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Crítica | Lucifer – 6ª Temporada

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

A renovação de Lucifer, pelo Netflix, para mais duas temporadas além do ótimo quarto ano da série me deixou com diversas pulgas atrás da orelha. E elas se provaram reais quando veio a alongadíssima quinta temporada de 16 episódios dividida em duas partes (a terceira maior da série toda) que esfriou tudo aquilo que o serviço de streaming havia conseguido fazer, retornando a série ao policial procedimental e deixando o lado celestial, mesmo com a presença de Deus, substancialmente em segundo plano. Minhas expectativas, portanto, para o sexto e último ano estavam baixas, o que talvez tenha ajuda em minha apreciação do que Joe Henderson e Ildy Modrovich conseguiram na despedida do diabo mais simpático da TV.

Mas devo dizer que o primeiro episódio – Esse Lugar Nunca Muda – me assustou tremendamente, pois justamente dar a entender que algo parecido com o status quo anterior seria mantido, ou seja, com episódios de resolução de crimes que refletem os dramas e dúvidas dos personagens, mais destacadamente Lucifer Morningstar, claro. E a reintrodução de Carol Corbett (Scott Porter), agora como um detetive todo certinho, substituindo Chloe e fazendo dobradinha como interesse amoroso para Ella, não ajudou muito, já que ele basicamente estava ali para cumprir funções bem específicas ao ponto de ele ser completamente esquecido até adiante na temporada e mesmo assim retornando só para a figuração. Estava, portanto, armado para detestar a temporada final.

Só que talvez por intervenção divina, não sei, os showrunners pela primeira na série, largaram quase que completamente o lado procedimental, para focar no lado celestial da série, fazendo com que a temporada ganhasse um bem-vindo ar de verdadeira despedida com revisitações a eventos e personagens de anos anteriores e o cuidadoso encerramento dos arcos de todo os personagens principais, mas sempre mantendo o romance de Lucifer e Chloe como centro das atenções. Para essa estrutura funcionar, porém, dois artifícios tiveram que ser usados, um deles bem comum na série e outro quase que completamente aleatório, mas que acaba funcionando.

O primeiro artifício é a boa e velha desculpa para Lucifer não assumir imediatamente o papel de Deus. Primeiro ele só mesmo empurra com a barriga, mas, depois, os eventos vão se amontoando e tornando sua aposentadoria divina junto com Chloe algo que evidentemente jamais poderia ser concretizada. Faz parte do jogo, lógico, caso contrário não haveria a temporada final ou ela seria extremamente curta. O segundo artifício é mais complexo e sua aleatoriedade vem do uso de viagem no tempo para introduzir Aurora, ou Rory (Brianna Hildebrand, de Deadpool, muito bem), a filha do futuro de Lucifer e Chloe, que é meio-anjo, com um sensacional par de asas rosas com lâminas no lugar de penas (lembrou-me imediatamente do Arcanjo dos X-Men).

Com um visual bacana, mas uma desculpa para ser inserida na série que demorei bastante para comprar, Rory é a verdadeira catalisadora de toda a narrativa da temporada, com o artifício da viagem no tempo, apensar de mantido sem explicação alguma, obedecendo uma boa lógica interna de loop temporal e a consequente e sempre interessante discussão sobre determinismo versus livre arbítrio, já que ela diz que, antes de ela nascer, Lucifer inexplicavelmente desapareceria, o que deixa o diabo incrédulo e cheio de dúvidas. É a presença disruptiva de Rory que não só permite que Dan seja retirado do inferno e levado para a Terra como um fantasma que só os celestiais conseguem ver e ouvir, como leva Lucifer e Chloe a uma espiral no relacionamento que lida fundamental com o diabo como pai e marido, que é o que realmente leva essa temporada a um final mais do que digno para os personagens.

As tramas paralelas são, quase todas elas, decorrências do que já havia sido introduzido antes. Temos a movimentada e sempre divertida concretização do casamento de Maze com Eva, a emocionante expiação do sentimento de culpa de Dan que finalmente lhe permite ir para o Céu, a descoberta da verdadeira vocação de Amenadiel, que assume o posto celestial máximo prometendo “reformas”, e uma espécie de fechamento quase metalinguístico para a Dra. Linda Martin, que escreve suas memórias que, por seu turno, são as nossas próprias memórias dos seis anos de série. Justificando o uso de meu “quase” no começo deste parágrafo, temos Ella que, apesar de ganhar o romance que merecia, tem uma trama em que ela prevê o apocalipse e que a leva a mostrar sua revolta por ser a última a saber do que estava acontecendo debaixo de seu nariz que não funciona nadinha, sendo muito mais forçada do que a chegada de Rory no presente e com uma resolução que não é bem uma resolução, pelo menos não uma que combine com o tão propalado apocalipse…

Inegavelmente, porém, a temporada final de Lucifer faz todo o esforço para fugir da estrutura padrão da série e ser realmente um encerramento interessante, algo que, sem dúvida alguma, merece ser elogiado. Ninguém é esquecido, ninguém do elenco principal faz só pequenas pontas, há um passeio efetivo e terno pelo passado e Chloe ganha um belíssimo destaque em razão do sacrifício que precisa fazer – e faz – para manter a linha do tempo e principalmente Rory intactas, o que ecoa, lógico, no sacrifício que Lucifer faz ao retornar ao Inferno não para gerenciar um sistema que já estava funcionando, mas sim para mudá-lo, vestindo o quepe de terapeuta da Dra. Martin (ou aceno importante à personagem, vale dizer) para tornar possível que seus “torturados” lidem com suas culpas e possam finalmente entrar no Paraíso, lugar em que Dan e, surpresa, surpresa, Charlotte Richards (Tricia Helfer em uma micro ponta), vivem felizes para sempre.

Nem tudo funciona bem, como a já abordada linha narrativa de Ella, o uso esparso demais de Carol na temporada e também episódios como Adeus, Lucifer, longo e lento demais, quase uma enrolação danada para se chegar ao clímax, mas problemas assim são compensados com a abordagem do racismo estrutural na polícia, algo que inegavelmente camba para o extremamente didático, mas que acaba funcionando, além de ser importante ser tratado ou com o episódio final, com a ação de resgate de Rory que realmente sabe jogar com as expectativas, deixando dúvidas sobre os destinos dos personagens, ainda que, no final das contas, ele jogue seguro.

Lucifer chega a seu final compensando os problemas trazidos pela penúltima temporada e entregando um encerramento substancialmente redondo para seus personagens, arriscando inclusive em deixar aquele gostinho agridoce na boca dos espectadores no que se refere ao casal principal. Focado nos problemas celestiais e introduzindo personagem nova que acaba fazendo as coisas funcionarem, a temporada renova a simpatia que todos temos por esse fleumático e musical diabo e leva a série ao fim que merecia ter.

Lucifer – 6ª Temporada (EUA – 10 de setembro de 2021)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner: Joe Henderson, Ildy Modrovich
Direção: Kevin Alejandro, Richard Speight Jr., Nathan Hope, Viet Nguyen, Lisa Demaine, Claudia Yarmy, D.B. Woodside, Sherwin Shilati
Roteiro: Mike Costa, Jen Graham Imada, Joe Henderson, Carly Woodworth, Lloyd Gilyard Jr., Ildy Modrovich, Julia Fontana, Aiyana White
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Scarlett Estevez, Rachael Harris, Aimee Garcia, Inbar Lavi, Brianna Hildebrand, Tricia Helfer
Duração: 524 min. (10 episódios)

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