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Crítica | Lovecraft Country – 1X07: I Am.

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série.

Não sei nem por onde começar a escrever essa crítica. Ao mesmo tempo que I Am. é uma espécie de enlouquecido resumo temático de toda a série até agora, ele é, também, a partir de certo ponto, uma viagem lisérgica tão arrebatadora que fiquei completamente sem reação quando os créditos começaram a aparecer na tela. Não foi apatia. Foi estupefação mesmo, daquelas que te deixa aturdido por uns cinco dias. Mas, claro, tive que mergulhar a cabeça em uma tina com água e gelo e começar a escrever isso. Se não fizer sentido nenhum… bem… eu tentei pelo menos.

Quando disse que o episódio é um resumo temático, quis apenas salientar que seu roteiro é uma eficiente maneira de encapsular o coração de Lovecraft Country que, claro é o comentário social sobre o preconceito. Principalmente o racial, mas há diversas pitadas do preconceito de gênero que, aqui, ganham o mesmo tratamento. Se por um lado temos Tic enraivecido pela confirmação de que seu pai é gay e que sua mãe sabia, algo que não esperamos dos “mocinhos” que queremos gostar e, por isso, não gostamos de nos deparar com seus defeitos, por outro Hippolyta, em sua viagem de auto-conhecimento, nos diz, muito claramente, que, em nossa realidade, os negros são apenas e exclusivamente aquilo que os brancos querem que eles sejam. E, mais ainda, as mulheres não passam também de seres que estão a serviço do homem, aqui não interessando a cor da pele.

Exagero? Irreal? Isso não existe? Ou isso só existia no “passado”? Bem, sabemos que o buraco é mais embaixo, não é mesmo?

Ainda que levemente didático, esse é exatamente o cerne da questão. Homossexualidade e outras orientações sexuais são anormalidades, negros são meramente tolerados, mas desde que em seus respectivos cantos e olhe lá e mulheres são serviçais, cozinheiras e, claro, progenitoras. Dói, não é? Mas é para doer mesmo tanto no sujeito ativo quanto no passivo desse imbróglio sócio-econômico-político. Essa é a grande função da série: encurralar os que estão fora dessa problemática e tornar impossível aquela virada estratégica de rosto, aquele fechar de olhos, aquele balbuciar que começa a soltar palavras que se parecem como “veja bem, não é bem assim”.

Para fazer isso de maneira eficiente, o episódio foi basicamente dividido em duas metades, a primeira delas continuando a história a partir de A History of Violence e Strange Case, o que coloca o episódio-flashback Meet Me in Daegu no banco de reservas pelo momento, e a segunda focando exclusivamente em Hippolyta e sua jornada interdimensional depois que ela descobre o segredo do planetário e mata um policial, abrindo um portal. E essa divisão é importante, diria até mesmo essencial, considerando que a temporada está acabando e precisava avançar com sua história principal de maneira ordenada e mais um capítulo inteiro dedicado a uma viagem para fora dos EUA poderia travar a temporada.

Na primeira parte, Tic, depois da altercação com o pai que o deixa abalado, parte para St. Louis para descobrir mais sobre seu passado e para achar o Livro dos Nomes que ele e Leti acreditam existir ainda intacto. Chegando lá, as informações passam a ser esparsas e o máximo que ele nota é que ele compartilha uma mancha (de nascença?) na pele com sua tia. O que isso significa, além de uma ancestralidade importante que já foi assim determinada, ainda é muito cedo para saber, mas, com esse novo conhecimento, ele é basicamente trazido de volta para salvar sua tia dos policiais em uma elipse que me incomodou muito por parecer teletransporte, mas que tenho que apenas aceitar no final das contas (isso sem falar no mistério sobre para aonde afinal ele foi quando atravessou o portal e o que é aquela meta-referência com o livro Lovecraft Country, só que de autoria de George Freeman, em sua mão?).

Em Chicago, Leti reconcilia-se com Ruby finalmente, algo que vem rápida e facilmente demais, com sua meia-irmã vindo de uma experiência daquelas que mudam um vida e aceitando tudo com muita tranquilidade. Há, diria, algo de muito podre ali e desconfio que Ruby, agora, é uma espiã de Christina, algo que se torna particularmente mais provável pela forma como o roteiro de Misha Green e Shannon Houston investe tempo na conversa das duas diante das fontes da poção mágica de transformação em que Ruby quer saber cada detalhe do que está acontecendo. Ou Ruby cobiça esse poder para si ou ela está em conluio com Christina. Seja uma coisa ou outra, isso não parece que vai acabar muito bem.

Na segunda metade, Hippolyta viaja por dimensões, sendo o que ela quer ser em cada uma delas, algo que dialoga muito bem com o tipo de magia oferecida por Christina a Ruby em Strange Case. Mas a coisa, aqui, é de outra ordem completamente, com um mergulho sensacional na ficção-científica lisérgica que bebe de Lovecraft com suas entidades de horror cósmico – aqui uma mulher negra semi-robótica com um gigantesco afro, algo que faria o autor ter um ataque cardíaco -, dos filmes sci-fi dos anos 50 (como uma versão da astronauta que sua filha desenha), de lendas de Amazonas e, claro, com uma pitada de anos 20 em Paris com uma visita a Josephine Baker (Carra Patterson) que, para quem não conhece, foi uma americana negra que não coincidentemente nasceu em St. Louis e se mudou para Paris, tornando-se uma sensação no entretenimento, além de ter ajudado na Resistência Francesa e de ter sido ativista de direitos civis. E isso sem contar com o fato de ter sido a primeira negra a atuar em destaque em uma produção cinematográfica (A Sereia Negra, de 1927) e maçom. Mais uma vez, uma escolha que se encaixa perfeitamente com a série como um todo, algo que também pode ser dito da pegada afro futurista e da citação do compositor e “filósofo cósmico” Sun Ra sobre o mito de ser negro.

De Hippolyta, a dançarina para Hippolyta, a matadora de brancos, em seguida Hippolyta, a esposa de George que abre espaço para Hippolyta, a descobridora, para que ela finalmente revele-se como Hippolyta, a mãe de Dee, as viagens de auto-descoberta são inacreditáveis, pegando o horror cósmico e virando-o do avesso. Não só, mais uma vez, os efeitos especiais são de se tirar o chapéu, como cada momento contribui para desconstruir e construir a personagem, com Aunjanue Ellis simplesmente espetacular no papel (e o retorno de Courtney B. Vance como George – mas não da maneira que esperávamos, claro – também ajudou). Muito sinceramente, mais do que todas as críticas sociais e políticas, mais do que todas as atuações magníficas e mais do que uma série de horror, Lovecraft Country é, para mim, exatamente o que essa viagem representa: o inesperado. A cada semana é como experimentar algo 100% novo, emocionante e sensacional, em uma estrutura seriada que realmente por vezes parece muito mais uma antologia do que uma história contínua.

E esse tipo de experiência televisiva é rara, mesmo considerando a generosa oferta de séries, minisséries e telefilmes que temos hoje em dia. Poder afirmar que, faltando apenas três episódios para a temporada acabar, não tenho a mais remota ideia qual é o caminho que Misha Green seguirá e ficar feliz com isso não é algo trivial, que acontece no dia-a-dia. Ficarei aqui, sacudido por esse espetáculo audiovisual, balbuciando palavras sem sentido e esperando a próxima dose no domingo que vem e já sofrendo de antemão pela proximidade do fim…

Lovecraft Country – 1X07: I Am. (EUA, 27 de setembro de 2020)
Showrunner: Misha Green (baseado em romance de Matt Ruff)
Direção: Charlotte Sieling
Roteiro: Misha Green, Shannon Houston
Elenco: Jurnee Smollett, Jonathan Majors, Michael K. Williams, Aunjanue Ellis, Abbey Lee, Jada Harris, Wunmi Mosaku, Courtney B. Vance, Carra Patterson, Carol Sutton
Disponibilidade no Brasil: HBO
Duração: 60 min.

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