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Crítica | Lovecraft Country – 1X06: Meet Me in Daegu

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série.

Sei que Lovecraft Country oferece generosas doses de importantes e atuais críticas sócio-políticas e eu simplesmente adoro essa pegada, mas o que essa série desenvolvida por Misha Green com base no romance Território Lovecraft, escrito por Matt Ruff, realmente tem de mais sensacional é sua capacidade de fazer surpresas serem seguidas do inesperado, somente para que ele seja sucedido pelo imprevisível sem nunca, em momento algum, abrir mão de seu norte e de seu espírito. Meet Me in Daegu é, possivelmente, o maior exemplo disso, já que o episódio inteiro poderia muito facilmente ser um capítulo de Além da Imaginação ou de outra série em formato de antologia, já que ele não só é auto-contido (ou quase), como, sem cerimônia alguma, muda o tom, levando a ação para a Coréia do Sul às vésperas e durante a Guerra da Coréia para contar uma história de amor com toques de horror.

Tudo bem que em algum momento a história de Atticus com Ji-Ah (Jamie Chung), que vimos somente duas vezes ao longo da temporada até agora, uma na versão benigna no sonho de abertura do primeiro episódio como uma princesa alienígena e uma versão maligna na alucinação de Atticus no segundo episódio como uma soldada, seria contada, mas realmente não esperava um episódio inteiro dedicado a isso, especialmente um sob o ponto-de-vista narrativo da própria misteriosa personagem, com todos os detalhes e requintes sanguinolentos que aprendemos a esperar da série. Mas é isso que Meet Me in Daegu é, um capítulo destacado de tudo o que veio antes que exige até mesmo um reajuste mental para que o espectador possa absorver os novos cenários, personagens e, claro, a belíssima atuação de Chung exatamente como esse ser duplo, uma entidade mística das lendas coreanas – a raposa de nove caudas conhecida como kumiho – que habita o corpo de uma jovem humana e que tem o hábito, além de ver filmes de Judy Garland, de colher almas de homens desavisados da maneira mais explosiva possível. Em outras palavras: diversão de alto nível garantida do começo ao fim.

Considerando o que Lovecraft Country apresentou até agora, essa guinada total não é exatamente uma surpresa completa, mas a coragem da showrunner em paralisar a história que finalmente vinha tomando forma para empregar um episódio inteiro em um flashback detalhado sobre Ji-Ah é de se aplaudir, especialmente considerando que, financeiramente, estamos falando de cenários dedicados, direção de arte específica, além de um quase que integralmente novo elenco falando não em inglês, mas em coreano por boa parte do tempo em razão de apenas 60 minutos de projeção. Poucos criadores teriam a coragem de propor isso e poucas produtoras bancariam esse tipo de esbanjamento audiovisual, o que, no final das contas, é mais um aspecto que torna a série algo realmente especial.

A forma como o roteiro costura a lenda de kumiho, que tem versões chinesas e japonesas, com as necessidades narrativas da série, sem porém, depender de conhecimento prévio de qualquer coisa (até mesmo de Lovecraft Country!) para ser apreciado é exemplar, com uma narrativa que, claro, não é nada discreta e revela imediatamente o segredo, marca da temporada, mas que em momento algum é didática ou enfadonha, mesmo que talvez seja um pouco mais longa do que o necessário. Além disso, ainda que a segregação racial fique em segundo plano – ainda que existente – Green e Kevin Lau substituem esse aspecto tão caro à série por comentários ácidos e inclementes sobre a guerra em geral e sobre a participação dos EUA em particular, além de toda a paranoia anti-comunista que serviu como uma das justificativa para o conflito.

Toda a história pregressa de Ji-Ah – os estupros do pai, a negligência da mãe, seu alijamento social, a perda de sua melhor amiga – é abordada com cuidado, respeito e enorme carinho, o que acaba mais uma vez escancarando o fato de que o horror maior não vem de monstros míticos sugadores de almas, mas sim de nós mesmos, seres humanos falhos, frágeis e perdidos em nosso próprio egoísmo. Nem mesmo o Atticus de Jonathan Majors é poupado, com o ator finalmente tendo oportunidade de mostrar uma latitude dramática que até agora havia sido sufocada pela presença magnética de Jurnee Smollett.

Com uma fotografia de cores quentes no que se refere a Ji-Ah e seu “ninho de amor” que são suavizadas nas tomadas externas relacionadas com a guerra, o episódio consegue manter, de longe, o visual da série como um todo, mas sem deixar de ter personalidade própria e específica, além de respeitosa à arquitetura e simbologia coreana (pelo menos até onde pude perceber, lógico). E, claro, como de praxe, a equipe de efeitos especiais – tanto CGI quanto práticos – merece parabéns pela qualidade do trabalho na cena tórrida de sexo de Ji-Ah com sua vítima coreana que por alguns segundos me lembrou a de Bilquis, em American Gods.

Meet Me in Daegu é sem dúvida um desvio narrativo em momento adiantado da temporada inaugural de uma série, algo que pode resultar em estranhamento, mas se todo episódio “descompassado” fosse como este aqui, essa questão jamais seria sequer levantada. Misha Green mais uma vez acerta ao rasgar o manual de produção de séries e desafiar o espectador com um capítulo que, na pior das hipóteses, pode ser visto como um dos melhores fillers jamais feitos.

Lovecraft Country – 1X06: Meet Me in Daegu (EUA, 20 de setembro de 2020)
Showrunner: Misha Green (baseado em romance de Matt Ruff)
Direção: Helen Shaver
Roteiro: Misha Green, Kevin Lau
Elenco: Jurnee Smollett, Jonathan Majors, Michael K. Williams, Aunjanue Ellis, Abbey Lee, Jada Harris, Wunmi Mosaku, Deron J. Powell, Jamie Chung
Disponibilidade no Brasil: HBO
Duração: 60 min.

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