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Crítica | Lupin – 1ª Temporada: Parte 1

por Kevin Rick
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Criar obras baseadas no legado de outras obras mais célebres pode ser uma tarefa hercúlea, especialmente pelo fato de precisar homenagear o material fonte, bebendo elementos do mesmo para manter a familiaridade esperada por fãs, enquanto constrói sua própria narrativa dentro deste já conhecido universo. E Arsène Lupin, famoso personagem literário, criado por Maurice Leblanc, está mais do que acostumado com gerações posteriores utilizarem sua herança como meio de criação de algo novo, dessemelhante a uma adaptação, manuseando referências, inspirações e hereditariedade do ladrão cavalheiro como maneira de conceber produções contemporâneas. Lupin III utiliza a sucessão parental, elaborando uma visão mais cômica e surreal para o estilo estabelecido por Leblanc, enquanto Lupin, a mais nova empreitada da Netflix, mergulha no conceito de homenagem, usando o próprio artifício de fã como cerne da narrativa.

Na série, acompanhamos Assane Diop (Omar Sy), um carismático criminoso que busca vingança por seu pai contra uma poderosa família endinheirada, mesquinha e auto-indulgente. Os criadores do show, George Kay e François Uzan, manipulam esse misticismo em torno do legado de Lupin, tornando a própria história de Assane uma busca por restituição de heranças familiares no contexto de caráter, usando da inspiração de herdade do personagem literário como paralelo à admiração e tributo à figura paterna de Assane. Aliás, toda a trama da série é preenchida com temáticas de legado, honra e transmissão de uma espécie de passar do bastão para próximas gerações. Vemos isso, como já dito, no relacionamento do protagonista com seu pai, utilizando as histórias do Arsène Lupin como conexão, mas aos pouquinhos a narrativa da obra vai elaborando essa atmosfera de passagem do tempo, com consequências de erros, escolhas e, simplesmente, inocência infantil, como matéria da evolução, seja ela maligna ou compassiva, dos personagens da série.

Para desviar de spoilers escandalosos, vou me ater a superficialidades para corroborar essa ideia de ambientação legatária e descendente de Lupin. O relacionamento que Assane cria com seu filho é análogo ao que seu próprio pai fazia, provendo um amor paternal incondicional, contudo, construindo uma relação distante, misteriosa e restrita, indo de encontro com a própria personificação do Lupin em Assane. Isso também é visto na família Pellegrini, que servem como antagonistas principais da história, na manipulação paternal de Hubert Pellegrini (Hervé Pierre) sobre sua filha, Juliette Pellegrini (Clotilde Hesme), e sua esposa, Anne Pellegrini (Nicole Garcia). Se não fosse o bastante, esse contexto de repercussão temporal é levado para personagens secundários, como o corrupto Inspetor Dumont, a antiga companheira de Assane, Claire (Ludivine Sagnier), em toda sua resignação e conformismo dos atos criminosos do protagonista, e na maravilhosa personagem Fabienne Beriot, uma jornalista renegada, interpretada brilhantemente por Anne Benoît, mergulhando na trágica vivência amargurada de alguém que viveu por sua carreira e a viu ser destruída pela corrupção humana.

Além disso, é importante notar o objetivo narrativo de misturar essa dramaticidade temática da vingança no teor elegante e magnético das aventuras de Assane, usando as histórias de Lupin como base de seus planos mirabolantes, numa série de exagerados roubos, fugas e infiltrações, sempre com muita simpatia e cavalheirismo do nosso querido criminoso protagonista. É nessa ambientação agradável das peripécias de Assane que o roteiro da série sobressai-se, proporcionando divertidas sequências, ainda que nem todas sejam bem manuseadas, sustentadas pela performance intocável (viu o que fiz aqui?) de Omar Sy, já conhecido por seu carisma natural desde Intocáveis (aha!). O sorriso aconchegante, a linguagem corporal sociável e o discurso cativante e malicioso vão construindo essa caracterização e personalidade do protagonista facilmente empático e afável, extremamente prazeroso de acompanhar e torcer por sua jornada.

Acho que a série peca justamente em certas descrenças nos planos do Assane, que são majoritariamente fascinantes e divertidos de assistir, mas muitas vezes percebi uma falta de imaginação e inventividade dos criadores da série em elaborar mais credibilidade para seus assaltos e escapadas. Obviamente que a ideia é que tudo seja absurdo e até mesmo fantasioso, mas isso não dá licença para os roteiristas simplesmente ignorarem o crível com tanto descaso. O arco da prisão é particularmente o mais fraco dos cinco episódios, me fazendo revirar os olhos várias vezes por certas escolhas narrativas tão remotas de serem críveis, que denominá-las de absurdo seria eufemismo, não pelos atos na sua complementação, mas pela falta de criatividade na construção até chegar nesse ponto. Somado a isso, senti que ao longo da duração desta primeira parte, a série vai perdendo a boa combinação de gêneros, da comicidade e elegância dos crimes com a trama dramática, utilizando demasiadamente plot-twists mal construídos, além de pouca qualidade dos diretores em construir cenas de suspense em perseguições e sequestros.

Por fim, apesar de algumas observações negativas para o roteiro que aos poucos se perde na construção da plausibilidade razoável e no equilíbrio das divergentes temáticas expostas, os cincos primeiros episódios que compõem a primeira parte da temporada inicial são extremamente promissores, usando bons discursos de legado, homenagem e identidade para Assane, que segura toda a duração do show através da magnética e carismática performance de Omar Sy. A Netflix começou o ano com mais um possível hit em Lupin, oferecendo uma produção muito divertida que promete bastante se souber trabalhar melhor seu contexto.

Lupin – 1ª Temporada: Parte 1 | França, 08 de janeiro de 2021
Criação: George Kay, François Uzan
Direção: Marcela Said, Ludovic Bernard, Louis Leterrier
Roteiro: George Kay, François Uzan
Elenco: Omar Sy, Hervé Pierre, Nicole Garcia, Clotilde Hesme, Ludivine Sagnier, Anne Benoît, Soufiane Guerrab, Antoine Gouy, Fargass Assandé, Shirine Boutella, Etan Simon, Vincent Londez
Duração: 231 min. (cinco episódios)

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