Crítica | Loving Memory (1970)

“Que pena, Ambrose.”

Na carreira de um cineasta como Tony Scott, Loving Memory é um projeto bastante peculiar, que estreou em Cannes, mas não trouxe o nome do seu realizador às manchetes imediatamente. Por ser uma de suas primeiras obras, mais de uma década antes de estrear propriamente no comando de um longa-metragem, essa é uma entrada que surpreende, pois é, primeiramente, muito única em sua filmografia. Na realidade, ela nem parece ser dirigida por quem a dirigiu, o que somente comprova o talento do realizador, posteriormente tornando-se um dos maiores nomes do cinema de ação americano. Quem conhece mais a veia artística do cineasta, que remete-se à estética dos videoclipes musicais por conta das acentuadas estilizações e uma montagem muito frenética, certamente se chocará com o tom do média. Aqui, a monotonia, em contrapartida à velocidade, é uma constante, propagada por uma direção que se preocupa em transmitir perturbação não por meio de uma esquizofrenia, mas através do quão paciente é a condução. A câmera de Tony nesse seu média, portanto, é bem calma, o ritmo é vagaroso e as tomadas tanto quietas quanto inquietas.

Entretanto, a provocação permanece, em vista da narrativa que o projeto traz, e, consigo, um sentimento desconfortável inerente à maneira poética com que uma morte é tratada na obra. Essa sobriedade e meditação, presente no comando de Tony, encontra-se contrapondo um enredo macabro e, por consequência, engrandecendo a sua morbidez. O estranhamento do espectador é, consequentemente, quase imediato. Após sermos apresentados a um jovem do interior, noticiamos a sua morte por atropelamento. Tony Scott, contudo, não torna o acidente dos primeiros minutos um espetáculo. Mas, em um cinema completamente distinto do seu futuro, reduz o chocante – apenas um plano extremamente rápido do rosto do garoto chocado no para-brisa do carro -, para se ater a uma outra abordagem. Do contrário, a calmaria com que a protagonista (Rosamund Greenwood) e o seu irmão Ambrose (Roy Evans) retiram o corpo do jovem e o coloca no carro é evidenciada. Scott transforma um caso supostamente extraordinário em ordinário. Os próximos eventos, enquanto o morto continua com os olhares vidrados e inexpressivos, também assombram.

No decorrer do média-metragem, Tony Scott estabelecerá quem são esses personagens e também uma ambientação ímpar. O cineasta sempre se atém a retratar as passagens com um senso de rotina e uma atmosfera pacata. Depois do atropelamento, por exemplo, o roteiro preocupa-se com cada um dos passos que sucedem o acidente, misturando um dia-a-dia mais típico – cenas na cozinha e na mina – com a presença inquietante de uma pessoa morta em meio aos idosos. Como eles reagem ao jovem, interpretado por David Pugh, prova-se singular, porque o posicionam e o naturalizam em suas tranquilas existências, mesmo que seja por alguns dias apenas. O que temos, assim sendo, é quase uma hora do cotidiano da protagonista perto do morto, começando pelo momento que retira o corpo da rua, coloca-o no carro, retira do carro, coloca-o no sótão, retira do sótão e enfim coloca-o no caixão. Contribui ao tom da produção, no mais, não existir trilha-sonora, pois prefere-se estabelecer uma ordem procedural mais natural, em oposição à excepcionalidade da ocasião. E o próprio intérprete do irmão permanece sempre quieto, como se não se importasse.

O projeto, portanto, retrata a morte perdendo o seu sentido para se ressignificar nas tragédias dos que ficam. Ao mesmo tempo que existe essa rotina, em que prepara-se um enterro, a protagonista começa a associar o jovem morto com o seu passado. Conversas não surgem, ao passo que a senhora apenas monologa. As memórias que conta, com muita serenidade e tristeza, não são, no caso, do menino, mas suas, relacionadas a um personagem de sua vida, morto na guerra. Assim, torna-se estranhamente bonito o encaminhar de Loving Memory. Cinquenta minutos com poucos acontecimentos, contudo, são um exagero, principalmente por não existir muito exímio na revisão do passado da personagem, no texto em si. Em movimentar os dramas, os passos narrativos são insuficientes e cansam. O que se mantém, porém, é a competência de um cineasta que entendeu construção de atmosfera. E, como o média exemplifica bem, esse não é um talento seu presente apenas em gêneros específicos. Para alguém muitas vezes conhecido como o irmão de Ridley Scott, esse pequeno achado já prenunciava: o talento de um artista que provaria ser mais que isso.

Loving Memory – Reino Unido, 1970
Direção: Tony Scott
Roteiro: Tony Scott
Elenco: David Pugh, Roy Evans, Rosamund Greenwood
Duração: 52 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.