o que acha ser a origem do dinheiro para Ruby e como ele lida com as sequências de tristeza profunda de Hippolyta (Aunjanue Ellis) pela morte de George e com a depressão de Montrose (Michael Kenneth Williams). Dentro da excelente abordagem sobrenatural, são os momentos humanos que realmente chamam a atenção e, aqui, com o foco intenso em Smollett, a atriz tem espaço para brilhar ainda mais.

E o melhor é que, como disse logo no começo da presente crítica, o conduíte que faz a conexão entre as aparentemente separadas histórias é mantido intacto. Aqui, ele acontece por intermédio da coda que revela que Tic ficou com uma pulga atrás da orelha sobre a origem do dinheiro de Leti e o porquê da compra exatamente daquela casa, o que o leva a descobrir que tudo foi orquestrado por Christina Braithwhite, novamente revelando-se como uma feiticeira de mão cheia e com objetivo escuso que, não tenham dúvida, será a maneira que Green encontrou para manter a história perfeitamente conectada. É possível que alguns considerem esse arremate final forçado e deslocado na história, mas tenho para mim que ele apenas termina de embalar com um belo papel de presente uma história já excelente. O dinheiro que caiu no colo de Leti simplesmente não podia ser só isso mesmo e a aquisição daquela mansão específica não poderia ser obra do destino.  Além disso, a série não poderia se arriscar tanto em dar a entender que sua estrutura é de pequenas histórias soltas sem uma costura maior, sob pena de criar uma impressão de antologia. Portanto, o embate entre Tic e Christina conversa muito bem e, mais ainda, arremata muito bem tudo o que aconteceu, inclusive potencialmente explicando o “George” que a brincadeira das crianças no tabuleiro Ouija acaba criando, o que pode indicar que ele está por aí pelo menos em espírito, podendo ainda aparecer na medida em que a temporada evolui.

Acabo meu comentário fazendo a mesma pergunta: o que esperar agora de Lovecraft Country? Misha Green está nos acostumando mal ao entregar tanto em tão pouco tempo. Mas não, isso não é uma reclamação de forma alguma, pois, pelo visto, ela parece ter um plano enlouquecido para essa que começa a se revelar como o grande achado de 2020 em termos de séries novas. Sei que é a segunda vez que digo isso esse ano – a primeira foi com Perry Mason -, mas não posso fazer nada se a HBO só tem acertado!

Lovecraft Country – 1X03: Holy Ghost (EUA, 30 de agosto de 2020)
Showrunner: Misha Green (baseado em romance de Matt Ruff)
Direção: Daniel Sackheim
Roteiro: Misha Green
Elenco: Jurnee Smollett, Jonathan Majors, Michael K. Williams (Michael Kenneth Williams), Aunjanue Ellis, Abbey Lee, Jada Harris, Wunmi Mosaku
Disponibilidade no Brasil: HBO
Duração: 60 min.

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