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Crítica | Luca (2021)

por Iann Jeliel
7894 views (a partir de agosto de 2020)

Luca

Algumas pessoas nunca vão aceitá-lo, mas outras vão. Luca

Não é de agora que a Pixar vem focando cada vez mais em histórias minimalistas e pessoais, em que o aspecto emocional dos personagens vale bem mais que o deslumbramento pela “casa” a que eles tanto buscam voltar. Luca (Jacob Tremblay), em sua uma jornada, na verdade alça abandoná-la a fim de descobrir um mundo muito maior do que as profundezas rasas do litoral onde habita. O personagem, meio humano e meio monstro marinho (ou mais ou menos isso), encontra uma improvável amizade da mesma espécie, no caloroso verão italiano, que o incentiva e compartilha seu desejo de fuga de realidade. Na cabeça deles, inicialmente, só é possível atingi-la caso eles adquiram uma moto “Vespa”, vencendo um torneio triatlo na cidade de Portorosso, um vilarejo de pescadores, certamente não amigáveis com os vizinhos marinhos. Contudo, conforme o desenrolar da trama, Luca e Alfonso (Jack Dylan Grazer) podem ou não descobrir outros caminhos que os levaram para a liberdade desejada.

A premissa, embora conduzida com seus pontos de originalidade, traz elementos discursivos remetentes a outras grandes histórias já vistas. O conceito da troca de corpo, de uma criatura do mar para um humano, certamente foi pego de Ponyo do Miyazaki – referenciado aqui também no nome da cidade –, embora a amizade seja entre dois seres com essa capacidade, e não apenas de humano com o diferente. Luca com a negação da família para conhecer o mundo humano remete muito à jornada de Ariel de A Pequena Sereia, fora que sua fuga para conhecer mais do mundo humano e tentar ser aceito como “um” corresponde à fábula de Pinóquio, modernizada no prisma do preconceito, já que o boneco de Gepeto não sofria injúria por ser um boneco, diferentemente de Luca e seu amigo que estão sujeitos a perseguição em qualquer momento que a água bater em seus corpos e revelar suas verdadeiras identidades “monstruosas”. É nessa linha que o estreante em longas animados, Enrico Casarosa, encontra brecha para desbravar as particularidades da sua história, que se desenvolve em alusões explícitas, embora nunca plenamente assumidas, de um coming of age LGBT+.

Há quem me acuse de estar viajando com essa suposição, afinal, o desenrolar deixa claro que o foco narrativo está na amizade dos dois, evitando qualquer tipo de linha romântica mais direta entre eles, ou deles com a outra personagem feminina introduzida para ajudá-los no triatlo. Giulia (Emma Berman) facilmente poderia ser um artefato de triângulo amoroso, como um desvio das diversas falas e situações subliminares da temática, mas a personagem ser motivo de ciúmes entre os dois em determinado momento corresponde à vontade do filme em ser mais do que uma amizade de verão. Luca, como toda animação da Pixar, precisa atingir em algum nível uma universalidade do seu discurso. Portanto, a leitura subjetiva de assumir a identidade homoafetiva seria uma de várias que poderiam ser encaixadas nesse espectro geral de um drama de descobrimento, aceitação social e autoaceitação, valendo para qualquer minoria julgada como “estranha”.

No entanto, pensando no efeito do desenvolvimento emocional da narrativa e em sua escala que visa a ser “pequena”, essa universalidade leva a salada de inspirações para uma execução efêmera. Não é ruim, mas é tímida, frustrante pensando numa estrutura que se inicia invertendo o prisma da fórmula Pixar, desenvolvendo-se firmemente frente a ela, e depois na climática, voltando ao seguro por entender a necessidade de continuar direcionando o caminho metafórico a um terreno amplo, embora aberto à chance tão literalmente no específico, só que sem o contexto certo para confirmá-lo no concreto da história. Até entendo a decisão final de não trazer o tema para a concretude, afinal, ele está longe de ser aceito em comodidade no terreno dos desenhos animados. O problema é que nem precisava de muito mais para quebrar a linha tênue entre os conectivos universais da história, para seu lado particular de modo natural.

Se o filme apostasse, por exemplo, mais no conflito do desconforto da família de Luca em relação à nova amizade para além de um rótulo vago de “má influência”, ou informasse indiretamente a motivação de um certo personagem ser órfão, manteria subliminar às crianças, mas deixaria mais claro aos adultos a mensagem desejada. Existe até uma tentativa disso, mas que fica em cima do muro por abranger e acumular outras temáticas como disfarce, sendo superficial em todas elas. O abandono infantil, o bullying, dentre outros levantamentos temáticos soam arbitrários de foco da trama (independentemente de como a interprete), levando-a para o foco, ao invés dos personagens, o que se torna um problema para a aposta final no lado emocional na história. Lembra Up: Altas Aventuras Ritter e vocês que adoram me perdoem, porque eu não gosto – em que se tem uma base dramática de arco perfeitamente desenhada, só que sem saber como preencher o caminho em uma aventura estimulante.

Já que não tem o auxílio de um universo inanimado com várias possibilidades lúdicas criativas a gerar divertimento (até tem umas sequências de sonho visualmente bonitas para explorar o lado técnico da animação, que a essa altura da Pixar, dispensa comentários), a animação conclui seu raciocínio, mas além de entregar uma jocosidade infantil genérica às crianças no caminho, falta afirmar um direcionamento para não tornar a lição universal final igualmente ordinária. A história quer ser menor, é verdade, mas nem por isso não poderia ser grandiosa no seu microcosmo. E a intenção era essa, sugerindo muito que queria levar o grandioso para esse lado “Me Chame Pelo Seu Nome”, inédito em animações de grande estúdio, mas infelizmente a impressão é que Luca se apequena perante a proposta de deixar tudo mais acessível. Ainda assim, é inegável que a animação é divertida, carismática e tem méritos como um primeiro passo, só por sugerir de maneira evidente o suficiente a ser pensada, em menor ou maior escala, inevitavelmente dessa forma.

Luca (Idem | 2021)
Direção: Enrico Casarosa
Roteiro: Jesse Andrews, Mike Jones, Enrico Casarosa, Simon Stephenson
Elenco: Jacob Tremblay, Jack Dylan Grazer, Emma Berman, Saverio Raimondo, Maya Rudolph, Marco Barricelli, Jim Gaffigan, Peter Sohn, Marina Massironi, Sandy Martin, Giacomo Gianniotti, Elisa Gabrielli, Mimi Maynard, Sacha Baron Cohen, Francesca Fanti, Jonathan Nichols, Enrico Casarosa, Jim Pirri
Duração: 95 minutos

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