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Crítica | Lovecraft Country – 1X09: Rewind 1921

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série.

O Massacre Racial de Tulsa foi quase que literalmente recolocado na história americana por Watchmen em 2019 e Lovecraft Country vinha usando esse terrível e por muitos anos “esquecido” evento para lidar com a família de Tic por parte de mãe, já que todos teriam morrido em 1921. O episódio da semana, portanto, leva os protagonistas de volta a esse momento no passado, por intermédio da máquina transdimensional e temporal usada por Hippolyta em I Am. para que eles recuperem o Livro dos Nomes, que eles já haviam determinado que era de propriedade dos parentes de Tic, para salvar Dee do feitiço que o finado capitão Lancaster lançara sobre ela.

Para fazer isso, a primeira coisa que o episódio faz é não utilizar Ji-Ah na história. Não há nem traço de uma personagem que ganhou um episódio inteiro para contar seu passado e sua conexão com Tic e que apareceu novamente por alguns segundos completamente deslocados em Jig-a-Bobo. Isso é absolutamente irritante, pois tudo leva a crer que ela somente aparecerá novamente ou  para salvar todo mundo no último segundo, ou para formar uma espécie de Liga da Justiça Sombria para lutar contra Christina e quem mais ela arregimente para seu lado (Ruby talvez?). Ou seja, será um personagem no mínimo subutilizado, mas muito provavelmente desperdiçada mesmo. Pronto, falei mesmo.

A segunda coisa que o episódio faz é o que eu desconfio que a série fará com Ji-Ah, ou seja transformá-la em um deus ex machina qualquer. Afinal, Hippolyta chega providencialmente no exato momento em que ela é necessária para doar sangue para que sua filha possa ganhar mais 24 horas com o feitiço de Christina e, depois, consertar e ativar a máquina transdimensional usando seu conhecimento de 200 anos passeando pelo futuro e passado de sei lá quantas dimensões. Não se enganem, pois é um prazer ver a personagem retornar à série, mas a maneira como isso acontece causa aquele incômodo lá no fundo da mente que nunca é completamente apagado, já que havia outras dezenas de maneiras mais suaves para isso acontecer.

No entanto, a viagem no tempo é sem dúvida alguma interessante, especialmente considerando o poderoso diálogo entre Montrose e Tic tendo o assassinato de Thomas como terrível pano de fundo. É bem verdade que esse trauma de Montrose nunca foi sequer minimamente abordado antes, mas o próprio personagem sempre foi extremamente resguardado e calado, resultado de anos de sofrimento por não saber e/ou não aceitar quem e o que ele é, algo que é amplificado pelo Massacre de Tulsa em si, lógico. Portanto, o fato de haver uma certa dose de diálogos explicativos aqui sobre algo que ainda não tínhamos pista alguma não atrapalha e Jeffrey Nachmanoff, na direção, sabe manejar muito bem a forma como as dolorosas revelações vão acontecendo.

Michael K. Williams e Jonathan Majors já tiveram alguns bons momentos juntos ao longo da série, incluindo a conversa na calçada no episódio anterior, mas é aqui que os dois realmente tomam conta do cenário. O sofrimento e a dor de duas vidas entrelaçadas são derramados brilhantemente em olhares ao mesmo tempo amorosos e raivosos em uma sequência que trabalha muito bem as emoções e contextualizam e explicam – não necessariamente justificam, vejam bem – os anos de abuso do pai sobre o filho e a raiva que o filho sente do pai. A catarse do momento, tendo o brutal assassinato de Thomas como razão de ser, é forte, com a inserção de Tic como um herói do passado (ou do futuro) multiplicando esse efeito em um daqueles paradoxos que são de rigueur em todas as tramas que lidam com viagem no tempo.

Enquanto pai e filho se reconciliam em meio a mortes e violência, Leti tenta achar o livro na casa dos antepassados de Tic. A simbologia do fogo, das mortes e de tudo o que ocorre é sublinhada pela leitura do poema Catch the Fire, da ativista Sonia Sanchez, um dos mais importantes nomes do movimento pelos direitos civis dos EUA. Nele, a autora cria uma ponte entre passado e futuro por meio do fogo (aqui entendido como raiva, mas também esperança) e por meio do passado que informa o presente. A sequência em que vemos a avó de Dora pegar fogo enquanto rezando de mãos dadas com Leti é quase que a literal representação do poema, com a necessidade de ela morrer para que o futuro aconteça e, depois, pelos nomes reais de pessoas que morreram em Tulsa que Montrose lista enquanto Leti caminha pela rua sublinhando a relevância do que é declamado.

Por outro lado, a sequência me pareceu – em termos de gosto e tato – uma reedição da cena em que Christina é morta exatamente como Emmett Till no episódio anterior. Leti invulnerável vendo a senhora pegar fogo foi estranho, deslocado não pela força da cena e não pelos eventos ao redor, mas justamente por Leti nada sentir fisicamente. É até difícil de explicar, mas, ao mesmo tempo em que a sequência coloca o espectador literalmente no meio do massacre, ela torna a coisa caricata demais por haver alguém com “super-poderes” ali que escolhe nada fazer em prol de seu próprio futuro. Egoísmo? Auto-imolação? Tentativa de respeitar o sofrimento da família de Tic? Sei que é um dilema moral e temporal, mas a execução me soou apressada e isso só para usar um eufemismo.

Agora que o Livro dos Nomes está de posse dos nossos heróis, com Hippolyta tendo “se transformado” em Orynthia Blue, a heroína das HQs da filha, é de se presumir que Dee será libertada da maldição e que os quatro terão ferramentas mágicas para enfrentar Christina em sua busca pela imortalidade. Considerando que Leti é invulnerável e que Tic está protegido do mal por seu simpático bichinho de estimação, Misha Green terá que fazer esforço dobrado para criar tensão ou dúvida sobre o que acontecerá no solstício de outono. Só torço mesmo para que Ji-Ah seja mais do que o espírito mágico que usará suas nove caudas para sugar a vida da vilã faltando três segundos para Tic morrer. Afinal, se é para ser assim, prefiro que ela nem apareça.

P.s.: Será que Jonathan Majors foi escalado como Kang no vindouro terceiro filme do Homem-Formiga por já ter experiência com viagem no tempo? 😎

Lovecraft Country – 1X09: Rewind 1921 (EUA, 11 de outubro de 2020)
Showrunner: Misha Green (baseado em romance de Matt Ruff)
Direção: Jeffrey Nachmanoff
Roteiro: Misha Green, Jonathan Kidd, Sonya Winton
Elenco: Jurnee Smollett, Jonathan Majors, Michael K. Williams, Aunjanue Ellis, Abbey Lee, Jada Harris, Wunmi Mosaku, Mac Brandt, Regina Taylor
Duração: 60 min.

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